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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Tróia - Sagres 2013 ou Como eu Aprendi a Deixar de me Preocupar e Passei a Amar a Dor


Furgão é para meninos: aluga mas é um autocarro

"Se fosse para trabalhar não estavam aqui a esta hora!" - atirou alguém à multidão reunida no cais de embarque do ferry em Setúbal. Perante a risada geral dos companheiros, o veterano ciclista concluiu com um contundente "ah pois é!". Eram 7:10 de uma fresca manhã de sábado e passados poucos minutos começava o embarque. Para ali estar pronto e equipado tinha saído da cama às cinco da manhã e acreditem que poucas coisas na vida me arrancam da cama a uma hora dessas. Pela frente tínhamos não só a pequena travessia rumo ao Cais Sul de Tróia, como os 202km e muitas horas até à histórica localidade algarvia.

Felicidade é: sair da cama às 5 da manhã e pedalar 200km!

Já a bordo do ferry, houve tempo para descontrair da ansiedade e das preocupações das primeiras horas da manhã: carregar o carro, chegar a tempo a Setúbal, descarregar o carro, levar comida e água para os primeiros km, não esquecer nada, acertar local de paragem com o carro de apoio, etc. Tudo isso ficava agora para trás. Podíamos relaxar e confraternizar com os companheiros de aventura. Conheci um advogado simpático (todo crábonizado) que trazia um speedneedle às costas: tinha mudado em cima da hora para um selim mais confortável na sua Scott, mas teve receio que o seu posterior não se acostumasse e trazia o selim suplente para qualquer eventualidade. Como aquilo pesa menos que uma barra energética, até não foi mal pensado. (Mais à frente descobri que ele voltou de facto ao setup original).

Licras asfálticos dominam o Ferry

Ainda a bordo do ferry comecei a reparar em vários pormenores interessantes referentes ao Tróia-Sagres. É suposto ser um evento com grandes tradições no BTT, afinal a fórmula original do louco passeio criado por António Malvar era a utilização de bicicletas de BTT, mesmo que montando pneu (e outros acessórios) de estrada. Mas à minha volta via-se e sentia-se um enorme domínio da bicicleta de estrada, talvez da ordem dos 80%. Um olhar mais minucioso ao equipamento, às jerseys de clubes, etc, permitia adivinhar que muita desta malta era de facto do BTT. É um facto indiscutível que hoje em dia quase todo o BTTetista empedernido tem também uma estradista asfáltica em casa, e provavelmente muitos concluíram que essa era a ferramenta certa para uma viagem de 202 quilómetros, todos eles em... estrada!

"Ele troca. Olhe que é um clássico!"

Nesta fase já a minha Raleigh atraía curiosos, ajudada pelo facto de um dos meus companheiros estar constantemente a garantir aos ciclistas que passavam, com grandes biclas em crábono, que eu estaria disposto a trocar a minha máquina pela deles. Este clima de boa disposição durou até a rampa descer em Tróia e o desembarque começar. Atrasados por um GPS bloqueado e pelo meu conta km que se recusava a dar sinais de vida, o meu grupo de bravos guerreiros do asfalto foi o último a sair do cais. Eram cerca das oito da manhã e na rotunda que dá acesso à estrada para o Sul reinava o caos. Por todo o lado furgões, carrinhas e até autocarros descarregaram uma confusão de homens de licra, bicicletas e equipamento. Aqueles já prontos a rolar ziguezagueavam por entre estes frenéticos preparativos e o caótico trânsito lento. Começava a viagem.

Mais aço inglês de alta qualidade a bordo: um quadro Genesis Equilibrium

Assim que foi possível acelerar, o ritmo passou para uns 27 - 30 quilómetros por hora e por aí se manteve. A estrada estava cheia de ciclistas, os poucos automóveis eram completamente cercados e tudo o que podiam fazer era esperar. Ao mesmo tempo, havia grupos enormes, autênticos pelotões, a rolar a velocidades bem altas. Um colorido impressionante na estrada, agora que o Sol já brilhava e começava também a distribuir algum calor. Tudo se passou muito rapidamente até Melides, onde fiz a primeira paragem. Não era necessária, mas como vinha em esforço para tentar manter o ritmo dos meus companheiros, resolvi parar e encher o bidom. Até aí nada de especial a assinalar, tinha saltado a corrente logo na partida e a afinação que fiz ao sensor do ciclo-computador foi um bocado à bruta, e agora o íman estava a bater no sensor a cada volta, fazendo um ruído irritante.

Estes componentes andaram quase 100km a bater um no outro. Arggghh!

Até Sines também rolei bem, agora já muito tempo sozinho, não tinha ritmo para os meus companheiros nem para me colar a um dos pelotões que passava, sempre a grande velocidade. O vento começou a fazer estragos por esta altura. Após paragem e novo reabastecimento um pouco depois de Sines, as coisas começaram a descambar. Sentia as pernas pesadas e os músculos doridos e ainda tinha mais de metade do percurso pela frente. Já tinha dificuldade em encontrar posição confortável em cima do selim, o meu posterior já ia dorido. Mais alarmante era uma inédita dor nos joelhos que se ia instalando. Tinha conseguido dormir apenas duas horas e estava a pagar o preço, com juros, da minha falta de preparação. A dúvida ameaçava instalar-se.

Depois de Sines, menos ciclistas e mais carros

Os próximos quilómetros forma muito duros. Via a minha média constantemente a baixar, dos 27km/h passou para 26, depois para os 25 e eventualmente ainda menos. A todo o momento recalculava a hora prevista de chegada a Sagres e percebia que corria sérios riscos de chegar após o pôr do Sol. Ao quilómetro 120 o GPS morreu, as pilhas nem duraram meio dia. Estava a rolar sozinho há algum tempo, a minha média continuava a baixar, e agora tinha receio de me perder. Psicologicamente estava a ir abaixo, as pernas não respondiam, dei por mim a subir um troço com uma inclinação suave a 12km/h, numa mudança super leve. Mesmo assim estava a custar como se fosse a subida para a Torre. Parei.

E tirei esta foto:


E esta:


E mais esta:

Mo-rreu! Felizmente o jurássico ciclocomputador é mais fiável

Faltavam cerca de oitenta quilómetros, mas podiam ser mil. Tinha que por as ideias em ordem. Estive ali uns cinco minutos e quando arranquei estava decidido a chegar ao fim nem que fosse de gatas. Fui-me concentrando na paisagem, nas pequenas trocas de palavras com outros ciclistas, em que a norma era o incentivo mutuo. Havia boas energias por aquela estrada, e também alguma comédia (e loucura). Muita gente elogiou a minha bicicleta ou fez humor com ela (não sou ciumento). Eu era o "amigo vintage", a Raleigh era "a relíquia" e "à maneira". Pelo caminho encontrei muitos personagens curiosos e montadas invulgares. Havia bonitas sigle speeds e fixies (chamem-me o que quiserem, mas é desmoralizante como o camandro ser ultrapassado por uma single speed!), bicicletas de estrada quase da idade da minha ou mais velhas, várias dobráveis, entre as quais uma Dahon toda kitada, e uma Bromptom completa com todos os extras, incluído uma generosa mala Brompton montada na frente, cheia até rebentar.

Paragem para WC, porque tudo o resto que seja preciso já deve estar naquela mala!

Substitui as pilhas do GPS. Sobrevivi não sei bem como à única subida realmente dura da viagem e fui fazendo o meu caminho para Sul, mas o pôr do Sol aproximava-se rapidamente e eu ainda tinha muito para andar. Não havia nada a fazer senão insistir. Para ajudar à festa, a segunda metade do percurso é mais fértil em sobe-e-desce, o que não era inteiramente mau. Depois da subida podia sempre descansar um bocado na descida, mudar a posição do corpo e deixar rolar em roda livre, coisa quase sempre impossível no resto do percurso. A "relíquia" tem uma limitação nestas situações: uma vez comprometido numa descida rápida, não me atrevo a tirar as mãos do guiador para colocar mudanças mais pesadas, e assim não aproveitava ao máximo esses momentos em que tinha a ajuda da gravidade. A colocação das alavancas não se presta a "trocas de caixa" rápidas, pelo que muitas vezes nem tentava e rolava quilómetros e quilómetros na mesma mudança.

Funcionais e precisas q.b. Rápidas não são
 
Entretido com o caminho com mais curvas e subidas e descidas, já no Algarve, os quilómetros foram passando. Após uma última paragem a 20km do final, arranquei com a faca nos dentes na tentativa de não ser apanhado na estrada quando escurecesse em definitivo. Recuperei algum tempo, mas foi em vão. Acabei na escuridão total, a rolar a 30km/h na berma da estrada nacional. Mais uma vez um companheiro do pedal foi a minha salvação, um BTTista com luzes permitiu-me seguir com alguma segurança, na roda dele, até à entrada de Sagres.

Basicamente, foi isto

Exactamente dez horas depois de ter começado, pelas 18:00h entrava em Sagres, a localidade mergulhada na escuridão e invadida por um mar de crábono e homens de licra. O ciclocomputador marcava 198,32km, a diferença para o total de 202km do track semi-oficial justificada pela localização actual mais a Sul do cais de Tróia. Ao todo eu tinha parado uns muito longos 78 minutos, mas sem isso acho que nem teria chegado. A minha velocidade mérdia ficou-se pelos 23,0km/h, o que não está mal para quem não treinou nada e foi de "clássico" para o Algarve.

Alguém comentava que ir para Sagres de duas rodas com motor provavelmente ficava mais barato. Pode ser verdade, porque eu ao longo do percurso consumi isto:

  • 2 Sandes de Queijo
  • Uma Empada de Galinha
  • 4 Barras de Chocolate e Banana
  • 1 Barra de Cereais
  • 4 Pacotes de Gel
  • 1 Banana
  • 4 Bidons com Bebida Iso-coisa
  • Pedaços de Manga
  • Frutos Secos
Em litros aos 100km deve ser menos que uma pick-up V8 americana, mas mais que um Prius. Voltando a questão que tinha colocado anteriormente:

É possível uma pessoa normal, sem preparação, meter-se a pedalar uma distância de 200km, que envolve um esforço continuado de um dia inteiro, e chegar ao fim vivo?

Sim.

E fazê-lo numa bicicleta qualquer?

Sim.

Se me perguntarem se vai ser divertido, depende de como lidem com o esforço prolongado e com um bocadinho de dor. Eu gostei. Mas agora tenho que me ir embora, estão ali à minha espera para eu assinar os papeis para o transplante do escroto.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Lisboa - São Torpes, dia 5: Uma história de duas cidades

GPS mostra o total de km percorridos até ao Outão: 324

Amanhece na Arrábida e é chegada a hora de regressar a casa. Na noite anterior, à frente de uma valente dose de choco frito, tínhamos acordado terminar a viagem recorrendo aos transportes públicos. Assim, descemos do Outão para Setúbal e atravessámos a cidade até à estação da Fertagus.

Pedalar em Setúbal não é especialmente complicado, as ruas são largas e o trânsito não é tão rápido ou agressivo como na capital. Quase me senti seguro no percurso que fizemos. Já a estação tem amplos elevadores para as plataformas e o simpático funcionário da bilheteira foi prestável e não levantou qualquer problema em relação às bicicletas. Quase todos os transportes públicos portugueses apresentam hoje em dia alguma alternativa que permita o transporte de bicicletas, o problema é que existem muitas excepções, restrições e ambiguidades e por vezes não temos a certeza do que iremos encontrar. Neste caso, 5 estrelas para a Fertagus.



A nossas montadas têm lugar especifico no comboio da ponte

O comboio começa com pouca gente em Setúbal e vai gradualmente enchendo à medida que nos aproximamos de Almada e de Lisboa. Alguns passageiros têm um certo ar rufia e deambulam para trás e para a frente na composição, fazendo recordar  comportamentos que conheço da linha de cascais, de quem procura evitar o revisor e fazer a viagem de borla. Não demora muito até duas moças serem apanhadas sem bilhete e multadas, mesmo à nossa frente. Curiosamente, parecem indiferentes à situação e depressa percebemos porquê: não são expulsas do comboio, seguem o resto da viagem agora tranquilamente sentadas e decerto não têm intenções de pagar a multa.


Não resistimos a dar uma de turistas

Saímos em Sete Rios, com a ideia de apanhar a linha de Metro directa para o Cais do Sodré. Infelizmente, depois de subirmos e descermos vários lanços de escadas com 30 kg de bicicleta às costas, somos interpelados por funcionários do Metro e informados, diria que com firmeza desnecessária, que não podemos levar as bicicletas no metro antes das 20:00h. Estamos mais perto da hora do almoço do que da do jantar, pelo que nos vemos obrigados a atravessar Lisboa à força do pedal.

Sete Rios, Praça de Espanha, António Augusto de Aguiar, Fontes Pereira de Melo, Av. da Liberdade, Restauradores, Rossio, Baixa, alguns km e muitos taxistas kamikaze depois, estamos na ciclovia para Belém. Infelizmente, para além do traçado labiríntico, as inúmeras zonas mistas para peões, o piso deplorável, os cruzamentos sem prioridade ou sem informação alguma sobre quem detém a prioridade, a ciclovia começa a ser invadida pelo famoso vírus residente de Lisboa: o pópó.


Carros na ciclovia



Piso irregular, carris, obras e caixotes do lixo na ciclovia


Ciclovia? Qual ciclovia? Isto aqui é um estacionamento!


Chegámos a Algés já sem vontade para confusões. Apanhamos o comboio para Oeiras e em poucos minutos estamos em casa. Depois de um total de 339 km pedalados, o regresso a uma rotina mais normal não é tão simples como parece. De repente já não temos que nos preocupar com uma data de coisas, como transportar água suficiente, montar a tenda antes do anoitecer, deixar a toalha a secar antes de ir dormir... Que estranho! Estes escassos 5 dias de viagem pareceram muitos mais, foi uma experiência intensa, sem dúvida a repetir.


Track GPS do percurso que fizemos disponível aqui.


Percurso carregado no site www.gpsies.com


Dados do dia:

Km totais: 24 (pedalados!)
Velocidade média: 14,40 km/h
Velocidade máxima: 47,2 km/h
Água consumida: 1 L/pessoa

terça-feira, 27 de julho de 2010

Lisboa - São Torpes, dia 4: O regresso

Se os exércitos marcham sobre o estômago, o cicloturista marcha sobre água. No verão, muitos litros de água! Por isso, tivemos o cuidado, como sempre,  de comprar água antes de partirmos de São Torpes, para a jornada que nos deveria levar de regresso a Setúbal.


Trilho arenoso paralelo à estrada.

Graças a indicações conseguidas na recepção do parque, poupámos alguns km de asfalto à saída de São Torpes, utilizando um atalho que segue para as praias. Depois foi rumar a norte, pelas mesmas estradas que nos tinham trazido até aqui. Rolámos tentando manter um ritmo vivo, que nos permitisse chegar a Tróia ao inicio da tarde. Ainda ensaiamos apanhar um trilho paralelo à estrada R 261, tal era a monotonia e as saudades do todo-o-terreno, mas este revelou-se demasiado arenoso e só ocasionalmente ciclável.

Sempre a rolar bem, chegámos a Melides com a fome a apertar, e decidimos aconchegar o estômago nesta simpática vila alentejana. Não nos arrependemos, e depois de esclarecer um punhado de espanhóis sobre o melhor caminho a tomar para Lisboa, rumámos também nós a norte.


Parte do nosso stock de água

É um pouco monótono pedalar pelas estradas semi-rectas alentejanas, mas de vez em quando essa monotonia é quebrada. Seja pelo "Zé do volante" que atira o carro para cima de nós e buzina no mesmo instante em que nos ultrapassa a muitos km/h, na esperança sádica de nos ver cair, ou então, por exemplo, ao presenciar, uma discussão conjugal. Esse último caso surpreendeu-nos depois de Melides, numa bomba de gasolina, onde um homem e uma mulher disputavam energicamente o duvidoso privilegio de conduzir um Fiat Punto. O homem levava alguma vantagem, tinha conseguido tomar o lugar do condutor, mas a mulher torcia-lhe um dos braços atrás das costas, sem piedade, enquanto o golpeava na cabeça, indiferente aos seus protestos e queixumes. Decidimos não parar.


Quase em Tróia

Rolámos bem até chegar à península de Tróia, onde um vento frontal ameaçava frustrar os nossos esforços. Com um ritmo bem mais modesto, seguimos pela estrada até, pouco depois da Comporta, a Marta não poder mais. Estava estoirada, em hiper-ventilação. Foi necessária uma boa meia hora, sentada, na sombra, para ela conseguir retomar o selim.

A grande "K" no ferry.


A travessia do ferry ficou desta vez bem mais cara, ao preço de 4,5 Eur por cabeça. Nada que nos tirasse o sono, tínhamos conseguido chegar e uma vez em Setúbal, segundo o GPS, estaríamos a 8 km do parque de Campismo!

Esse percurso não se revelou tão fácil assim, uma vez que o parque de destino era o do Outão, o que implicava tomar a estrada para a Arrábida, com as suas muitas subidas e curvas retorcidas. Mesmo a chegar, ia sendo albarroado por um Mercedes, cujo condutor achou por bem passar um sinal de stop olhando só para um dos lados... 


Os empreendimentos de Tróia vistos do Outão.


Dados do dia:

Km totais: 83
Velocidade média: 15,40 km/h
Velocidade máxima: 44,5 km/h
Água consumida: 3 L/pessoa

Lisboa - São Torpes, dia 3: Descanso, estrada e mais bitoques

Praia da Galé




O parque de campismo da Galé é uma preciosidade do litoral alentejano. O espaço, as instalações, a organização, e, mais importante, a simpatia do pessoal, fazem deste parque um oásis de descanso e lazer na costa alentejana. Com uma das mais maravilhosas praias do país a servir de moldura, foi neste cenário que nos demoramos mais ao longo da viagem. Optamos por passar a manhã no parque, a tratar das pequenas tarefas que não podíamos mais adiar, como lavar e secar a roupa, limpar e verificar as bicicletas e tratar de algumas afinações. Os mais de 160 km que tínhamos feito até aqui deixaram marcas, não só no corpo, mas também no equipamento.


As nossas fiéis montadas aguardam o duche

Tenho noção que há quem faça 160 km de bicicleta num só dia, talvez antes de ir a casa almoçar, mas nós somos só duas pessoas normais, sem especial preparação física, e utilizamos duas bicicletas de BTT também perfeitamente "normais". A Decathlon da Marta, por exemplo, custou pouco mais de 200 Euros e já fez milhares de quilómetros. Com alguns cuidados, de certeza fará muitos mais.


Realizadas as tarefas, almoçamos no parque e partimos para uma pequena etapa rumo à vizinha cidade de Sines, onde planeávamos pernoitar. Em pouco tempo percorremos os cerca de 40 km de estrada, maioritariamente com berma e chegamos ao centro de Sines. Pelo caminho ainda nos cruzamos com vários outros ciclistas locais, que utilizavam a bicicleta para se deslocarem às praias da região.


A R 261-5 mais parece uma auto-estrada!

Em Sines parecia que já saboreava o peixe grelhado que ia comer ao jantar, mais ainda depois de ter descoberto uma espécie de feira de tasquinhas com comida regional. Tínhamos feito poucos km, íamos comer bem, tínhamos as bicicletas revistas e a roupa lavada, as coisas começavam-se a compor.

Esse "feeling" infelizmente durou pouco. Fomos escorraçados das tasquinhas por uma senhora diligente que parecia não gostar de bicicletas. Depois de uma subida íngreme, obstáculo que começávamos a considerar universal para chegar a todos os parques de campismo, fomos encontrar o dito... fechado! Tivéramos atempadamente o cuidado de ligar para todos os possíveis locais de dormida, a confirmar que estavam abertos, aceitavam seres humanos sem carta de campista e não estavam cheios. Alguma coisa tinha falhado.

Em Sines, mas não por muito tempo.


O cartaz não deixa margem para dúvidas.

Para um cicloturista, ser apanhado desprevenido numa situação destas é extremamente desagradável. Por sorte, nesta zona do país abundam os parques de campismo, ainda não era muito tarde e nós conservávamos energias suficientes para pedalar até Milfontes, se necessário fosse.

Voltámos à estrada e rumamos um pouco mais a Sul. Perdemos algum tempo à procura do Parque de Campismo de São Torpes, o mais próximo. Foi penoso pedalar nas estradas da região, por causa do vento que se levantou ao final do dia, mas sobretudo por causa do trânsito denso que havia na zona e o habitual comportamento execrável do "Zé do Volante" português, que não abranda, não dá espaço, e força a ultrapassagem mesmo que leve o guiador pela frente. Para completar o cenário, quando finalmente chegámos ao parque, constatámos que a zona de tendas era uma espécie de baldio, com lixo e carros espalhados um pouco por todo o lado, numa mistura de estacionamento ilegal com campo de refugiados. As diferenças para o parque da Galé, apenas a 60 km de distância, não podiam ser mais gritantes.


A zona de São Torpes é linda, os condutores nem tanto.

Resignados à nossa sorte, apressámo-nos a montar a tenda e tomar banho, para chegar a horas decentes ao restaurante. Este estabelecimento estava em sintonia com o resto do parque, um homem sozinho atarefava-se a servir à esplanada, fornecer jantares no interior e cafezinhos e licores ao balcão. Algumas horas depois conseguimos comer um bitoque gorduroso, servido sem arroz e sem salada, tal como tinha aliás acontecido na primeira noite em Sesimbra. E já não foi mau.

Dados do dia:

Km totais: 68
Velocidade média: 16,76 km/h
Velocidade máxima: 41,4 km/h
Água consumida: 1,5 L/pessoa

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Lisboa - São Torpes, dia 2: Também te doi aqui?

No Parque de Campismo Municipal de Sesimbra


A manhã do segundo dia de viagem foi a mais complicada. Acordámos ambos com dores musculares e uma sensação de cansaço generalizada. Eu dormi mesmo bastante mal, tendo passado boa parte da noite a espirrar. Tinha as minhas dúvidas quanto a conseguir sequer sair da cidade, quanto mais completar a etapa, que se previa a mais longa da viagem.

Ainda assim, tomamos o pequeno almoço, comprámos água, arrumamos as nossas tralhas e estávamos prontos para partir a uma hora respeitável. Cruzamos a zona do porto e depressa chegámos à primeira subida (é impossível sair de Sesimbra sem subir bastante!). A Marta olhou para a estrada inclinada e desmontou. Subimos a pé.

Castelo de Sesimbra
Chegados à zona onde o track nos deveria levar por um trilho até ao castelo de Sesimbra, fui eu que recomendei que fossemos pela estrada, tínhamos um longo caminho pela frente e nenhum de nós estava capaz de andar a subir morros, para visitas turísticas. Acabámos assim por evitar alguns pontos interessantes, mas que teriam acrescentado muitos km ao percurso, como seria o caso do Castelo de Setúbal.

Já fora da cidade, rumamos à pedreira e trilhos envolventes. Foi uma zona muito agradável de explorar, rolávamos bem, apesar do terreno pedregoso e vegetação fechada, onde por vezes só passávamos depois de muito raspar os alforges. Longe dos carros e da confusão urbana anda-se muito melhor, essa é uma das maravilhas do BTT.


Marta procura respostas no GPS
Avançando por trilhos e pequenos troços de ligação em estrada, parecia não estarmos a chegar a lugar nenhum e era já hora de almoço. Estava a ficar tarde não só para almoçar, como para chegar a Setúbal, apanhar o ferry para Tróia e ainda pedalar até algum lado antes do fim do dia (e das nossas forças). Com isto em mente, fizemos novo desvio do percurso previsto e apanhamos, um pouco por acaso, a N10, para Setúbal. Esta estrada é das poucas com uma berma civilizada que encontramos nesta viagem, além de outras boas características, pelo que rodávamos mais descansados e a bom ritmo. Tanta sorte tivemos neste itinerário que encontramos um restaurante na beira da estrada, onde almoçamos maravilhosamente e voltamos a arrancar com mais animo e já convictos que chegaríamos a bom porto ainda a horas decentes.

A caminho de Tróia
Em Setúbal descobrimos uma cidade renovada, com a Av. Luísa Todi muito apresentável, com os seus passeios novos, e na zona do Porto também registámos melhoras dignas de nota. Mas a nossa prioridade era mesmo o ferry, que apanhamos por preços de saldo, uma vez que estávamos psicologicamente preparados para pagar 4,5 Eur / pessoa pela travessia e pagámos apenas 2.

Concluída a travessia, começamos de imediato a rolar a boa velocidade rumo ao Sul. Sem grandes percalços, num par de horas estávamos no estradão que dá acesso à praia e parque de campismo da Galé, rumo a uma refeição quente e uma merecida boa noite de sono.


Dados do dia:

Km totais: 80
Velocidade média: 14,76 km/h
Velocidade máxima: 57,3 km/h
Água consumida: 4 L/pessoa

domingo, 25 de julho de 2010

Lisboa - São Torpes, dia 1: O Bom, o Mau e o Muito Estranho

Saio da cama com os primeiros raios de sol, consciente que aquele não será um dia qualquer. As bicicletas, carregadas com tudo o que vamos necessitar nos próximos tempos, aguardam na sala. Depois de quase uma semana de preparativos, está tudo a postos para começar as planeadas mini-férias pelo litoral alentejano.

A Marta, companheira de esta e outras aventuras, e eu, entramos na marginal sentindo uma certa ansiedade. O derradeiro teste à resistência das grades porta-bagagens e alforges que carregamos começa agora. Não estamos acostumados a estes equipamentos, nem a transportar tanto peso. A minha bicicleta ultrapassa mesmo os 30 kg. E se o material aguentar, aguentaremos nós? Só há uma maneira de saber.

Surgem os primeiros carros na estrada, e com eles as habituais demonstrações de falta de civismo. Muitos passam a escassos centímetros dos guiadores, a velocidades bem acima do permitido (ou do dobro do permitido). À conta destes mimos, na Cruz Quebrada tomámos o "passeio marítimo", na realidade uma via de manutenção da REFER que na prática é utilizada como tal. Daí seguimos para Algés e depois Belém, onde apanhámos o cacilheiro para a outra margem.

Ciclovia em Belém, a caminho do Cacilheiro

Esta primeira etapa deverá eventualmente levar-nos a Sesimbra, seguindo percursos fora de estrada sempre que possível, utilizando para o efeito tracks de GPS que seleccionámos na net.

Da Trafaria à Costa aproveitámos a excelente ciclovia, até nos embrenharmos nas trilhos de acessos rurais que nos transportam ao longo das terras entre a arriba fóssil e o mar. Pelo caminho, num trilho onde é proibida a circulação de veículos motorizados, somos surpreendidos por um artista numa mota, que se entretém a destruir as dunas e quase me derruba propositadamente ao passar por nós a todo o gás. Para complementar o cenário, surge a seguir a zona da Fonte da Telha. Dá pena ver aquela paisagem arruinada pelas casas ilegais e todo o lixo e detritos que as rodeiam. Regressámos brevemente à estrada, mediante uma subida intimidante, para seguir caminho para a Lagoa de Albufeira.

Depois de em poucos km termos presenciado inúmeras ilegalidades, eis que somos obrigados a cometer nós uma: o track que seguimos indica um trilho que está atrás de uma cancela fechada. Se seguimos em frente podemos perder-nos, se saltamos a cancela e entramos no pinhal, estaremos a fazê-lo contra a vontade dos proprietários. Acabámos por entrar, o pinhal é uma zona de exploração florestal e nós não temos por hábito danificar nada nem deixar lixo para trás.

Alguns km mais à frente paramos para dar passagem no trilho a uma enorme tractor que puxa um atrelado com troncos cortados. Observamos a perícia com que o condutor consegue ganhar tracção numa subida de piso mole de areia, para segundos depois ficarmos boquiabertos ao verificar que o hábil operador da monstruosa máquina é uma criança de oito anos!

Ainda não refeitos desta visão, uns km mais à frente, já tendo contornado parte da Lagoa, surge perante nós uma espécie de cidade de tendas, com muito lixo à mistura. Podia ser um campo de refugiados, mas mesmo vendo pouca televisão penso que teria ouvido falar da existência de tal coisa. Tardámos um pouco em perceber que tínhamos simplesmente chegado ao Super Bock - Super Rock.

Super Bock - Super Rock, Super Pó, Super Lixo...

A partir daqui as coisas ficaram mais complicadas. Apanhámos muita areia e passámos grandes bocados a empurrar as bikes. Fizemos um pedaço de estrada e voltámos à areia. O trilho acabou por ir dar à praia do Meco, ao areal mesmo, que tivemos de atravessar. Foi na zona do Meco que almoçámos, antes de seguir caminho para o Cabo Espichel. O percurso foi ficando mais e mais difícil, até que demos por nós nas imediações do Santuário mas sem conseguirmos encontrar caminho para lá chegar. O track que seguíamos já teria um ano e durante o Inverno aquela zona terá ficado muito diferente, fruto das intensas chuvas. Perdemos literalmente horas às voltas, a içar as bicicletas de dentro de enormes crateras, sem encontrar a saída. Acabamos por recuar e ignorar o GPS, seguindo na direcção da estrada.

Perdidos no Cabo Espichel

Uma vez na estrada, já de lá não saímos. Estava a ficar tarde e estávamos demasiado cansados. Umas bebidas frescas servidas por uma senhora simpática na Azóia deram-nos as forças e ânimo para prosseguimos caminho. Chegámos ao parque de Campismo, que se acede depois de uma subida demasiado íngreme para viajantes cansados, pelas 17:40, praticamente 11 horas depois de termos começado.


Sesimbra à vista!


Dados do dia:

Km totais: 82
Velocidade média: 12,89 km/h
Velocidade máxima: 56,1 km/h
Água consumida: +4 L/pessoa