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sábado, 22 de setembro de 2012

Obras da Rotunda do Marquês: 2ª Opinião

É melhor trazer a BTT...

Após a primeira inspecção, a pé e sem pressas, faltava sentir na pratica como é circular de bicicleta por esta zona após as mediáticas alterações. Utilizei para me deslocar a minha importação Britânica, a Raleigh de estrada. Recordo que se trata de um modelo do Cretáceo Superior, concretamente do inicio dos anos oitenta, com quadro em aço e que monta pneus largos 700x28.  

Este set-up provou ser robusto e confortável nas ruas de Londres, mas em Lisboa esperava-me uma grande surpresa. Primeiro os pneus 28 revelam-se insuficientes para abordar os carris de eléctrico com segurança. Há vários relatos de quedas na rua da Prata por culpa dos carris, e eu passo lá com frequência, mas também não estou à espera que um país e uma câmara municipal praticamente na falência se preocupem com estas questões. Pior é constatar que os arranjos na Av. da Liberdade tenham na prática prejudicado os ciclistas.

Quanto custaria asfaltar a berma e pintar de uma cor diferente?

A berma: é verdade que a faixa BUS onde agora podemos legalmente circular é larga e garante alguma segurança ao ciclista. Acontece que uma das razões porque os taxistas e motoristas da carris respeitam o meu espaço é simplesmente porque não querem pôr lá as rodas! A berma está em péssimo estado e circular por ali em qualquer bicicleta sem suspensão é um convite a partir alguma coisa. No sentido Norte-Sul então é quase suicídio. Vibrações capazes fazer largar o guiador são uma constante. Não volto lá de bicicleta de estrada.

As laterais: por causa da alteração de sentidos nas laterais, na prática o ciclista não pode usa-las como alternativa. Tem mesmo que se sujeitar à berma manhosa e ao trânsito da Avenida, que continua, apesar de tudo, demasiado rápido e agressivo.

A lei é para os outros: na faixa BUS não só somos obrigados a conviver com taxistas (Fogareirus Raivosum) e motoristas da Carris, que curiosamente parecem muito mais agressivos agora que podemos legalmente partilhar o espaço com eles, como temos que levar com um número inacreditável de ligeiros de passageiros, cujos condutores também usam o BUS, porque lhes apetece. (Ou se calhar porque o ReichFürer Barbosa lhes disse). Metem o pisca nos Restauradores e vão pela faixa da direita (a BUS!) até ao Marquês, a fingir que vão virar. Como sabem que o que estão a fazer é ilegal, são ainda mais violentos que o resto dos enlatados enlouquecidos.

Sinalização: Não há marcas na estrada, a sinalizar que as bicicletas lá podem circular, não há caixas para bicicletas na frente dos semáforos, e quando a faixa BUS/Bici acaba, e acaba sem sinalização, estamos de novo a cometer uma ilegalidade se prosseguimos pelo BUS "normal" e arriscamos o pelo se tendo uma faixa à direita (BUS ou não), circulamos numa mais à esquerda.

As coisas melhoram sim na Rotunda, onde o trânsito flui agora com mais moderação nas velocidades e onde é sempre possível dar a volta por fora, mais devagar e com menos risco.

Em suma, sendo que um dos principais objectivos destas alterações é baixar a poluição na Avenida da Liberdade, não percebo porquê eu, no meu veículo não poluidor, não me sinto bem vindo àquele espaço (para usar um eufemismo). Fica mais uma vez a ideia de quem planeia estas coisas vive fechado num bunker da CML e nunca andou de bicicleta na vida, muito menos na Avenida da Liberdade e no Marquês de Pombal. Esta é afinal a Câmara Municipal que inventou a ciclovia em empedrado esburacado com carris de eléctrico incorporados, por isso se calhar não deveria estar surpreendido:

Única no Mundo: ciclovia partilhada Eléctrico/cavalo/Bici!

Mais opiniões sobre toda esta problemática podem ser lidas em muitos sítios, eu destacaria este.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Rotunda do Marquês: a Polémica e o Resto

A Rotunda, hoje

Num país cada vez mais à beira do precipício, talvez decidido a antecipar o fim do mundo, que, como toda a gente sabe, está marcado para o dia 21 de Dezembro às 16:33h, de repente não se fala de outra coisa senão das alterações à circulação no Marquês de Pombal e na Avenida da Liberdade. Sim, eu estou de volta à capital da república do pastel de nata. Estou por cá há menos de 24 horas e já me tentaram atropelar em cima do passeio, já pisei caca de cão e toda a gente aparentemente conduz do lado errado da estrada. E ainda nem peguei na bicicleta...

Nova lateral da rotunda

Cheio de saudades desta terra esquecida pela Grande Lagosta que está no Céu, fui dar uma voltinha pedestre pelo centro, de máquina fotográfica em punho. Não demorou muito tempo a ir ter àquele que é o coração espiritual da cidade, pelo menos para o Zé-do-Volante: a Rotunda do Marquês. O Marquês do Pombal e a sua rotunda rodoviária são um dos marcos da capital, um ícone com história, mas também uma fonte inesgotável de pesadelos para os alunos das escolas de condução e para os jovens recém-encartados. Com as suas múltiplas faixas de rodagem e trânsito muito agressivo, a rotunda era um habitat agreste, onde o predador rodoviário lisboeta mais comum, o conhecido Fogareirus Raivosum fazia mais vítimas.

Um Fogareirus Raivosum na nova lateral da Rotunda

Por detrás do novo arranjo da rotunda, diz a CML, está o desejo de justamente diminuir a perigosidade do local e também agilizar o trânsito dos transportes públicos na rotunda. Outra razão de que se fala é a de diminuir a poluição. E mais discretamente, fala-se em diminuir também o volume de tráfego automóvel na zona.

Dizem-me que há mais ciclistas em Lisboa. Eu vi estes!
 
Ora para diminuir a poluição tem mesmo que se restringir a circulação dos pópós, já que funcionam quase todos a motor de combustão interna. E há muitas mais razões para se diminuir o trânsito automóvel em toda a cidade, mas por cá é praticamente suicídio político dizer que se vai restringir a circulação (e é disso que se trata), porque depois de décadas de facilidades, em que quase se destruiu a cidade para aproxima-la do modelo de "mobilidade" norte americano, o automobilista lisboeta não está habituado a que lhe coloquem obstáculos.

 
Não é alucinação nem montagem!

Território recém libertado

Sinalização

Talvez por isso hoje se tenha instalado "o caos" na Rotunda, segundo os meios de comunicação social. Ao aperceberem-se que circulando por fora podiam aceder a todas as saídas na mesma e simplesmente ignorar as alterações, a maioria dos automobilistas optaram por este caminho, mesmo que tivessem como destino uma das saídas acessíveis pelo centro, de circulação muito mais rápida. Não assumindo responsabilidade pela sua escolha, culpam a CML por falta de informação, quando foi precisamente a informação da Câmara que os levou a tomarem, como sempre, a opção mais espertinha.

O esquema de circulação

Por outro lado, talvez estes automobilistas estejam simplesmente a seguir as instruções do seu Querido Líder, o presidente vitalício e incontestado mestre do Apocalipse Motorizado, o incomparável Reichfürer Barbosa, do ACP, que apelou a uma espécie de desobediência civil na Rotunda. Não é surpresa para ninguém deste lado dos anéis de Saturno que o senhor presidente seja absolutamente incapaz de compreender que menos trânsito em Lisboa é algo bom e desejável.

Ciclista na Av. da Liberdade

Mas o que é que isto significa para o ciclista urbano lisboeta? Bom, significa que vai deixar de poder usar as laterais da Avenida da Liberdade, como eu fazia, que são agora para trânsito local, com sentidos alternados. Por outro lado, vai poder usar a faixa BUS na Avenida. Sim, de repente parece que não há nenhum problema jurídico-legislativo nem se formará nenhum buraco negro com o potencial de sugar todo o planeta por se deixar os ciclistas usarem a faixa do BUS.

Será que é extensível ao resto da cidade?

Ainda não experimentei e não sei se será de facto mais seguro, mas à partida a faixa direita da Avenida pareceu-me larga o suficiente. Já na Rotunda, o novo arranjo efectivamente diminuiu a velocidade e as manobras perigosas "tipo autódromo", pelo que penso que a Rotunda estará agora ligeiramente mais segura para ciclistas. Como outras coisas da vida, tudo isto é ainda provisório e dada a cobertura mediática negativa destas alterações, só a Grande Lagosta que está no Céu sabe se a disposição será para manter.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Londres vs Lisboa: descubra as diferenças

Not Lisbon
 
Sim, aqui em Londres eles falam estrangeiro, conduzem do lado errado da estrada e usam tomadas com buracos a mais. Mas se os Ingleses também adoram o seu pópó, e têm até mais desculpas para o usar, já que aqui está sempre a chover, há toda uma série muito interessante de diferenças nos comportamentos e na infraestrutura urbana, em relação a Lisboa, especialmente no que toca aos modos suaves.

Outra forma de transporte em Londres: correr até casa

Para começar, em Londres é normal andar a pé. Sim, eu sei, é chocante. Caminhar para chegar a alguma parte da cidade ou para cumprir parte de um percurso é considerado uma coisa razoável de se fazer. Não é algo para os pobres, os destituídos e aqueles que não foram suficientemente espertos para estacionar ilegalmente o carro mesmo em frente à porta de entrada. E como caminhar é uma coisa natural, existem passeios, normalmente desimpedidos, com piso razoável e largura suficiente. Em Lisboa tal coisa é um luxo, só disponivel em pequenas (e poucas) partes da cidade.

Se a via é estreita, os pópós passam alternadamente. Simples.

Quando o espaço é reduzido, em vez de destruir passeios e alargar a estrada, fazer vias rápidas novas e rotundas, como os nossos autarcas do bigode adoram fazer, aqui simplesmente obriga-se o trânsito a andar mais devagar e a esperar antes de poder avançar numa passagem estreita. É claro que há também muitas milhas de motorways, mas o espaço verdairamente urbano, com dimensão humana, onde se pode andar em segurança, é comparativamente muito maior.

Passadeira com semáforo

Típica "ilha" para peões, algures na City

Nem tudo são rosas no entanto. Em Londres as passadeiras para peões são misteriosamentes escassas e o tempo de atravessamento nos semáforos é semelhante ao de Lisboa. Na maior parte das situações, o peão atravessa a rua por sua conta e risco. Existem umas muito típicas ilhas centrais em muita ruas, que facilitam o atravessamento em duas fases, diminuindo o perigo. Como as ruas de Londres tendem a ser estreitas e algo sinuosas, o perigo é minimizado pela reduzida velocidade possível para os veículos, mas a prioridade pertence de facto ao trânsito motorizado, excepto nas tais escassas passadeiras, e os motoristas londrinos podem ser tão implacáveis como os de Lisboa.

O espaço em frente do semáforo é reservado aos ciclistas.

Pintar umas linhas no chão nem sempre garante respeito

No que toca às bicicletas, há algumas diferenças importantes. A começar pelas legislativas, que transcendem a cidade de Londres. Entre as mais significativas estão a possibilidade dos ciclistas circularem a par, desde que a estrada não seja demasiado estreita, a permissão de uso dos espaços e corredores reservados aos transportes públicos e a não obrigatoriedade de circular nas ciclovias e nas ciclo faixas se o ciclista assim o entender. Há também as famosas caixas na frente dos semáforos, para uso exclusivo por ciclistas. É básico, mas em Lisboa não temos nada disto.

Sinal de dois sentidos para velocípedes

Acesso à estrada através de uma ciclovia

Ciclovia com semáforo

De notar que apesar de toda a sinalização especifica, das diferenças legislativas e do empenhamento do gabinete do Mayor of London, no que toca à infraestructura básica, esta é quase igual a Lisboa: na prática circula-se quase sempre na estrada e segue-se as regras da estrada. Tem-se mais liberdade e mais direitos na teoria, mas coisas como "razias" e encostos são uma constante. Os londrinos são bastante mais frios que os lisboetas e toda a gente lida com esta agressividade rodoviária de forma quase impassível. Ou seja, o taxista passa-te a ferro com um ar de absoluta indiferença e tu és passado a ferro sem sequer levantar uma sobrancelha. Esse tipo de coisa.

Circular a par não é ilegal. Em Londres pelo menos.

O Transport for London, a poderosa entidade que gere a complexa rede de transportes e vias da capital britânica, parece realmente empenhado em tornar a cidade ciclável, mesmo que seja seguindo as filosofias do Vehicular Cycling. Prova disso é, por exemplo, a possibilidade de obter no conforto da nossa casa mapas em papel de percursos pre-estudados para ciclistas (e por ciclistas) em toda a zona metropolitana de Londres. São grátis, não se paga nem os portes de correio. Estes são os meus:

Bonitos, Bons e de Borla.

Qualquer semelhança com a falida, burocrática e provinciana administração da CML só pode ser mesmo pura coincidência. Outra coisa que não há em Lisboa e que é importante em qualquer infraestructura urbana básica que tenha em conta os utilizadores de bicicleta são os lugares de estacionamento. Em Londres há um número muito razoável de lugares, quase todos tecnicamente adequados, prevalecendo aqueles em "U" invertido.

Estacionamento público para bicicletas

Outro estacionamento em "U" invertido.

Estacionamento dentro da estação de King's Cross

On other news, segundo dados da Metropolitan Police, o ano passado foram roubadas mais de 23.000 bicicletas em Londres. Esses são os números das queixas apresentadas e já se sabe que, aqui como em Lisboa, a maior parte dos crimes nem sequer são reportados. Nesse mesmo período apenas 580 pessoas foram acusadas de roubo de velocípedes na zona metropolitana de Londres. A diferença para Lisboa neste domínio é que os números existem, são facilmente acessíveis, e o assunto é tratado como qualquer outro deste tipo, aparece nos jornais, e a polícia pelo menos preocupa-se em atacar o problema.

Acesso a zona pedonal e ciclável

Apesar de ser uma cidade ainda muito feita a pensar no carro, há cada vez mais espaços exclusivamente pedonais, ou ciclo-pedonais. Algo que em Lisboa tarda em acontecer, basta pensar na zona da Bica, onde toda a gente que enche aquele espaço num Sábado à noite tem que sair do caminho para deixar o idiota de turno entrar e sair da rua com o seu sagrado pópó.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Últimas: a licra está de volta, Lisboa é fixe e o Carlos Barbosa que se lixe

Helsínquia? Copenhaga? Não. Lisboa!

Querem saber o futuro? Sim, o futuro. Aqui, agora, já. De graça.

Precisam de uns momentos para se prepararem psicologicamente para uma coisa dessas? Não faz mal, compreendo perfeitamente. Eu espero um bocadinho.

Prontos? Pode ser que doa um bocado, mas eu prometo que sou meiguinho: 

"Num mundo onde tudo crescia exponencialmente, a população, os GDP's, o consumo, a poluição, as pessoas fingiram esquecer que o planeta era o mesmo de sempre. Numa era em que tudo se queria novo, a velha Terra continuava a ser a mesma que medíramos pela primeira vez na antiguidade. O mesmo espaço, os mesmos recursos. Só mais degradada. Enquanto continuámos a cuspir no nosso próprio prato de sopa, os problemas foram-se avolumando. Quando o combustíveis fosseis escassearam e o seu preço se tornou proibitivo, todas as alternativas falharam e a economia, depois de crises sucessivas, colapsou de vez. Milhões perderam os empregos, as casas, e por fim a capacidade de se alimentarem. A sociedade como a conhecíamos mudou por completo. O que se seguiu bem podia ser descrito como o caos e as trevas (...)"  

Foi o Nostradamus que previu, no Séc. XVI. Vão procurar.

Conhecedor das profecias do famoso médico francês, António Costa está decidido a preparar atempadamente a capital do império para o Apocalipse vindouro. Como qualquer pessoa, o presidente da autarquia sabe que é impossível separar um "lisboeta" dos subúrbios do seu automóvel, mesmo recorrendo a ameaças terríveis, como o estacionamento supostamente-quase-talvez-pago e avenidas de apenas 8 (10, vá) faixas. Por isso o executivo camarário resolveu nem sequer tentar. Em vez disso, a câmara tem vindo a criar secretamente uma infraestrutura que permita à cidade uma existência pós-apocalipse.         

É verdade. Com o cognome secreto de "Operação Fenix", inúmeras empreitadas têm sido adjudicadas. As obras mais visíveis até ao momento têm sido as mal compreendidas ciclovias. Agora, a "Operação Fenix" entra na sua segunda fase, em que hortas urbanas e espaços públicos pedonais tomam forma. As obras são feitas de modo a não retirar nenhum espaço ao tráfego e estacionamento dos veículos automóveis (97,2 % da área do município), para não levantar suspeitas. Todo o processo é controlado a partir de um "bunker" secreto construído no Intendente, com o objectivo de garantir a continuidade dos órgãos executivos autárquicos. O Intendente foi escolhido não pela vasta experiência da zona com órgãos, mas pela sua semelhança com o que se espera que seja a cidade depois do Apocalipse.

E como é que eu sei tudo isto?

Simples. Eu tinha ido dar uma longa volta por Lisboa, de bicicleta "desportiva", em preparação para uma maratona de BTT para a qual me inscrevi. Ia vestido a rigor, mesmo que a maior parte do trajecto fosse por ciclovias, onde aliás a minha indumentária mereceu a reprovação dos ciclistas urbanos em traje informal. (Que pena que sejamos sempre tão tribais!). Chegado aos arredores do Colombo, não pude deixar de reparar nas novas hortas urbanas e no pedaço de ciclovia ao lado da estação dos autocarros:

Directamente da horta para o Continente? Com facturas a 90 dias, claro...

Não é todos os dias que se vê um espaço público perfeitamente urbanizável do município de Lisboa não ser "aproveitado" para fazer mais parques de estacionamento ou prédios de luxo. Não é todos os dias que vemos o betão, o automóvel e o enriquecimento dos patrões da construção civil serem suplantados pela preocupação pela qualidade de vida dos munícipes. Eu estava siderado.

Mais deste lado

O meu entusiasmo pelo que estava a presenciar não passou desapercebido a um profissional do volante, um condutor de autocarro. Após alguns minutos à conversa com um colega, ambos admirando obsessivamente as formas ainda escassamente femininas das moças menores de idade que passavam, o homem veio à minha beira e pouco depois estava a partilhar comigo a história secreta dos projectos da CML cujos contornos eu acabo de vos narrar. Incrível, não é?

Há um prémio para quem identificar esta imagem

Com a cabeça a latejar, com toda esta informação que eu não conseguia bem digerir, voltei ao meu percurso, que incluía atravessar o Monsanto antes do anoitecer. Não conhecia bem o caminho e o pulmão verde de Lisboa vendeu cara a passagem. Quando sai do "mato" estava nas proximidades da embaixada do Irão e era já noite cerrada. Mau presságio. Em casa adormeci de cansaço no sofá e cai num sono inquieto, povoado por imagens de um mundo pós-apocalíptico, onde o Carlos Barbosa comandava um exército de Zombies marrecos, na tentativa de tomar o que sobrava de uma Lisboa abandonada e semi-destruída.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Lisboa: novidades de mobilidade sustentável

O centro de Lisboa será fechado ao trânsito! Err... não.

Aproximando-se a largos passos a Semana Europeia da Mobilidade, andei a pesquisar novidades de Lisboa, e da Câmara de Lisboa, relacionadas com a mobilidade. Como de costume, até há muita coisa a acontecer, mesmo que a sua importância seja muito relativa. Eu destaco: 

  • Dia 12 foi lançado o concurso para a construção da ponte ciclo-pedonal sobre a 2ª Circular. Já se fala dessa travessia há algum tempo, parece que agora as coisas estão a andar. Conclusão prevista para finais de 2012. Ou então estes senhores foram só comer croquetes. (Ver vídeo) 

  • Dia 18 é o Passeio da FPCUB, "Lisboa Ciclável", que percorrerá maioritariamente ciclovias. Pode ser interessante para quem queira conhecer a extensão da rede de "ciclovias" da capital. Começa e acaba no Jardim Amália Rodrigues (Parque Eduardo VII).

  • Dia 21 teremos os VI Prémios Nacionais de Mobilidade em Bicicleta, em que a perseverante FPCUB vai tentar engraxar algumas entidades oficiais que pouco ou nada fizeram pelo ciclismo utilitário em Portugal, na esperança de que uma consciência pesada os leve a, no futuro, serem mais amigos da bicicleta e do ambiente. Pelo meio, alguns prémios merecidos também serão atribuídos.

  • Dia 22 é o Dia Europeu sem Carros. Em Lisboa será mais um dia de carros por todo o lado, carros em cima das árvores, em cima do passeio, peões maltratados e atropelados e caos rodoviário geral. Haverá no entanto uma conferencia, ainda não consegui perceber onde, para discutir o óbvio:"A Bicicleta, Ferramenta de Estratégia Energética e Ambiental”.

Há mais eventos previstos, mas é quase tudo à base de voltinhas de bicicleta em cima do passeio e colóquios e conferências onde se discute o que depois não se implementa. No fim, toda a gente regressará a casa de carro.  

domingo, 31 de outubro de 2010

Aos poucos

Que têm em comum a praça de Alvalade, o Saldanha e o Campo Pequeno? Alguém sabe? Entre outras coisas, estacionamento para bicicletas! Eu sei que sou algo distraído, mas tenho ideia que estas barras em "U" invertido são recentes. Tenho vindo a tropeçar com elas um pouco por toda Lisboa, nas últimas semanas. Todas apresentam o mesmo design e parecem ser fornecidas pela CML.

No Campo Pequeno


Entretanto, pequenas obras resolveram alguns dos problemas apontados à Ciclovia de Belém, como a constante invasão de carros na recta atrás daquele hotel que alguém deixou erguer junta à marina. Outras questões persistem e as próprias obras são incómodas e perigosas para os utentes.

Luxo dos luxos, na estação de Algés, como parte da uma iniciativa da CP já aqui mencionada, que espalhou novos estacionamentos pelas estações das zonas urbanas e sub-urbanas de Lisboa, é agora possível deixar a bicicleta dentro da zona da passagem subterrânea, ao abrigo da chuva. O estacionamento que existia à superfície ainda lá está, usurpado a diário por uma carrinha de vendedores que descaradamente ali estaciona, dia sim, dia sim. Mas os poucos vamos lá.
Espero.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Madrid e a bicicleta

Madrid me mata!

Passei este fim de semana em Madrid. Tinha outras coisas que fazer, mas não pude deixar de dar alguma atenção às questões da mobilidade na capital espanhola. A cidade do Manzanares vive actualmente um período de transformações e melhoramentos urbanos. Muitas ruas foram alvo de obras recentes e outras continuam a sê-lo.

Senhorial e imponente, Madrid é uma grande capital europeia. As suas dimensões, características e população residente colocam-na numa outra escala que não a de Lisboa. Mesmo assim, penso que as comparações são pertinentes, senão mesmo inevitáveis. É, afinal, a capital do país que temos mais próximo e com o qual partilhamos, goste-se ou não, muitas coisas.

Zona de trânsito condicionado
As alterações recentes no centro urbano da cidade parecem ter como ideia central torna-la mais humana. Há mais zonas pedonais, mais ruas e praças total ou parcialmente fechadas à circulação automóvel, menos espaço de estacionamento público. Há jardins e esplanadas no lugar onde antes circulavam as vacas sagradas. Há medidas de acalmia de tráfego, com ruas com a faixa de rodagem propositadamente estreita e piso irregular em pedra, por exemplo. Os automobilistas circulam de forma bem mais civilizada que neste nosso cantinho dos degenerados do volante.

Fim da ciclovia da calle Serrano

Isto é tudo o que identifica a "ciclovia"
E ciclovias, perguntais vós? Pois, a verdade é que elas devem existir, uma rápida procura na net pode prova-lo. Pessoalmente, só vi uma. E fartei-me de andar pela cidade. Essa ciclovia que encontrei foi a da calle Serrano, uma das vias comerciais mais importantes da capital do Reino. Já tinha nestas páginas feito menção a esta ciclovia, pela polémica que estava a despertar. É tão só uma faixa estreita de passeio, como a maioria das que surgem em Lisboa, com a agravante de estar muito mal assinalada, com piso de cor igual ao resto do pavimento.

Ciclistas urbanos na Gran Via
Tal como em Lisboa, a bicicleta não parece fazer parte das prioridades do actual executivo do município espanhol. Pelo contrario. Não existe esquema de bicicletas de uso partilhado, nem há praticamente ciclovias. Mas medidas físicas de acalmia de tráfego, medidas de desencorajamento da entrada de carros no centro da cidade, redução dos limites de velocidade, isso está claramente a ser implementado, e com êxito. Ora em Madrid como em Lisboa, a construção de ciclovias está longe de ser pacifica, mesmo para os seus eventuais beneficiários e utilizadores. Há pois quem considere estas medidas atrás referidas, por si só, extremamente benéficas para o uso da bicicleta como transporte utilitário. Depois de 4 dias em Madrid, só posso concordar.

Espaço para as pessoas, não só para as vacas sagradas

Os estacionamentos de bicis não têm muito uso

As zonas pedonais são muito concorridas
É de notar que Madrid, apesar de completamente plana, não parece ter grandes afinidades históricas com a bicicleta. Apesar de dispor de excelentes transportes públicos, o carro por aqui continua a ser rei e os ciclistas olhados como excêntricos, na melhor das hipóteses. As medidas tomadas visam tornar a cidade mais agradável de viver e conhecer a pé, afinal os espanhóis gostam de sair, comer as suas tapas e beber as suas copas. E ainda fazem compras nas grandes avenidas, não só em centros comerciais de plástico, como sucede por cá. Seja como for, as medidas tomadas estão a tornar a cidade também muito mais ciclável.

Um artista no parque do Retiro
Todas estas mudanças não foram pacificas. Tal como em Lisboa, houve oposição a fechar ruas ao trânsito e reduzir lugares de estacionamento. Houve quem questionasse o dinheiro gasto. Mas as pessoas em geral parecem satisfeitas com o resultado, mesmo os automobilistas incondicionais. Fiquei muito bem impressionado, é uma cidade que sempre me marcou e que parece agora, apesar de monumental, bem mais humana. Já para pedalar, apesar de tudo acho que vou continuar a preferir Barcelona!

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Haverá esperança?

Hoje acabei o dia um pouco indeciso, algures na zona cinzenta que vai do optimismo contagioso ao negativismo deprimente. Por acaso, estive em Oeiras, andei por Belém e acabei em Cascais. Vamos às boas noticias primeiro:




Este é o novo estacionamento para bicicletas da estação de comboios de Oeiras. Já existem dois outros espaços como este do mesmo lado da estação, mas estão sempre repletos de bicicletas. Muitas vezes os ciclistas são obrigados a recorrer aos postes e corrimões disponíveis por perto. Não sei ao certo há quanto tempo foi criado este novo espaço, só reparei nele hoje.

Este tipo de estrutura em "U" invertido é unanimemente considerada a mais correcta. Como utilizador estou completamente de acordo. Infelizmente não é a mais utilizada pelos municípios e demais autoridades, na hora de construir os seus estacionamentos para velocípedes. Mais um facto que demonstra como muitas vezes os projectos de modos suaves estão desligados da realidade e do público a que deviam servir.


Sinalizado e estrutura em "U" invertido. Um luxo!


Reparem então no meu espanto: numa zona onde já existem pelo menos 3 pontos de estacionamento para bicicletas (a abarrotar, mas existem), foi construído mais um, e ainda por cima, bem feito. É de notar que com esse dinheiro poderiam ter sido construídos 0,05 milímetros de autoestrada, ou o espaço utilizado para o estacionamento de 1/2 automóvel. Não estou habituado a tanto luxo! Rejubilemos!
  
Este pequeno prodígio parece ser da responsabilidade da CP e não da Câmara Municipal de Oeiras. Não deixa de ser curioso que a CP pareça mais preocupada com a mobilidade sustentável que o auto-proclamado "concelho de referencia, sem rival em Portugal". Talvez seja uma questão jurisdicional, mas realmente já não espero muito de uma autarquia governada por um criminoso condenado, reeleito contra tudo e contra todos pela população com maior nível de instrução do país, que nunca deixa de defender o seu autarca com afirmações do tipo: "Roubar roubam todos, mas ao menos ele tem obra feita".


Quase uma bicicleta para cada carro. Ah... Não.


Mesmo que poucos autarcas façam alguma coisa por isso, o facto é que hoje vi muita gente a andar de bicicleta, tanto em Oeiras como na zona de Belém. Foi altamente moralizador. Muitos utilizadores aproveitam a possibilidade de transportar a sua bicicleta no comboio. Outros aventuravam-se na temível marginal, com bicicletas utilitárias. Até vi uma longtail! Aliás, vi tantas bicicletas hoje que comecei a fazer uma contagem de marcas.

Ganhou a Órbita. O que é nacional é bom.


Bicicleta e comboio. O progresso não chegou aqui!


Está imagem, de (pequenos) progressos a serem alcançados na demanda da mobilidade sustentada, foi rapidamente desfeita numa subsequente visita ao novo Hospital de Cascais. Tanto asfalto foi ali derramado que pensei que ia ficar mal disposto. Ou terá sido da meia dúzia de rotundas que tive que navegar em menos de um quilómetro para chegar ao destino? E eu fui para lá de carro, provavelmente a única maneira "fácil" de conseguir chegar. Passeios não se vêem, ou são diminutos, tudo foi mais uma vez idealizado para pasto das vacas sagradas. Até a entrada do Hospital é precedida de uma enorme rotunda de múltiplas faixas, que parece ali existir apenas com intuitos decorativos.

Ali ao lado, cercado por vários pisos de estacionamento e uma cintura de 8 faixas de autoestrada, o Cascais Shopping da minha juventude está irreconhecível. Uma família de clientes do tipo pedonal (sem dúvida em vias de extinção) parecia mais chocada do que eu, ao verificar que o passadiço por onde tentavam aceder ao centro comercial desembocava num túnel rodoviário sem passeio nem berma. Não é deste progresso que eu quero fazer parte.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Suburbia



Não será o narrador mais eloquente, mas este é um dos discursos mais importantes que já encontrei nas TED talks. Não se fala uma única vez de bicicletas neste vídeo, mas se repararem bem, é como se não se falasse de outra coisa.