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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A Bicicleta na Rádio, TV e Cassete Pirata


Fala com Ela!

Mesmo no pino do inverno, a Bicicleta continua a cavalgar a onda mediática, qual McNamara nas águas do Canhão da Nazaré. Assim não admira que um Espanhol tenha ido ao Polo Sul de bicicleta, que haja uma saturação de bicicletas nas montras das lojas que ainda não faliram, na publicidade nas revistas que ainda não fecharam e na toda poderosa televisão, mesmo em anúncios de carros que não vendem.

Mas podem recorrer ao imaginário da bicicleta em mil campanhas de marketing, que não é isso que vai criar uma cultura que favoreça o seu uso generalizado e as vantagens que daí advém. Felizmente existe uma cultura da bicicleta a criar raízes entre nós, e as provas estão por todo o lado. De repente já não é só nos blogues estrangeiros que encontramos malta a vestir-se de uma certa maneira e a rolar num determinado tipo de biclas. São as Peugeot restauradas, as fixies, os bonés da praxe e tudo mais a dar o seu colorido à velha Olissipo.

Tudo isto é fixe, porque por cada hipster e freak hard core da "scene" das bicicletas, há de haver uns quantos utilizadores absolutamente normais, esses que um dia tornarão banal o uso da bicicleta como meio de transporte na cidade. A banalidade é muito pouco valorizada entre nós, mas acho que é para lá que devíamos caminhar. Sonho com o dia em que seja banal ir às compras de bicicleta. A Grande Marmota assim o permita.

Podem ouvir a "TSF Bikes" em podcast

Enquanto não chegamos lá, a bicicleta continua a somar pontos na exposição mediática. Na rádio, por exemplo, essa presença tem vindo a tornar-se cada vez mais notória. Em Janeiro a TSF deu início à transmissão do programa "TSF Bikes". Todas as quintas feiras, promete-se "estudar as bicicletas de uma ponta a outra. Tudo o que há a saber sobre elas vai ser partilhado em antena. Novidades, o que fazer e ter em conta para comprar uma bicicleta, opiniões de todos os que estão ligados a esta modalidade (...)"

Tenho escutado as emissões, que duram 12 a 15 minutos. Aquilo é realmente uma mistura de conselhos práticos, histórias e a história da bicicleta. Peca por recorrer a alguns lugares comuns e trocadilhos fáceis, mas acho que é um espaço com mérito. A verdade é que nenhuma outra rádio dedica tanto tempo à nossa realidade. Mas outros têm metido a colher: Laura Alves, co-autora do celebrado "A Gloriosa Bicicleta", deu uma entrevista à Radar, em Dezembro. Nesse memorável diálogo, a que só recentemente tive acesso, a jornalista e escritora fala da sua Felizbina, dos problemas com a malta do "estamos a trabalhar", do dia-a-dia em Lisboa e muito mais. É uma conversa deliciosa, que nós faz acreditar que ainda há pessoas inteligentes e com as ideias bem ordenadas no nosso Portugal dos pequeninos.

Hem??

Por fim, há por aí malta satisfeita com a obra megalómana do viaduto ciclo-pedonal da 2ª circular. Eu suponho que devia agradecer à Grande Marmota que se gaste ali o dinheiro em vez de em mais uma autoestrada urbana, mas não deixa de ser irónico que também com a mobilidade dos modos suaves se cometam os mesmos erros que com os popós. Quer dizer, não seria bem mais barato tomar mediadas para reduzir o trânsito automóvel e limitar a sua velocidade? E, sei lá, criar pontos de estacionamento seguros para bicicletas? Mas não, a aposta é, agora e sempre, em mais betão. Ciclovias novas, pontes novas, tudo à grande. Não temos cheta, mas a solução para tudo é sempre a "obra".

Há outras infraestruturas do género em Lisboa que têm muito pouco uso, justamente porque não se adequam aos trajectos casa-trabalho e estão mais ligados a uma lógica de lazer que parece perpetuar-se no ideário da CML. A suprema ironia e a prova definitiva de que a realidade supera sempre a ficção, é o facto de o viaduto da 2ª Circular ser financiado com dinheiro de uma petrolífera, que já antes patrocinara troços de ciclovias e outras ciclo-coisas lisboetas. Obrigado Fundação Galp! Há quem lhe chame "greenwhashing", eu acho que é só esquisito.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

2013 foi do camandro, 2014 vai ser do catano!

Eis-nos de novo naquela fatídica altura do ano: o momento da revisão no telejornal dos principais acontecimentos que foram notícia, em Portugal e no mundo, nos últimos doze meses. Ora sucede que 2013 foi um ano particularmente interessante para os apoiantes da causa do pedal. Mas se foi possível que a bicicleta fosse noticia ao longo dos últimos meses, não será certamente o tipo de coisa que as TV's se dediquem a recordar nesta época. Não se pode competir com o selfie no funeral do Mandela, ou com o regresso de Mourinho ao Chelsea.

Mas para isso estou cá eu. Sem mais demoras, das montanhas do Isaltinistão para o mundo, eis os mais importantes ciclo-aconteceimentos de 2013. Um ano que começou assim:

Um milhar em todo o país?

Logo no início do ano, as forças vivas do ciclismo e algumas celebridades uniram esforços para passar uma simples mensagem, basicamente recordar a todos que os ciclistas existem, também são utentes da via pública e que merecem ser respeitados. A exposição mediática conseguida na altura foi significativa.



Num sábado tempestuoso, em que foram emitidos alertas meteorológicos que recomendavam justamente às pessoas que não saíssem de casa, as televisões tinham outras coisas que noticiar. Mesmo assim não faltaram esforços para difundir um evento de nível nacional, que acabou por ter pouca adesão mas bastante divulgação. O Markl explica do que se tratava:



A aparente falta de adesão na altura chegou a ser criticada. Estava no entanto dado o mote para um ano extremamente mediático para a bicicleta no nosso país. Enquanto dezenas de milhares de portugueses fugiam à crise galopante e abandonavam este Portugal esquecido pela Grande Marmota que está no Céu, alguns para se instalarem em autênticos paraísos da bicicleta, por cá a luta continuava. Ainda que muitas vezes sobre o signo da excentricidade, a bicicleta ocupava cada vez mais espaço nos jornais, revistas e televisões.

Ainda no início do ano, entrevista com o director da FPCUB na RTP 2:



Hugo Sabido e Rui Sousa na RTP 2:



Além da mensagem mais institucional de organizações e ciclistas famosos, as TV's mostraram interesse, a uma escala nunca vista, por aqueles "maluquinhos" que trocaram o carro pela bicicleta na sua vida diária.

No Porto:



Ou em Lisboa:



São só alguns exemplos, porque em 2013 a bicicleta esteve definitivamente na moda, aparecendo cada vez mais em público não só em noticias como em campanhas de marketing e publicidade, ou mesmo como objecto decorativo. Em paralelo com tudo isto, era possível visualizar, nas ruas de Lisboa, um aumento significativo dos utilizadores de bicicleta. Não há estatísticas nem cálculos decentes que permitam estimar o número de ciclistas urbanos entre nós, mas tudo parece indicar, pelo menos a olhómetro, que têm vindo a aumentar substancialmente.

O culminar aparente desta dinâmica de crescimento real e mediático no uso e defesa da bicicleta como meio de transporte foi a aprovação, a meio do ano, de alterações ao código da estrada que contemplam algumas novidades interessantes para os ciclistas. Como nunca é demais recordar, as principais alterações são:

  • Obrigatoriedade dos veículos motorizados deixarem um espaço lateral de 1,5m na ultrapassagem a velocípedes, abrandando também a velocidade.
  • Equiparação dos velocípedes, para fins de definição de prioridade, a qualquer outro veículo nos cruzamentos não sinalizados.
  • Quando autorizado pelos municípios, os velocípedes poderão circular em faixas BUS.
  • Permissão de circulação nos passeios para crianças até aos 10 anos
  • Obrigatoriedade de cedência de passagem aos velocípedes quando atravessam as passagens especiais assinaladas para estes.
  • Fim da obrigatoriedade de circular o mais à direita possível da via.
  • Fim da obrigatoriedade de circular na ciclovia.
  • Fim da proibição de circular a par.

O decreto de lei que aprova esta coisa toda entra em vigor daqui a menos de 24 horas, a 1 de Janeiro de 2014. Há toda uma série de razões, históricas e sociais, para questionar a possível eficácia destas alterações. Mas deixemos isso para depois. Não menosprezemos o facto de que se tratou mesmo de uma grande vitória. O resultado do esforço e contributo de inúmeras pessoas e uma marco incontornável na caminhada para o que eu chamaria de normalidade no uso da bicicleta como meio de transporte. Ponto. 

A novidade de 2012 morreu em 2013

Em Lisboa, aparentemente por causa das reclamações de ciclistas e de automobilistas, a Câmara de Lisboa recuou nas polémicas alterações à circulação na Av. da Liberdade, e os ciclistas voltaram a poder usar as laterais da avenida. Infelizmente isso implica circular aos ziguezagues, e fazer mais quilómetros e paragens que o necessário, mas a velha CML prosseguiu em 2013 com a sua táctica habitual de dar um passo para a frente e dois passos para trás, no que aos modos suaves diz respeito.

Imagem: Público

Com a reeleição de António Costa, as coisas não devem mudar, provavelmente podemos continuar a contar com ciclovias decorativas e a tradicional falta de coragem para eliminar faixas de rodagem, reduzir os espaço de estacionamento público em excesso, acabar com o estacionamento selvagem, baixar os limites de velocidade, fiscalizar os muitos abusos rodoviários, etc. Nada tenho contra o António Costa, se calhar até era o candidato a Lisboa mais pró-modos-mais-ou-menos-suaves, mas isso diz alguma coisa do nosso complicado panorama político.

Também em 2013, onde há ciclovias há polémica

Mesmo assim, tivemos direito a mais ciclovias lisboetas em 2013. E mais estão, aparentemente, na forja. Nesse capítulo 2013 foi uma ano de mais do mesmo: mais obra e mais polémica também. As coisas vão andando, só não se sabe se é para a frente.

Rui Costa emocionado

Quem sabe para onde vai é outro Costa, e outro acontecimento incontornável de 2013: a vitória nos campeonatos do mundo de estrada de um rapaz promessa do ciclismo português, que tive o prazer de conhecer e fotografar certo dia na Povoa do Varzim. A magnitude da coisa escapou um pouco ao país devoto do futebol, mas mesmo assim o triunfo de Rui Costa em Florença dificilmente podia ser ignorado. Foi um ano muito especial para o português, que sumou ainda várias outras vitórias "menores", como duas etapas da Volta à França, e acabou premiado atleta do ano, à frente do colosso Cristiano Osvaldo. Coisa pouca.

E muito mais aconteceu em 2013. A velha raposa matreira Lance-Macho-Alfa-Armstrong foi finalmente obrigado a confessar os seus pecados, coisa que fez sem perder a sua lendária arrogância e sobranceria. A UCI parece continuar cheia da podres, mas até ao momento conseguiram sobreviver ao escândalo e tratam de convencer o público que as mesmas pessoas que estiveram na cama com o Armstrong (espero que não literalmente) gerem agora um desporto limpinho. 

"Tipo, menti e coiso. Mas vamos falar do MEU futuro"

Em 2013, apesar da crise, continuaram os eventos de bicicleta (menos o Bike Tour), as maratonas BTT, passeios Chic, festivais de cinema, etc. Também é cada vez mais fácil comprar uma bicicleta utilitária, não só há mais lojas vocacionadas também para o ciclista urbano, como as já existentes parecem ter acordado para este novo mercado de utilizadores (em vez de gozarem com eles).

"EP diz NÃO!"

Há outras lutas que foram adiadas, como a travessia ciclo-pedonal da Ponte 25 de Abril, uma possibilidade rejeitada liminarmente pela Estradas de Portugal. Ou a implementação da eternamente adiada rede de Bicicletas Partilhadas de Lisboa. Diz que algo está para breve.

E muito mais aconteceu em 2013, pelo que muito mais haveria a dizer. Mas não temos tempo. Deixo-vos com um último acontecimento feliz de 2013, mesmo que a maioria dos eleitores de Oeiras aparentemente não concordem. Um feliz e prospero 2014 para todos, com muita pedalada!

"O Vistas avisou-me para não deixar cair o sabonete"

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Lisboa de Bicicleta de Estrada: uma Saga de Pneus Fininhos

Mayda, mayday, mayday! Perda de controle! Queda eminente! Ahhhh!!! (Crash!). Este poderia ser o relato de uma hipotética caixa negra da minha Raleigh após o pequeno incidente de Sexta. Escusam de ir já a correr doar sangue, sentem-se e acabem de ler primeiro, eu estou óptimo. Há quem ache que uma queda de bicicleta é uma coisa normal e expectável, mas não eu. Para compreender este episódio é pois necessário que rebobinemos a poeirenta cassete do tempo até à semana passada, quando...

Com a roda xpto

...Choviam cães e gatos, o que não me impedia de acelerar pela Avenida da Liberdade abaixo a velocidades escassamente legais. Pequenos riachos tinham-se formado na ciclo-faixa-coisa, pelo que eu evitava circular por lá. E o preço a pagar por andar no meio da faixa em Lisboa é ter que andar depressa. Era o que eu estava a fazer, mesmo que já estivesse encharcado até aos ossos. A aderência dos meus pneus baratongos Michelin 700x28 não parava de me surpreender. Nessa noite enfrentei todo o tipo de superfícies urbanas desafiantes, carris, tinta de sinais, empedrado de granito, lajes de pedra lisa, grelhas metálicas, tudo muito bem molhado, sem qualquer surpresa.

Apesar de ter a confirmação de que os meus pneus eram adequados ao uso invernoso, faltava-me um elemento fundamental para tornar a minha bicicleta de estrada realmente polivalente, cuja compra eu tinha atrasado tempo demais. Guarda lamas, pois claro. A maioria da água que me tinha encharcado tinha vindo das rodas, não do céu. Tendo em conta as restrições de espaço dos travões e do próprio quadro, estava certo de ter feito uma boa opção com uns SKS Bluemels 35 e bastante satisfeito com o seu aspecto uma vez montados, até que tentei girar a roda dianteira. Estava presa.

Por mais que eu fizesse ajustes, a roda não passava livremente na zona do apoio do travão. Gastei horas com aquilo, mas a conclusão era inevitável: devido ao desenho do garfo era impossível montar pneus 28 com guarda-lamas. Atrás o problema não existia e era possível manter o pneu "largo". Precisava portanto de uma solução para a frente, pelo que pensei que talvez um pneu mais anoréctico não fosse assim tão mau para um uso utilitário.  

Bonito, bom, barato é que não

Deitei mãos à obra, que é como quem diz, pedi à co-habitante uma roda de estrada com um dos pneus queques que ela usa para o triatlo, um Michelin Pro3 Race 700x23 e fui com ele para Lisboa. Em ambiente urbano e perante os problemas do costume, como o empedrado desalinhado e o asfalto em mau estado, notavam-se mais vibrações e pancadas que o Pro3 não conseguia absorver da forma a que eu estava acostumado. Por outro lado, a maior leveza do conjunto do Aro Mavic e pneu 23, e o tão badalado menor atrito do pneu fininho, tornavam a bicicleta um tudo nada mais rápida. Em termos de aderência não me podia queixar, parecia ser equivalente ao seu primo Michelin mais largo. O que era excelente.

Vade retro!

Cheguei então à brilhante conclusão de que seria possível e quem sabe divertido enfrentar as ruas da capital com um bom pneu 23 na roda da frente e o 28 na roda de trás, que afinal é a que suporta mais peso. Apesar de ficar com a frente mais instável, (ou ágil e rápida, como diria o pessoal que gosta das finhinhas de corrida), estava disposto a viver com isso e ficava assim com a questão dos guarda lamas resolvida. Devolvi a roda xpto à co-habitante e fui arranjar um pneu para mim. Depois de ler algumas reviews achei que um bom compromisso preço-qualidade seria o Hutchinson Equinox 2. E fui comprar um.

O tamanho importa!

Sexta-feira tinha feito os últimos ajustes e estava certo de ter um setup fiável e funcional. Estava a chover outra vez e a estrada estava molhada, o cenário perfeito para testar o funcionamento do novo pneu e dos guarda-lamas. Acontece que menos de quilómetro e meio após sair de casa eu estava a sofrer de síndrome papal, estava literalmente a beijar o chão. Ao passar de uma zona de asfalto para uma de empedrado, um ligeiro rebordo molhado que tinha que subir fez escorregar irremediavelmente a roda da frente. Sou cuidadoso ao ponto da paranóia e estava alerta para essa possibilidade, mas mesmo assim fui ao tapete. O pneu da frente tinha pressão bem abaixo da recomendada, mas de nada serviu. Estava, como de costume, uma carro atrás de mim a fazer má vizinhança, mas felizmente passou ao largo, sem dúvida a caminho de contar lá em casa como "isso das bicicletes é mesmo perigoso".

Lado a lado: Equinox2 700x23; PRO3 Race 700x23 e Dynamic Sport 700x28

A minha falta de jeito para o BTT tem pelo menos o mérito de me ter feito ganhar experiência em quedas. Agora sou perito em cair sem me aleijar, e foi o caso. Só o ego e a manete do travão saíram magoados. Mas o Equinox 2 foi logo posto de lado, para derreter no rolo, e precisava portanto de uma solução alternativa. Após estudar várias possibilidades, acabei por simplesmente me atirar ao garfo com uma velha lima enferrujada e só parei quando havia espaço para colocar o guarda-lamas e o pneu Michelin 28. Foram só uns milímetros numa zona invisível, pelo que não penso ter comprometido nem a segurança nem a estética. Problema resolvido. Venha o próximo.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Bike Business

Like!!

Já abriram a vossa loja de nicho? Aquela que só vende quadros de pista retro, específicos para senhora, em titânio com escoras em madeira de mogno, que está mesmo a fazer falta à ciclista urbana lisboeta? Ou o bike-café da moda, ponto de encontro no centro de Lisboa para os milhares, centenas, dúzias, hum, várias pessoas que por lá circulam de bicicleta?

Lembro-me de estar sentado na Bike Boutique, com um latte fumegante à minha frente, a trocar ideias com os donos da pequena loja do Norte de Londres. Enquanto eles falavam dos seus projectos com bicicletas clássicas e ideias de negócio para a capital britânica, eu tive que lhes explicar que em Lisboa não se passava nada semelhante. Não havia nenhum bike-boom, não havia espaço para lojas de nicho de mercado, e que o mercado das bicicletas utilitárias mal existia. Se fosse hoje não diria a mesma coisa.

LentoRápidoBicicletas

Nos últimos tempos a rebolução parece ter acelerado. Claro que os carros ainda dominam as estradas, as pessoas ainda olham de lado para um adulto vestido de roupa normal a andar de bicicleta, mas lentamente há mudanças que se tornam visíveis nas ruas da capital. E não estou a falar de ciclovias. São lojas de bicicletas focadas numa clientela utilitária, em pessoas que usam a bicicleta como meio de transporte.

O negócio das bicicletas, e refiro-me ao retalho, vinha experimentado uma fabulosa década de crescimento, senão mais, que viu o país encher-se destes estabelecimentos comerciais onde se promovia uma certa visão elitista do ciclismo, sobretudo do BTT. Ir a uma destas lojas à procura de componentes baratos ou bicicletas utilitárias era expor-se ao ridículo e à chacota mal disfarçada de proprietários e funcionários.

Estes comerciantes e o clima que se construiu à sua volta conseguiram por algum tempo impor a ideia que qualquer bicicleta abaixo de mil euros não servia para nada e iria auto destruir-se em menos de uma semana de utilização. Ou que andar dez metros de bicicleta sem estar devidamente protegido por um capacete e luvas de marca resultaria em morte imediata. O termo jocoso "bicicleta de passeio" impôs-se sobre qualquer modelo que não fosse de BTT à séria ou de estrada, as únicas modalidades tidas como legítimas, sendo que mesmo assim durante anos muita da tribo do BTT desprezava os "licras asfálticos", vistos como um anacronismo, coisa para velhos saudosos da Volta a Portugal dos anos 80.

Será Cycle Chic?
   
Hoje as coisas estão diferente, e muita gente tem vindo a arriscar, numa conjuntura incrivelmente difícil, abrir um negócio de bicicletas que visasse um público mais interessado nas questões da mobilidade urbana do que no desporto. Ainda são a minoria, mas uma minoria em crescimento, em claro contra-ciclo com outras muitas áreas da economia num Portugal falido e psicologicamente de rastros.   

No espaço de poucos anos passamos a ter por cá coisas tão impensáveis como um importador da Bromptom, bastante activo, vimos surgir marcas de bicicletas nacionais novas, lojas dedicadas aos ciclista urbano com gosto pelo requinte, sites de venda online, oficinas de restauro, empresas de estafetas, jornais e revistas.

A visibilidade conseguida nos meios de comunicação social também não para de aumentar, ainda hoje passou mais uma reportagem na RTP sobre a emergência do ciclista urbano e dos negócios sobre rodas. Este facto é importante para quem tem dinheiro investido em actividades ligadas ao pedal, e têm obrigado alguns retalhistas tradicionais do desporto-crabono a tratar decentemente a nova clientela que quer as tais "bicicletas de passeio".

O original

É difícil imaginar um tempo em que não havia um Cenas a Pedal, nem um Lisboa Bike Tour, em que os transportes públicos proibiam ou cobravam pelo transporte de bicicletas, em que não havia ciclovias nem legislação adequada para o ciclista da capital... Oops, espera lá, na verdade ciclovias só há aquelas coisas perigosas pintadas em cima do passeio, que obrigam a andar quase sempre desmontado, e as alterações ao código da estrada ainda não passaram da declaração de (boas)intenções.

Mesmo assim é possível olhar para trás e ver o caminho percorrido. Não admira que tantos entusiastas da bicicleta tenham decidido fazer da causa o seu modo de vida, o seu ganha pão. O ciclista lisboeta tem hoje escolha que começa numa Órbita dos Armazens Airaf e pode ir até uma Velorbis da Velo Culture, para dar só um exemplo. Pode ler o Jornal Pedal numa pausa do trabalho, ou escolher um dos muitos blogues que como este, dissecam a cycle scene.
 
O ciclista urbano cá do burgo pode ir ao Bicycle Film Festival esta semana, participar em discussões no Fórum das Dobráveis, tomar um café enquanto lhe montam um acessório na bicicleta no Velocité Café e encomendar via esperto-fone umas peças novas para a fixie, no Roda Gira. Pode mandar entregar rosas à amada (ou à amante) via Camisola Amarela e inscrever-se num dos muitos passeios da Federação de Cicloturismo ou do Cycle Chic.

A continuar assim, o Reichfürer Barbosa ainda se candidata é à presidência da FPCUB.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O Inverno do nosso contentamento

Frio, escuro e molhado: razões para apanhar o autocarro?

E então, quem é que ainda não apanhou uma molha este ano? Ninguém levanta o braço? Não? Pois, o tempo tem estado bom para as couves e as laranjas, mas um pouco mais complicado para o ciclista urbano. Apesar disso, ou é impressão minha ou há muito mais pessoal a pedalar pelo inverno adentro do que aquilo que é costume.

Por exemplo, esta altura do campeonato, há um ano ou dois atrás, o estacionamento da minha faculdade já estaria deserto. Só a Grande Marmota Ciclista que está no Céu saberá se é por causa da crise, ou se será para irritar o Reichfuürer Barbosa, mas aquilo este ano tem estado muito mais compostinho. Hoje por exemplo, um dia de chuva, estava assim:

Sobravam 2 lugares...

Não só vejo mais bicicletas estacionadas, como também as tenho visto a rolar. É difícil tomar o pulso à situação, não há números, mas eu vejo realmente mais ciclistas pelas ruas de Lisboa. Tenho apanhado outras pessoas de bicicleta em semáforos, coisa muito rara não há muito tempo atrás. Os encontros repetem-se, espero que se tornem mesmo rotineiros.

Ainda não estamos lá, por isso recordo quase toda a gente com quem me cruzo: uma bicicleta com pendura a circular à noite, a chegar aos Restauradores; ser ultrapassado pelo Paulo Guerra dos Santos na Av. 5 de Outubro; hoje vi mesmo vários outros ciclistas na Baixa, a enfrentar a chuva de Lisboa também com bicicletas de estrada já entradotas. 

Já punha uns guarda-lamas...
  
Toda a gente tem as suas estratégias para lidar com os dias de chuva. Eu tenho as minhas. Além de passar a vida a consultar o boletim meteorológico, a minha regra principal é muito simples: se estivera a cair chuva digna desse nome na hora de sair de casa, vou de transportes. Se não estiver a chover, mesmo que a previsão seja má, lá vou eu. Tenho um impermeável daqueles grandes tipo poncho, mas raramente uso, tal como as calças impermeáveis. Aquilo aquece muito e eu não vou gastar dinheiro em material mais respirável xpto. Em geral, acabo por usar só um impermeável mais levezinho, só a parte de cima, e se chover mesmo à séria quando estou a caminho, paro e espero. Tenho a vantagem de os meus compromissos serem bastante flexíveis, quero dizer, eu pelo menos acho que são... 

Não tenho guarda-lamas montados na Raleigh, e bem tenho sentido a sua falta. Já vêm uns a caminho. É uma peça vital, sem eles a bicicleta e o ciclista rapidamente ficam num estado deplorável, mesmo que não chova, basta a estrada estar molhada:

Mais coisas para eu limpar

O inverno lá se vai aproximando a passos largos, mas com alguma preparação é possível continuar a pedalar pelas ruas da velha Olisippo. Eu estou entusiasmado com o crescimento sustentado aparente do nosso ciclismo utilitário, não há semana que passe em que não abra uma nova loja, ou saia alguma coisa relevante na comunicação social sobre bicicletas, ou comprove eu próprio, empiricamente, no terreno, que eles andam aí. Mesmo à chuva.

Mmmmm, binho....


A minha não será a bicicleta mais indicada para o inverno, mas o nosso por cá nem é muito digno desse nome, e este ano vai ser mesmo à base de bicicleta de estrada jurássica. Espero ver mais dinossauros destes a rolar por Lisboa, tal como bicicletas e ciclistas de todo o tipo, mesmo quando o tempo não facilita. 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Música na minha cabeça

Chamem-lhe Jukebox

A cidade é o caos.

Circular em Lisboa é percorrer uma espécie de percurso de obstáculos, uns conhecidos, outros sempre novos e literalmente surpreendentes. O caminho exige concentração e um certo esforço. Desde que tenho a Raleigh que circulo também mais depressa, e ao fazê-lo procuro evitar os perigos da urbe, os carris de eléctrico, os peões distraídos, os taxistas enraivecidos e os outros mamutes metálicos tresmalhados.

Apesar de ir muito atento, sempre sem conceder facilidades à fortuna e ao acaso, por vezes uma coisa estranha acontece. Os movimentos tornam-se muito fluidos, instintivos mesmo, e tudo parece ficar sobre controle. Como se de outro estágio de consciência se tratasse, de repente sou capaz de escutar coisas como o som da corrente a passar nos carretos, ou sentir a quantidade exacta de atrito que os pneus estão a gerar. Normalmente por esta altura surge também um som na minha cabeça, uma música que toma conta dos meandros do meu cérebro, sem ter sido convidada. Normalmente não é algo que eu costume escutar, mas simplesmente uma música que eu já ouvi alguma vez, nalgum lado.

E assim dou por mim a escutar Heroes, do David Bowie, ao subir a Avenida da Liberdade, tão bem como se tivesse uns oscultadores colocados (que nunca uso). A culpa provavelmente é da cerimónia de abertura dos Jogos Parolimpicos em Londres. Acho incrível como sou capaz de me lembrar da letra de uma melodia que não ouviu assim tantas vezes.

Outras vezes, em alturas de maiores velocidades e perigos, sou inundado com um som do Moby, Extreme Ways provavelmente tirado da banda sonora da saga Bourne, de que sou fã. Em alternativa e nas mesmas circunstâncias acontece-me também ter Rolling Stones na cabeça, concretamente o Gimme Shelter que toca, invisível e inaudível, a altos berros dentro do meu cérebro. É uma canção usada em inúmeros filmes de guerra, por isso não estranho que o meu subconsciente a vá buscar quando estou no meio do trânsito.

Mais estranho é uma melodia que me costuma acompanhar em momentos de cansaço e esforço especialmente difíceis, como circular numa estrada nacional sem berma, de noite. É algo que devo ter apanhado nalguma discoteca há muitos muitos anos e que tive que ir pesquisar para ver o que era:



Este "One More Time" costuma traduzir-se em "mais uma pedalada" e mais de uma vez este som me ajudou a concluir uma viagem e a chegar a casa. Será caso para procurar o terapeuta?

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

No Reino das Percepções Apressadas

Com um aceno negativo, o condutor fez-me compreender exactamente o que estava a pensar. Já tinha visto aquele olhar reprovador antes, muitas vezes certamente, mas uma em particular veio à memória. Aquela expressão de desagrado resignado, de paternalista paciência, como quem diz: estes tipos são todos parvos, o que é que eu hei de fazer...

De repente estava no Sul de Espanha, não muito longe da fronteira, há muitas luas atrás, a estacionar o carro perto de uma praia cheia de história para mim e alguns amigos. Estava decidido a não alimentar os rendimentos do arrumador-chunga local, essa original  exportação portuguesa, e coloquei o carro longe do lugar que ele indicava e basicamente ignorei-o. No regresso vi como ele me olhava, como observava com ar de julgamento a forma como eu conduzia. A sua expressão de censura dizia tudo: "carro com matrícula portuguesa" + "os portugueses são todos umas bestas ao volante" = "este tipo que estacionou sem a minha autorização é uma besta". E uma besta forreta ainda por cima.

Esta posta é uma seca. Foto de gatinho para compensar

Ainda não tinha andado cinquenta metros hoje, de bicicleta, e estava a levar com a mesma expressão, o mesmo aceno negativo, o mesmo tipo de julgamento. Desta vez porque o senhor que seguia no seu pópó no sentido contrario, ocupando toda a estrada, teve que se desviar para não me passar a ferro. Deduzo que ele pensava que a rua teria apenas um sentido, uma distracção algo comum no local em causa. Mas em vez de concluir que estava a cometer um erro, assim que viu um ciclista, tomou logo a decisão mais lógica: "os ciclistas são todos vândalos" + "a rua parece ser de sentido único" = "Este tipo é parvo e eu é que ainda tenho que me desviar para ele não morrer"

É por estas e por outras que tenho pouca paciência para os artistas que por aí se vêem a fazer todo tipo de barbaridades na estrada (e no passeio!) e que dão mau nome ao ciclista comum. Por outro lado, dado o estado da infraestrutura rodoviária em Lisboa, ainda é muito difícil a um ciclista cumprir o aberrante código da estrada a 100%, ou nunca conseguiríamos chegar sequer a nenhum lado. E isso é algo que um automobilista, para quem a infraestrutura foi pensada quase em exclusivo tem muita dificuldade em compreender.

Um amigo meu queixava-se recentemente no Livro-dos-Focinhos sobre vários casos de comportamentos "perigosos" de ciclistas que ele tinha presenciado e concluía que assim não lhe ficava grande vontade de dar ele próprio umas pedaladas, já que claramente não queria ser confundido com aquele tipo de gente. E assim andamos, todos cheios de razão, todos um bocado frustrados ao fim do dia, quando no fundo todos queremos apenas chegar ao destino em segurança. O Snob falava justamente deste tipo de agruras do commuting, no seu livro mais recente, e dava umas sugestões, se calhar tenho que ir ler aquilo outra vez.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Lisboa de Bicicleta de Estrada

Lisboa, Terreiro do Paço


Depois do sucesso em Londres, a Raleigh veio comigo para espalhar charme pelas ruas de Lisboa. (E talvez um bocadinho de óleo também). Ora eu estava à espera de encontrar diferenças e até alguns problemas no uso de uma bicicleta de estrada em Lisboa e, vai-se a ver, tinha razão.

1. Transmissão. Há varias questões a ponderar. Para começo de conversa, que tal as lendárias e absolutamente míticas colinas de Lisboa? Se há coisa que vem sempre à baila em conversas sobre biclas e ciclismo utilitário, até na imprensa, são as colinas. As colinas são o nosso fado. E a derradeira desculpa de uma sociedade comodista, perdida em provincianos ideais de "conforto". Sim, Lisboa não é plana, mas poucas cidades o são, completamente. A minha Raleigh vem munida com uns pratos 52-42 e carreto 14-24. São mudanças relativamente pesadas, normais numa bicicleta de corrida, que privilegiam mais a velocidade do que as subidas. Mesmo assim, não tive qualquer problema em Lisboa, até agora têm chegado para tudo.

2. Piso. Lisboa tem piso bom, assim-assim, e completamente terceiro-mundista. Do excelente ao deplorável pode levar só alguns metros. As bicicletas de estrada preferem asfalto perfeitamente liso, e se esse pavimento pode ser encontrado em Lisboa, é mais fácil localizar empedrado ondulado, asfalto esburacado e deformado, e lajes de betão desalinhadas nas ruas da capital. Mesmo munido de pneus largos 700x28, a Raleigh sofre bastante em algumas zonas de Lisboa. (Av. Duque de Loulé, Rossio, Av. da Liberdade, Rua do Ouro, Cais do Sodré, e um longo etc.) As vibrações e os solavancos podem ser mais que muitos, e é aqui que um modelo de bicicleta com suspensão e/ou um quadro mais robusto claramente leva vantagem. Outro problema nefasto são os carris de eléctrico, onde um pneu 28 cabe sem dificuldade. Todo o cuidado é pouco.

3. Velocidade. Vou vos contar um pequeno segredo. É daquelas coisas que toda a gente no fundo sabe, mas não quer aceitar: todas as bicicletas andam à mesma velocidade em ambiente urbano. O que conta realmente é o motor. Não acreditam? Façam o teste. Num percurso conhecido usem uma bicicleta urbana de 25 kg e 3 mudanças. Depois, noutro dia, façam o mesmo percurso, mas com a vossa máquina desportiva predilecta, tipo uma bicicleta de estrada em crabono de 8 kg e pneus anorécticos. Aposto que a diferença de tempos nunca ultrapassará um minuto ou dois. Isso porque a cidade, com os seus cruzamentos, semáforos, passagens de peões, impõem o seu próprio ritmo. E foi isso mesmo que eu constatei. A Raleigh não é mais rápida a realizar os meus trajectos tradicionais que o era a minha Riverside (7 kg mais pesada) ou a minha BTT adaptada (4 kg mais pesada). Levo exactamente o mesmo tempo. Isso não invalida que eu possa agora acelerar mais rápido ou manter facilmente uma velocidade mais elevada, o que permite fugir dos Fogareirus Raivosum e torna mais fácil (e divertido!) conviver com o resto do trânsito.  

4. Utilitarismo. A maior parte das bicicletas de estrada não têm apoios para grades porta-bagagens ou guarda lamas, não toleram pneus largos, não protegem a  roupa da transmissão e obrigam a posições agressivas, pouco confortáveis. Um modelo mais idoso, como o meu, normalmente sofre de apenas alguns destes males. Graças a uma maior altura do avanço, tenho uma posição confortável, a Raleigh aceita pneus relativamente largos e tem apoios para guarda-lamas. O transporte de carga é que está mais complicado de resolver. Há muitas hipóteses, desde "p-clips" no quadro para colocar a grade porta-bagagens, a grelhas dianteiras, "saddle bags", as opções são várias, até agora tenho optado pela fatídica mochila. Quanto ao sujar a roupa, já me acostumei a dobrar a perna das calças do lado direito. Para quê complicar? 

sábado, 22 de setembro de 2012

Obras da Rotunda do Marquês: 2ª Opinião

É melhor trazer a BTT...

Após a primeira inspecção, a pé e sem pressas, faltava sentir na pratica como é circular de bicicleta por esta zona após as mediáticas alterações. Utilizei para me deslocar a minha importação Britânica, a Raleigh de estrada. Recordo que se trata de um modelo do Cretáceo Superior, concretamente do inicio dos anos oitenta, com quadro em aço e que monta pneus largos 700x28.  

Este set-up provou ser robusto e confortável nas ruas de Londres, mas em Lisboa esperava-me uma grande surpresa. Primeiro os pneus 28 revelam-se insuficientes para abordar os carris de eléctrico com segurança. Há vários relatos de quedas na rua da Prata por culpa dos carris, e eu passo lá com frequência, mas também não estou à espera que um país e uma câmara municipal praticamente na falência se preocupem com estas questões. Pior é constatar que os arranjos na Av. da Liberdade tenham na prática prejudicado os ciclistas.

Quanto custaria asfaltar a berma e pintar de uma cor diferente?

A berma: é verdade que a faixa BUS onde agora podemos legalmente circular é larga e garante alguma segurança ao ciclista. Acontece que uma das razões porque os taxistas e motoristas da carris respeitam o meu espaço é simplesmente porque não querem pôr lá as rodas! A berma está em péssimo estado e circular por ali em qualquer bicicleta sem suspensão é um convite a partir alguma coisa. No sentido Norte-Sul então é quase suicídio. Vibrações capazes fazer largar o guiador são uma constante. Não volto lá de bicicleta de estrada.

As laterais: por causa da alteração de sentidos nas laterais, na prática o ciclista não pode usa-las como alternativa. Tem mesmo que se sujeitar à berma manhosa e ao trânsito da Avenida, que continua, apesar de tudo, demasiado rápido e agressivo.

A lei é para os outros: na faixa BUS não só somos obrigados a conviver com taxistas (Fogareirus Raivosum) e motoristas da Carris, que curiosamente parecem muito mais agressivos agora que podemos legalmente partilhar o espaço com eles, como temos que levar com um número inacreditável de ligeiros de passageiros, cujos condutores também usam o BUS, porque lhes apetece. (Ou se calhar porque o ReichFürer Barbosa lhes disse). Metem o pisca nos Restauradores e vão pela faixa da direita (a BUS!) até ao Marquês, a fingir que vão virar. Como sabem que o que estão a fazer é ilegal, são ainda mais violentos que o resto dos enlatados enlouquecidos.

Sinalização: Não há marcas na estrada, a sinalizar que as bicicletas lá podem circular, não há caixas para bicicletas na frente dos semáforos, e quando a faixa BUS/Bici acaba, e acaba sem sinalização, estamos de novo a cometer uma ilegalidade se prosseguimos pelo BUS "normal" e arriscamos o pelo se tendo uma faixa à direita (BUS ou não), circulamos numa mais à esquerda.

As coisas melhoram sim na Rotunda, onde o trânsito flui agora com mais moderação nas velocidades e onde é sempre possível dar a volta por fora, mais devagar e com menos risco.

Em suma, sendo que um dos principais objectivos destas alterações é baixar a poluição na Avenida da Liberdade, não percebo porquê eu, no meu veículo não poluidor, não me sinto bem vindo àquele espaço (para usar um eufemismo). Fica mais uma vez a ideia de quem planeia estas coisas vive fechado num bunker da CML e nunca andou de bicicleta na vida, muito menos na Avenida da Liberdade e no Marquês de Pombal. Esta é afinal a Câmara Municipal que inventou a ciclovia em empedrado esburacado com carris de eléctrico incorporados, por isso se calhar não deveria estar surpreendido:

Única no Mundo: ciclovia partilhada Eléctrico/cavalo/Bici!

Mais opiniões sobre toda esta problemática podem ser lidas em muitos sítios, eu destacaria este.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

De volta ao faroeste: Lisboa no Outono

Isaltino: o homem, o herói, a lêndea viva

Esta fotografia é uma espécie de alegoria do nosso país. Vejamos: temos um querido líder, eternamente reeleito apesar de todas as evidencias e condenações, colocado encima do símbolo de status e poder preferido da Portugalidade, o automóvel, a fazer uma demonstração da sua escassa inteligência. Ao longe, o povo aguarda, como sereno espectador apenas, pelo desfecho de acontecimentos sobre os quais sente que não tem qualquer controle, nem responsabilidade. 

Não me quero parecer com o cliché do emigrante retornado da França, mas regressar a Lisboa significa voltar à má educação das pessoas nos transportes públicos, ao grosseiro desrespeito pela vida dos outros no trânsito, aos políticos corruptos, imorais e inimputáveis, à interminável burocracia e incompreensível incompetência. Regressar à terra das regras pouco claras e das autoridades muito pouco preocupadas em fazê-las cumprir. Lisboa da caca de cão, dos espaços públicos decadentes, dos passeios usados para tudo menos para andar, e das celebridades provincianas. A lista é muito longa e deprimente.

Andar de bicicleta em Lisboa implica deixar de poder circular na relativa segurança dos corredores BUS, não dispor de ciclo-faixas, não ter sinalização específica. Em Lisboa sou obrigado por lei a circular em "ciclovias" desenhadas por macacos vesgos (onde elas existam), e não por onde for mais seguro e conveniente para mim. Em Lisboa tenho que, legalmente, circular encostado à berma direita, de modo a que os automobilistas não tenham que perder tempo para me ultrapassar. Em Lisboa muitas ruas são na prática autoestradas, com múltiplas faixas, onde se praticam diária e impunemente velocidades criminosas. E em Lisboa terei pouca companhia de outros ciclistas, uma raridade de excêntricos e probretanas, aos olhos da maioria iluminada.



Nem tudo é mau no entanto. Prova disso é a realização do primeiro campeonato Brompton em Portugal, no dia 22, na Praça do Império. Conversando com alguns donos de lojas de bicicletas lisboetas que vendem as lendárias bicicletas dobráveis, feitas à mão aqui mesmo em Londres, fiquei com a ideia que estavam a ser um sucesso de vendas. Este evento confirma essa ideia. Uma cidade que organiza um campeonato Brompton só pode estar pelo menos a caminho da civilização. Esperemos. E para quem não faz a menor ideia do que se trata, espreitem isto:



On other news, uma das possibilidades de melhorar as condições de circulação para ciclistas em Lisboa é recorrer ao Orçamento Participativo. A edição deste ano está na fase de apresentação dos projectos que sobreviveram à pré-selecção da CML.



A proposta em que estive envolvido foi fundida com outra, por razões que só a CML saberá. Tem agora o número 151. Fico com a ideia que eles pretendem gastar o orçamento destinado OP em coisas para as quais a CML precisa de dinheiro, mas não quero ser mal pensado. As esperanças de que o projecto saia mesmo assim vencedor e que depois seja de facto executado, e tecnicamente bem executado são compreensivelmente reduzidas. Mas a esperança é a última a morrer.

Muitos mais sinais como este, será possível Sr. Costa?

Enquanto vou tendo pesadelos sobre o meu regresso à capital portuguesa, vou fazendo preparativos para levar a minha bicicleta inglesa para lá. Tendo descoberto recentemente a utilidade de uma bicicleta de estrada para o transporte utilitário, espero que a Raleigh seja um sucesso também em Lisboa e ajude a navegar em segurança a selva de enlatados. Só tem que sobreviver aos bagageiros da TAP primeiro.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

A Raposa e a Raleigh


Ela vive num barracão suburbano, onde passa as noites do curto verão londrino, umas vezes sozinha, outras acompanhada. Já viu dias melhores, e as suas linhas elegantes não atraem tanto olhares como noutros tempos. Para os menos atentos, ela está velha e gasta, acabada. É um produto de um outro tempo, de uma outra era. No entanto, as suas origens são nobres, senão mesmo aristocráticas.

Uma Raleigh no shed

Muita coisa mudou desde o início dos anos 80. A maioria dos quadros da Raleigh já não são em aço, nem são feitos em Inglaterra, como o meu. A minha Raleigh pode ter ferrugem no quadro, apenas 12 mudanças e dormir com as raposas, mas é um velocípede de uma marca com 125 anos de existência e que foi em tempos o maior fabricante mundial de bicicletas. E isso é dizer alguma coisa. Mas ter história não é tudo, e esta racer tem outras qualidades.

"I feel the need, the need for speed!"

Já devem estar fartos de me ouvir falar sobre o conforto dos quadros em aço, e deste em particular. Mas é verdade. Nos tempos em que não havia suspensões nem quadros em carbono, já se sabia como lidar com as vibrações e com as irregularidades da estrada. Afinal, o asfalto dos anos oitenta não era melhor que o actual. E Não se trata só do material, neste caso um relativamente humilde aço Reynolds 501. A geometria do quadro também contribui para o efeito "tapete voador", sendo agressivo quanto baste, garantindo boas acelerações, mas permitindo algum conforto e boa estabilidade. 


Not "crabon" baby!

Fiz algumas alterações a esta máquina. Antes estava assim. Tirei os autocolantes, o que acho que melhorou bastante o aspecto da bicla. O aspecto não é tudo e a travagem era um autentico perigo. Por isso coloquei manetes e travões novos, da Tekro. Não foi uma modificação muito dispendiosa, mas foi essencial. Agora o poder de travagem está finalmente à altura das velocidades que a Raleigh permite. 


Old 12 speed, travões modernos
As manetes e a fita trouxeram mais conforto ao guiador
A única outra peça moderna é um selim baratongo. Ok, e a fita do guiador. E os pneus. E as câmaras de ar. E os cabos dos travões. Mas tudo somado, ainda não cheguei ao valor de uma bicicleta de estrada nova, das mais baratas, em alumínio, do género que nunca seria tão versátil ou rápida como esta.

Não é tão mau como parece...

A vista do cockpit

Tal como a raposa que gosta de a visitar no Shed que lhe serve de guarida, a minha Raleigh é rápida e ágil. Adapta-se bem ao seu meio ambiente, que mudou muito em três décadas. Ela é uma sobrevivente de uma outra era, com vantagens que a tornam muito interessante para o uso utilitário, e ainda tem muito para dar. Por isso decidi leva-la de volta para Portugal.

Size matters!

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Retro-Ciclismo-Veicular na velha Londinium

Do tempo em que os homens eram homens e Shimano SIS era material do bom

Depois de terem lido que eu tenho usado uma ancestral bicicleta de estrada inglesa nas ruas de Londres, um dos meus dois assíduos leitores pode ter-se questionado sobre como será a experiência. Ou não. Seja como for, resolvi falar disso.

Nunca tinha andado numa bicicleta de estrada por mais do que uns minutos, por isso o tipo de bicicleta em si era uma novidade para mim. Tal como meter mudanças com shifters no quadro. Ou ter travões que na verdade não travam, só abrandam. Ligeiramente. Às vezes.
 
 
A blast from the past

Nunca acreditei muito nas potencialidades utilitárias das bicicletas de estrada, com os seus quadros frágeis e componentes ultra leves. Excepto talvez as mais antigas, fininhas mas em aço, com maior tolerância para pneus largos, guarda-lamas, e outros extras práticos. O ciclismo veicular exige velocidades elevadas, para tentar acompanhar o trânsito motorizado e isso faz com que as bicicletas "rápidas" sejam especialmente desejadas por cá. E na prática, só há dois tipos de bicicletas rápidas: híbridas leves e bicicletas de estrada, em todas as suas variantes.   

Park it like a boss!

Aqui é muito fácil encontrar dispendiosos modelos em carbono amarrados a postes. É o que as pessoas usam para ir para o trabalho. Também há muitas empresas que têm balneários com chuveiros e isso faz com que os commuters possam ir vestidos de licra e suarem tudo o que quiserem a caminho do trabalho. Muitos chamam-lhe treino.

Uma impressionante percentagem destas bicicletas nem sequer têm guarda-lamas, numa cidade famosa pela sua pluviosidade. Justificadamente, devo dizer. Mas o que interessa mesmo é falar da experiência, como é rolar no meio do trânsito londrino numa bicicleta de estrada com 30 anos? É porreiro. Pá. É assustador ao princípio, quando se sabe que a bicicleta não trava nada de jeito, travões dos anos 80 têm dessas coisas, mas com o tempo vamos ganhando experiência e habituei-me a antecipar os problemas, para não ter que travar muito.

Toda a gente em Londres pedala rápido. Muito rápido. O trânsito motorizado, por sua vez, circula a um ritmo um bocadinho menos criminoso que em Lisboa. Uma bicicleta de estrada consegue acompanhar o trânsito urbano daqui com alguma facilidade, mas isso obriga a uma postura mais agressiva e a um ritmo forte. Se o percurso não for curto, é impossível chegar apresentável ao destino. A Raleigh é divertida de pilotar e suficientemente estável para inspirar confiança entre os mastodontes enlatados.

Não ter suspensão não é um problema tão grave como em Lisboa. Aqui as crateras são mais pequenas e não existem carris de electrizo. O aço absorve mais vibrações que o alumínio. E os pneus mais largos que instalei, 700x28, tornam a ride confortável quanto baste. E muito rápida. De resto, Londres é quase plana, pelo que as 12 mudanças chegam e sobram. Na prática não preciso de mais que duas ou três. A posição dos shifters antigos torna mais lenta a operação de trocar de relação de transmissão. Também neste capítulo se progrediu muito desde mil novecentos e oitenta e troca o passo. Mas como disse, as mudanças são quase desnecessárias, esta é uma cidade ideal para a simplicidade de uma single speed.

A qualquer interessado em saber mais sobre bicicletas de estrada old school, recomendo a leitura das palavras do mestre.

sábado, 4 de agosto de 2012

Londres Olímpica e o Ciclismo Utilitário

A tocha olímpica faz o seu caminho pelo norte de Londres

Levou o seu tempo, mas os Ingleses lá se entusiasmaram com os Jogos. Quando aqui cheguei, há mais de um mês, predominava a indiferença e o sarcasmo. As pessoas queriam era fugir de Londres para evitar o apregoado caos eminente. Com o aproximar da data do inicio dos jogos as coisas foram mudando gradualmente. Agora pode-se dizer que a maioria dos locais está visivelmente entusiasmada, quando não mesmo obcecada com os resultados dos jogos. E há três dias atrás, Bradley Wiggins ganhou a prova de contra relógio de estrada, depois de ele próprio, vestido de amarelo, ter dado inicio à cerimonia de abertura no dia 27 de Julho.

As patilhas mais rápidas do universo a caminho do ouro olímpico

E este fulano também andou por lá...


Depois da decepção do sábado passado, quando as esperanças dos Ingleses numa vitoria do sprinter Mark Cavendish na prova de estrada foram goradas, segundo as reclamações do próprio porque toda a gente queria que o Team GB perdesse, as patilhas mais rápidas do universo conhecido restauraram a honra entre as hostes da casa. Desde essa altura parecem ter sido abertos os portões dourados e a comitiva da britânica não para de subir na tabela das medalhas, incluindo mais algumas contribuições do ciclismo de pista.

Isto foi o que eu consegui ver da prova de estrada. Diz que ganhou o Borat...

Toda esta glória olímpica parecia ser literalmente ouro sobre azul, numa cidade de Londres onde se vive uma muito visível revolução movida a pedal. Há quem considere que o sucesso do ciclismo "desporto" é uma boa promoção para o ciclismo "transporte". Essa ligação é pouco clara, como já aqui referi, mas não se pode facilmente negar que ela existe.



Não é por isso de estranhar que quando (mais) um ciclista urbano foi esborrachado por um autocarro perto do parque Olímpico na quarta-feira, os jornalistas apressaram-se a saber a opinião do ciclista mais famoso da velha Albion. Talvez surpreendido pela pergunta, o novo ídolo Londrino recitou uma série de lugares comuns sobre "segurança" e o uso do capacete. A sensibilidade da questão do capacete não é reconhecida pela maioria das pessoas fora da cycling community, e cheira-me que o campeão britânico, como muitos outros atletas, não usa a bicicleta para transporte há muitos anos.

Conversas que só podem acabar mal: política, religião e... capacetes.
 
Posteriormente, Bradley Wiggins queixou-se de ter sido mal interpretado, mas o estrago estava feito. O seu companheiro que se dá menos bem com as olimpíadas, Mark Cavendish, parece ter uma opinião mais ponderada sobre o assunto: presuma-se sempre que a culpa é do veículo motorizado e terão parte do problema resolvido. É o que sucede em países como a Holanda, mas é claro que esta ideia parece demasiado radical em muitas culturas dominadas há décadas pelo automóvel. Referir que essa é a prática nos países onde o ciclismo tem mais adeptos e é estatisticamente mais seguro parece não servir de muito.

Há dias em que até este homem tem receio de andar na estrada
 
Focar a questão nos capacetes é uma "solução" típica de uma sociedade auto-centrada. O Bike Snob fez umas observações bem interessantes (e sarcásticas, como habitualmente) sobre esta questão. O problema é que por muito à frente de, por exemplo, Lisboa, que Londres esteja, toda a questão da mobilidade em bicicleta é encarada como se de carros se tratassem. Eis uma noticia bombástica: uma bicicleta não é um carro. Dificilmente atinge velocidades perigosas. Não tem uma gaiola metálica e para-choques, não tem zonas de deformação programada, não tem airbags. Um capacete nunca substituirá nada disso. Misturar ciclistas com automóveis e camiões em ruas com muito trânsito, num ambiente implicitamente competitivo, por muita boa vontade que exista, vai ter sempre consequências graves para os mais fracos.

Esta é a companhia habitual do ciclista em Londres

Não só a relação com o desporto pode passar a imagem de que o ciclismo utilitário é coisa de "atletas" e de adeptos do risco e da adrenalina, como o ciclismo utilitário está agora pendente da opinião pouco esclarecida destes campeões, que no dia a dia andam de carro pela cidade. Circular de bicicleta deveria ser uma actividade normal, tão normal e segura como qualquer outra forma de deslocação. Enfiar capacetes à força em toda a gente vai tornar o ciclismo seguro? Como? Em Londres praticamente toda a gente já usa capacete. E reflectores, da cabeça aos pés. E luzes a piscar mesmo de dia.

Pernas descobertas? Está mesmo a pedi-las para levar com um autocarro em cima!

Eu sei que após tantos anos de auto-dependência custa a perceber que os veículos motorizados são intrinsecamente perigosos e que deveriam existir regras muito mais estritas a regular e limitar o seu uso. Parece ser mais fácil oprimir e ignorar a minoria do que tentar resolver o problema de uma forma objectiva. Até porque, de uma perspectiva eminentemente lógica, a única solução seria a segregação total. Do trânsito motorizado, naturalmente.