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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Rápidos e Furiosos. Mas a Grande Marmota Tudo Perdoa. Porque Ela Ama Você!



Depois de ver toda a gente que eu conheço ficar de cama com gripes, constipações e derivados, tendo eu próprio apanhado algumas molhas, parece que a coisa acalmou. Espero que tenham conseguido escapar aos tornados, vagas gigantes e tenham estacionado o enlatado longe da costa. Se não conseguiram, portem-se melhor este ano. Sim, que a mim bem me podem vir com explicações pseudo-científicas de alterações climáticas e sei lá mais o quê, quando é óbvio que tudo isto não passa de um merecido castigo da Grande Marmota que Está no Céu.

E falando no divino, como anda a relação com as vacas sagradas, agora que já passou uma semana desde a entrada em vigor do revolucionário novo código da estrada? O código que segundo alguns críticos dá "direitos excessivos" aos ciclistas, (como o direito a respirar, por exemplo), será que tem feito alguma diferença?

Pela minha experiência, não.

Nada.   

Mas, sim, claro, pode ser demasiado cedo para estar a tirar conclusões do sucesso ou insucesso das novas medidas. Só que a mim pagam-me é para especular e é isso que tenciono fazer. Reparem, o problema é que Portugal e outros países da bacia do mediterrâneo, a última vez que foram considerados exemplos de civilização, era este gajo que estava no poder:

"Também tu, Barbosa?"

Nas décadas mais recentes (ou, vá, séculos), aqui no Sul da Europa, há um enorme desfasamento entre o aquilo que é a lei e a realidade vivida no terreno. Que eu saiba já era proibido circular a mais de 50 km/h nas localidades, conduzir e falar ao telemóvel ao mesmo tempo ou estacionar em cima do passeio. Tudo coisas que fazem parte do dia a dia de qualquer Lisboeta, sem que isso pareça incomodar minimamente as autoridades que é suposto controlarem esses abusos. 


"Onde é que quer que eu deixe o carro?!"

Caso o temperamento dos Portugueses fosse outro, provavelmente o anterior código da estrada já serviria perfeitamente para compatibilizar a bicicleta com o resto do tráfego (Ok, faltavam uns conceitos e uns sinais, mas ninguém é perfeito!). Já era obrigatório, por exemplo, guardar uma "distância lateral de segurança" ao ultrapassar outro veículo. E a bicicleta já era considerada oficial, legislativa e filosoficamente um veículo. Chama-se "velocípede". Podem ir verificar. Mas como a maioria dos condutores parecia considerar um par de milímetros uma distância de segurança mais do que suficiente para ultrapassar um ciclista, foi preciso deixar por escrito, preto no branco, quantos milímetros de separação devem deixar. E são mil e quinhentos, metro e meio, ok?!

Agora que os portugueses não podem fingir que não percebem a lei, estão aparentemente a adoptar outra técnica muito usada por cá nestes casos: ignorá-la por completo. E não acho que os motoristas tenham alguma coisa de especial contra as bicicletas, aliás, basta ver como tratam os peões, os motociclistas e uns aos outros!

O paradigma existente e a nova legislação fazem-me lembrar um sketch dos GF sobre o aborto. Era só mudar um pouco as questões:

Entrevistadora: Ultrapassar um ciclista à queima-roupa é estar a brincar com a vida e integridade física das outras pessoas, não é?
Professor: Sim.
Entrevistadora: Portanto, devia ser proibido.
Professor: Exacto.
Entrevistadora: Mas eu poderia ultrapassar dessa maneira?
Professor: Podia.
Entrevistadora: E o que é que me acontecia?
Professor: Nada.
Entrevistadora: Mas estava a ir contra a lei.
Professor: Estava.
Entrevistadora: E como é que a lei me punia?
Professor: De maneira nenhuma.

No seu habitat natural, o cidadão português é uma criatura normalíssima, mas que sofre uma mutação tipo Hulk quando as suas mãos tocam num volante. Na sua mente em delírio, uma deslocação quotidiana para o trabalho parece-se com isto:




Quando na verdade o que está realmente a acontecer é algo parecido com isto:  


"São só 700 horas por ano!"

Quem explica muito bem este fenómeno, e o porquê de eu não esperar grandes diferenças no respeito pelos ciclistas na via pública, após a entrada em vigor do novo código da estrada, é o Rui Zink. Ele têm umas "opiniões um pouco fortes", expressão que costuma ser-me dirigida também a mim, pelo que como imaginam, concordo totalmente com ele! É que quando um comportamento desviante passa a ser a norma, quem o denuncia é que está a incorrer num desvio. Mas estou a divagar. Oiçam o Zink, é daquelas coisas que vale mesmo a pena.



Poucos parecem ter a coragem de chamar os bois (ou as vacas sagradas) pelos nomes. Sociopatas é de facto apropriado. Um amigo meu Inglês descreveu a realidade rodoviária que encontrou por cá com outra expressão simples e brilhante: bullying. Mas não se preocupem, porque afinal estamos num país católico, e no fim tudo será perdoado. Mesmo na minha religião, no fim, a Grande Marmota perdoará sempre os arrependidos.

Gordo, molhado, mas feliz!

Se calhar foi por isso que comi como um alarve nesta quadra festiva, como vós infiéis a designais, e só tive consciência disso quando peguei na bicicleta de montanha e me pareceu que estava sempre na mudança errada, sempre numa mudança demasiado pesada.

Raízes molhadas: M-e-d-o

Outra coisa que reparei é que se passar muito tempo sem fazer um bocadinho de BTT, quando volto aos trilhos há coisas simples que me custam muito fazer. Pronto, muito jeito se calhar nunca tive, mas passar por cima de umas pedras e umas raízes com pneu 2.1 não devia ser demasiado complicado. Mas agora parece que é. Muitos sonhos, filhoses, broas e bolo-rei ando eu a arrastar comigo estes dias. A Grande Marmota me proteja!

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A gloriosa hora do almoço, a Gloriosa Bicicleta e o Velho Lau

Saiam da Frente! Hoje é cozido!!
 
Então, essas compras de Natal? Tá tudo? Hem? Não querem falar nisso? Vai quê?? Compreendo. Mas cuidado com deixar demasiadas coisas para a última hora, já sabem como é o Zé-do-Enlatado Tuga: vai tratar de compensar o atraso assim que se sentar ao volante. Nada como partilhar a estrada com uma horda de automobilistas ainda mais enraivecidos e tresloucados que o habitual, na senda do último par de peúgas para a avó e da caixa XXL de Ferrero Rocher para boazuda do economato. (Pode ser que pinte um clima...) Ah, o Natal, o Natal. Já sinto o cheiro a benzina no ar!

"Na hora do almoço, tem cuidado, moço"

Bom, e falando em enlatados enraivecidos, já reparam como a hora do almoço é capaz de ser ainda pior que a hora de ponta da manhã e da tarde? Estava aqui a tentar pensar num trocadilho, tipo "esfomeados ao volante, perigo constante" ou "hora do almoço, acelera que dá gozo", ou ainda "Saí lá da frente, tenho que ir dar ao dente". Enfim, a questão é a mesma de sempre, o automobilista médio sobrestima a capacidade que tem de se deslocar rapidamente na sua viatura movida a nhanha de dinossauro, esquecendo sempre de contar com demoras com o trânsito, os semáforos, passadeiras, cruzamentos, etc, e resolve sair da empresa e ir almoçar a algum sítio fora das redondezas. Afinal uma hora dá para muita coisa! Para ter tempo de comer o bitoque no restaurante favorito ou poupar uns cobres almoçando em casa, e ainda ir ao banco ou à farmácia, anda para trás e para a frente numa correria louca que o deixa cego a outros utentes da via, principalmente os mais vulneráveis, como peões e ciclistas. Quantos destes histéricos sprints gastronómicos não terão já acabado com a vida de um ciclista? Não faço ideia, mas para mim a hora do almoço dos dias de semana é como o período nocturno: circulo de bicicleta com cuidado extra.

Foto: "Portugal 50 Anos de Ciclismo"

Mas por muito cuidado que se tenha, o perigo existe. Que o diga Venceslau Fernandes, que este fim de semana levou com um enlatado cheio de pressa para ir às compras (ao Pingo Doce), e foi parar ao hospital com várias fracturas sérias. Com 68 anos estas coisas tornam-se ainda mais complicadas, mas o lendário vencedor da Volta a Portugal de 1984, quando já ia nos 39 anos (e cuja carreira acabaria apenas aos 46 anos de idade), tem fama de ser rijo que nem uma barra de ferro. Espero que faça jus a essa reputação, e recupere depressa. Recordo com algum alarme que a própria Vanessa Fernandes, a famosa filha do Velho Lau, ainda em 2010 teve também um encontro imediato com um paquiderme de aço durante um treino, que implicou cuidados médicos e uma temporada de baixa. Este país...

Ainda se diz "like!"?

Mas vamos esquecer as coisas tristes por uns momentos e abraçar a imensa paixão pela bicicleta! Pelo menos é o que propõem os autores de "A Gloriosa Bicicleta", o livro da moda desta quadra natalícia. Sendo os autores, além de ciclistas urbanos, membros veteranos dos media, não é de estranhar que se saibam mexer na comunicação social e nas redes sociais, onde esta obra tem conseguido atrair as atenções de adeptos da causa e não só. Não sei se se trata apenas de "spin" positivo, mas ainda não botei as mãos nesse canhenho e ele já me conseguiu transmitir boas vibrações, por alguma razão. E não, não andei a fumar nada. Se quiserem adquirir uma cópia do pequeno livro laranja com direito a gatafunho dos autores, ainda podem passar no Cascais Villa este Sábado e conseguir mais uma prenda para por no sapatinho. Ou na meia. Ou na chaminé. Ou whatever.

E falando em prendas, para aqueles que têm mostrado preocupação com o meu estado de saúde após os 200km de Sábado, reporto com satisfação que tudo vai bem e apenas o meu posterior se queixa um bocado:

"Tenho MESMO que mudar de selim!"

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

As Rodas da Ira: Proíbam o Ciclismo

Mais valia assumir

Uma ideia: Proíbam o ciclismo. Proíbam a circulação de bicicleta no espaço público. Ilegalizem. Sobretudo em estrada, mas acabem com essa praga nas ciclovias também.

Tudo.

Prendam todos os prevaricadores, mão dura com esses esquisitoides. Assegurem que a nenhum ciclista será tolerado perturbar a circulação das vacas sagradas.

Responsáveis da nação, autarcas, este é o desafio. Combatam essas criaturas odiosas e desviantes! Está nas vossas mãos. Façam o que o povo anseia e serão recompensados com mais anos de poder, bajulações e honrarias.

É certo e sabido que em Portugal a diferença entre o que é a lei e o que se passa regularmente na prática é abismal. Não é de agora. Se o automobilista quiser andar a 100 em cidade não se passa nada. Já o contrario, circular legalmente de bicicleta em estrada pode ser muito complicado, para o ciclista claro. Porque não resolver isso? Se toda a gente parece achar que os ciclistas são um estorvo e nem a legislação nem as autoridades os protegem, por que não ajustar a lei ao que se passa na pratica? Ficava tudo mais arrumado e os potenciais interessados ficavam a saber com o que podiam contar.

Pela primeira vez em algum tempo, hoje fui todo o caminho de casa até Lisboa a pedalar. Na ida, não sucedeu nada de extraordinário, se considerar-mos normal os automóveis na marginal passarem (como sempre) a grande velocidade e a milímetros do meu guiador.

O regresso foi diferente. Parece que por onde quer que eu passasse, era fonte de irritação para toda a gente. Antes de chegar ao Cais do Sodré, já os taxistas me tinham feito rasantes suficientes para me depilarem as pernas. Na praça de táxis do Cais do Sodré, um fogareiro abriu (atirou com) a porta quando eu ia apertado por outro carro e por pouco não me apanha. Perante o meu protesto, os demais profissionais da praça encararam-me com um misto de nojo e desprezo. Decidi seguir pela ciclovia (de Belém), mas talvez não tenha sido a melhor ideia.

O Habitual, na "ciclovia" de Belém

Em Alcântara, antes da GNR, atrás da AR Telecom e outras empresas, está um grupo de adolescentes espalhados pelo passeio e pela ciclovia. Uns estão de pé, outros esparramados no chão. Quando estou a passar, há um miúdo, que não poderia ter mais de 15 anos, que avança para o meio do caminho, sem me ver. Eu aviso "Cuidado", mas em resposta o adolescente resolve encarar-me e atira-me com um "Cuidado o quê, »@"#$"%$? Eu respondo simplesmente sinalizado e dizendo "ciclovia", mas o resto da tribo já se está a levantar, avançando provocativamente e a gritando insultos, pelo que respondo um pouco na mesma moeda e afasto-me.

Tento não deixar que estas coisas estraguem o que de outro modo até estava a ser um prazenteiro regresso a casa. Afinal eu só queira era chegar a casa. Mas a coisa não podia ficar por aqui. Mesmo a chegar, numa rua onde passo todos os dias, fui quase vitima do famigerado "Right Hook". O Problema das viragens à direita é soberanamente conhecido no mundo do ciclismo e há técnicas para melhorar as nossas probabilidades de seguir em frente em segurança. Uma delas é circular mais à esquerda antes do cruzamento, para que o automobilista não só perceba claramente que não vamos virar, como não possa ultrapassar naquele momento. Foi isso que eu fiz perante a presença de um carro atrás de mim antes do cruzamento. Não serviu de nada.

O Fiat nunca me ultrapassou. Manteve-se no meio da estrada, mesmo ao meu lado e depois virou à direita como se nada. O condutor tinha que estar em morte cerebral para não me ver. Justamente por já esperar todo o tipo de barbaridades dos enlatados, consegui, não sei como, evitar a colisão e não cair. Mas fui forçado a entrar na rua para onde a vaca sagrada queria ir. O que seguiu foi uma cena triste, comigo a perder todo o controle e a berrar o que me veio à cabeça naquele momento ao automobilista, ao mesmo tempo que o desafiava a parar. Em boa hora o mentecapto não o fez, porque eu estava com a adrenalina no máximo e tomado de uma raiva desconhecida. A violência que decerto de seguiria só me prejudicaria, mais uma vez, a mim próprio.

Eu só queria chegar a casa. Mas nunca nada é assim tão simples no país dos rodinhas. Já pensei tantas vezes em emigrar, só por causa disto. Parece que sou eu que estou mal, e quem está mal muda-se, não é assim?

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Nobody likes you




Retirei o título deste post de uma tirada de um conhecido filme dos anos noventa protagonizado pelo Bruce Willis. O monólogo prossegue com as frases "everybody hates you. You're gonna lose. (...)"

Este bem podia ser também o diálogo que um ciclista urbano tivesse com o seu espelho todas as manhãs, antes de sair de casa e se lançar, a pedalar, no caos motorizado da cidade de Lisboa. Bem sei que esta não é a temática preferida daqueles que, como eu, procuram promover o ciclismo utilitário, mas as coisas são como são.

Quem nunca teve que se desviar in extremis de uma colisão frontal com um qualquer Schumacher do Cacém em ultrapassagem pré-orgásmica na estrada nacional? Quem nunca se sentiu o alvo de um improvisado concurso juvenil de arremesso de pedras, lixo e outros objectos? Quem nunca teve um psico-automobilista a fazer-lhe uma razante a alta velocidade com buzinadela incluída, na tentativa de provocar uma queda? Quem é que nunca foi insultado e intimidado pelo simples facto de se deslocar de bicicleta? Se nunca passou por todos estes cenários, é porque não pedala regularmente.



É claro que isto são os comportamentos sociopáticos, e eles existem, mas felizmente nem são tão abundantes como isso. O grande inimigo do ciclista é simplesmente o condutor/a distraído e ignorante, que acha que o código da estrada é apenas um conjunto de sugestões e não faz ideia o que possa significar a expressão "margem de segurança". Ou seja, quase todos os automobilistas portugueses. O problema não é só nosso. Os portugueses bem se esforçam, mas o cobiçado título de piores condutores do mundo tem outros pretendentes. E em qualquer lugar onde o moderno trânsito motorizado partilha espaço com ciclistas, as coisas têm tendência a correr mal. Para o ciclista.

Se isso parece até certo ponto inevitável, é mais difícil de entender o ódio visceral que alguns parecem nutrir pelos ciclistas. Será que parecemos tão diferentes que se torna fácil dizer publicamente coisas que pareceriam inadmissíveis se fossem dirigidas a outro grupo/classe?

Não tem graça, mas não anda longe da verdade

No Facebook há quem incentive o ódio ao ciclista e se dedique a falar mal do que parecem entender como uma ameaça e uma praga. Como estes tipos. O YouTube alberga também inúmeros vídeos de ódio, basta fazer uma pesquisa. No principal fórum português de ciclismo, há inúmeros relatos de situações arrepiantes vividas nas nossas ruas e estradas. (De tal maneira que deixei de lá ir). Mas as más noticias não são difíceis de encontrar. Também a policia, aparentemente, gosta de bater em ciclistas, um pouco por todo o mundo. E cronistas de várias origens e cores políticas adoram atacar o alvo fácil que é o ciclista urbano, do alto dos seus púlpitos mediáticos. Não só por cá, mas no UK ou em Espanha.

Até o brilhante George Carlin não resistiu a fazer umas piadas fáceis sobre ciclistas, recorrendo à prática habitual de reduzir a bicicleta ao estatuto de brinquedo e o ciclista ao papel do estranho, o outro, suficientemente diferente para sobre ele poder recair impunemente todo o tipo de violência.

É prudente não esquecer que o código da estrada não nos protege, muito menos as autoridades. E que na estrada somos os mais vulneráveis. A nossa maior arma é a inteligência, e quem escolhe deslocar-se de bicicleta já demonstrou ter inteligência acima da média. Mas é preciso não facilitar, não baixar a guarda. Acabando como comecei, com uma cinematográfica tirada pirosa em estrangeiro: "best defence is no be there". 

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Dura lex sed lex

Nós por cá...


Parece que os homens e mulheres que impõem a lei no concelho de Oeiras esquecem-se por vezes de a cumprir. O facto é tão mais relevante porque é a policia municipal que se encarrega de multar os "perigosos prevaricadores" que circulam no passeio marítimo de Oeiras de bicicleta, fora do horário em que são tolerados. No mesmo passeio marítimo onde é vulgar encontrar automóveis... Enfim, temos que ser positivos: ao menos estes policias andam de bicicleta!

Eu sei que há alguns que não vão perceber a imagem, para esses eu recordo: é proibido circular no passeio, seja de bicicleta, seja de Fiat Punto. O facto recorda também as poucas alternativas que existem a uma estrada marginal (N6) estreita, sem bermas e com excesso de tráfego a qualquer hora do dia.

terça-feira, 17 de maio de 2011

3 Dicas Diferentes

Cycle Chic? Sem alforges? É um homem? Hum...
 
Alguns conselhos pouco convencionais, embora não totalmente originais, para circular em segurança na cidade de Lisboa. Se estiver à procura de dicas mais tradicionais, experimente ler por exemplo estas, e também estas. Mas para circular em segurança deve ter em conta alguns factores menos citados:

  • STATUS. Como toda a gente sabe, o português médio liga muito ao seu estatuto na hierarquia social, ou pelo menos à imagem que projecta, tentando parecer o mais possível pertencer a um nível elevado na cadeia alimentar. Assim, se for bem vestido/a quando circular de bicicleta, tem mais possibilidades de ser respeitado nas ruas. As ultrapassagens são feitas com maior distância de segurança e a velocidades mais reduzidas. Ninguém quer provocar um acidente com um tipo importante. Excêntrico, mas importante. Desconfio que toda a malta do Cycle Chic já sabe disto à muito tempo, tal como o Paulo Guerra dos Santos.

  • MACHISMO. O português é um refinado machista do Sul da Europa. Isso levanta algumas questões, mas o que se quer são soluções, não problemas. Assim, o melhor que tem a fazer é ser mulher. Tem logo direito a um bocado mais de tolerância por parte do automobilista de bigode farto e pelo na venta. Uma mulher de bicicleta na estrada é visto como uma anomalia, para a qual bem se pode perder algum tempo, para análise e estudo. Análise do fenómeno em si e estudo das formas femininas, bem entendido.

  • AMOR À VACA. A paixão avassaladora que assola à décadas a sociedade portuguesa pela sua amante de 4 rodas, a vaca sagrada, pode ser usada a nosso favor. Em vez de suportar razias sucessivas por parte dos automobilistas, nas costumeiras ultrapassagens "chega pra lá", experimente levar os alforges bem cheios, principalmente o do lado esquerdo. Não só tornam a bicicleta mais visível, como garantem uma maior distância lateral de segurança por parte dos Schumachers cá do burgo. Não é que o problema fosse falta de visibilidade, é que eles têm medo de riscar a tinta ao bólide.

E assim acontece, o Lisboa Bike a contribuir de forma decisiva para a segurança rodoviária. Muito mais que estes tipos, que alguém ainda tem que me explicar para que servem. E agora algo completamente diverso: a pedido de várias famílias, podem encontrar digitalizações da reportagem da revista do DN de sábado aqui.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O tirano

Lisboa: a cidade com mais vacas sagradas que toda a Índia

Excelente posta do A Nossa Terrinha chama a atenção para forma como o carro continua não só a ser rei em Lisboa, mas como é de facto um cruel tirano, mesmo na zona mais nobre da cidade. Uma análise precisa e rigorosa, como dificilmente se encontra na blogosfera, levanta de imediato a pergunta: mas a câmara anda a dormir? (Mal)gasta-se dinheiro em tanta coisa e uma zona tão emblemática de uma cidade que recebe milhões de turistas por ano tem aquele aspecto? Como é possível?

Se é assim em relação a uma das actividades que traz mais dinheiro à cidade, o turismo, então não admira que a CML seja tão indiferente aos peões, aos ciclistas e todos aqueles que não se façam transportar pela gloriosa vaca sagrada. Podem ler o que sobra do trabalho, após o crash do Blogger, aqui.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Do Cais do Sodré à Avenida de Berna

Vale tudo menos tirar olhos?

Embora eu seja fotógrafo, nunca senti a tentação de descobrir e retratar pessoas de bicicleta na rua. Eu sei que está na moda e até aprecio o conceito, embora não necessariamente todos os seus resultados. Não excluo fazer algo semelhante de futuro, mas por agora prefiro manter o foco de trazer alguma realidade a este estranho fenómeno do ciclismo urbano, porque muitas vezes sinto que os discursos neste meio se centram numa certa visão utópica do utilitarismo. Assim, em vez de imagens de raparigas bonitas a passear descontraidamente em ruas sem trânsito (nada contra!), eis um relato nu e cru de um dos trajectos que faço habitualmente.

Estação do Cais do Sodré, 15:35 horas. Saio do comboio da CP no meio de um coro de protestos quanto ao atraso da composição e a temperatura excessiva no interior da mesma. Está muito calor, parece um dia de verão. Começo a imaginar o estado em que vou chegar ao destino, as calças de ganga e t-shirt parecem-me demasiado. Coloco o capacete e as luvas sem dedos e arranco para o meio dos taxistas e autocarros da Carris que dominam a praça.

O semáforo fica verde e, da frente da fila, avanço para a minha primeira infracção: sigo pela Rua do Arsenal, onde o trânsito é suposto estar limitado aos transportes públicos, mas onde se podem encontrar enlatados de toda a espécie. Como de costume, não há qualquer problema na interacção com os autocarros e eléctricos, uma vez que eu consigo acompanhar o seu ritmo. Os peões que saltam para a estrada quando eu estou "apertado" entre os muitos buracos e os carris do eléctrico são um problema mais sério.

Depois de novo semáforo, entro no Terreiro do Paço (eu sou tão old school que ainda resisto a chamar-lhe "Praça do Comercio") e tenho que lidar com mais carris de eléctrico e autocarros. Continuo "ilegal", mas por pouco tempo. Corre a notícia que a CML se prepara para autorizar a circulação de velocípedes em zonas BUS, com certas restrições. Em Portugal há sempre a mania das excepções, a ponto de normalmente as regras ficarem incompreensíveis e cada um fazer o que bem lhe apetece. Não percebo porque hão de existir restrições neste caso. Adiante.

Viro à esquerda e começo a subir a Rua da Prata, onde ultrapasso um autocarro. Sigo a bom ritmo na faixa da direita atrás de um Citröen quando a senhora que o conduz decide que quer estacionar. Guardo uma distância de segurança razoável, mas não estava à espera da paragem, uma vez que ali não há onde estacionar. Como para qualquer bom portuga, daqueles do bigode e pelo do peito à vista, (mesmo que seja neste caso um bigode metafórico, que senhora vai formosa mas não segura) isso não representa nenhum problema: ela atira o carro para cima do passeio de uma das mais nobres vias da capital e puxa do travão de mão, parando abruptamente. Duas rodas ficam em cima da calcada, duas em cima do asfalto: quem vier atrás que feche a porta. Desvio-me da traseira do carro com algum esforço e vocalizo um protesto, ao melhor estilo Homens da Luta, na forma de um bem audível Então, pá?!

Depois de aterrorizar a pobre condutora e surpreender os pacatos transeuntes, a quem (julgo) o meu protesto pareceu bem mais reprovável que a atitude da automobilista, chego à Praça da Figueira apanhando os semáforos verdes e entrando de imediato no Rossio. Nesta mui nobre praça está instalada a confusão, com vários autocarros de turismo parados em segunda fila, no local onde os seus congéneres da Carris procuram estacionar. Tenho que ter cuidado no meio destes colossos e quando me livro do aperto sou surpreendido pelo grito, em jeito de desabafo, de uma florista instalada perto da entrada  do Metro: - Caralho!!!! Esta gente não compra nada!! - Ainda há dúvidas que a crise está instalada?

Os taxistas que me ultrapassaram entretanto, são por sua vez por mim ultrapassados no semáforo dos Restauradores, onde viro à direita para subir a Av. da Liberdade pela lateral. Pouco depois é chegada a hora de accionar a roda pedaleira pequena, que a subida se torna pronunciada. Mais à frente a rua estreita, passa a existir uma só faixa disponível e as ultrapassagens tornam-se perigosas, pelo que eu passo a ocupar o centro da via (outra ilegalidade, de acordo com o CE português). Sem stress, os carros circulam devagar e eu facilito as ultrapassagens sempre que possível.

Passo o Tivoli e viro à direita, continuando a subida agora pela Rua Rodrigues Sampaio, onde há menos trânsito, mas existem alguns cruzamentos perigosos, sem semáforos e sem prioridade. Passo pelas traseiras do DN e quase sou esmagado por um furgão que decidiu mudar de faixa, enquanto o condutor dava uma passa no cigarro e falava com o colega. Eu estava atento e tinha espaço para a manobra evasiva, por isso não houve alarme. No semáforo arranco antes de toda a gente e viro para a esquerda, passando nas traseiras da EDP, e entrando na rua Actor Tasso. Aqui tenho que recorrer à experiência de leitura de terreno que o BTT proporciona. A bicicleta não tem suspensão e o único amortecimento é assegurado pelos pneus relativamente largos. Isso e os meus braços e pernas! O pavimento neste troço é uma superfície disforme, um empedrado ondulado e esburacado, e no fim da descida está um semáforo vermelho. Os travões asseguram uma paragem segura e dai a pouco estou de novo a subir, em pedaleira pequena. Na rua Latino Coelho, um tipo num BMW tenta espalmar-me contra os carros estacionados. Normalmente encontro bastante civilidade, mas patos bravos destes apanham-se de vez em quando. Luto por manter a minha posição na estrada e passado pouco tempo o BMW fica para trás, preso numa longa fila de carros parados que eu ultrapasso tranquilamente pela lateral.

Ela adora o vermelho!
 
Um semáforo e um cruzamento manhoso depois (rua Marquês de Fronteira) e estou prestes a entrar num troço de "ciclovia" que passa em frente ao CAM da Gulbenkian e faz a ligação para a Av. de Berna. O único problema é já uma tradição: normalmente está sempre algum carro, com alguém lá dentro, parado em cima do começo da ciclovia, a bloquear completamente a passagem. Normalmente eu digo qualquer coisa à pessoa, do tipo "Você não está aí bem" e recebo normalmente uma resposta do tipo "deves ter muito a ver com isso!" Foi exactamente o que sucedeu hoje, o que me deixou com o humor certo para encarar as muitas pessoas que preferem a vermelhidão da ciclovia às pedras do passeio ali ao lado, bem mais largo. Usar a campainha é inútil e se alguns (poucos) se desviam, outros ficam a olhar intensamente, num medir de forças do género game of chicken. Eu percebo que alguns peões sejam contra as ciclovias em cima de passeios, mesmo que largos como é o caso, mas tenho ideia que a maioria não tem sequer noção de onde está e do que se está a passar. Curiosamente, se alguém estacionar um carro em cima do passeio naquela zona, ninguém diz nada. Foi por isso com alguma irritação que escutei uma boca qualquer sobre excesso de velocidade, lançada por um dos incondicionais do tapete vermelho. Não tenho paciência para tanta ignorância e respondi com um indesculpável gesto, que na altura me pareceu a única resposta adequada.

Av. de Berna em todo o seu esplendor

Alguns segundos depois já estou na Av. De Berna, ou como os senhores automobilistas a conhecem, a Autoestrada de Berna ou a recta do picanço. Aqui a única coisa a fazer é pedalar rápido e esperar que as estatísticas sobre colisões por trás estejam correctas...

Este relato refere-se a uns escassos 6 km. Circular em Lisboa é isto, embora a experiência de cada um possa variar.

Percurso: 6,04 Km
Tempo: 23 minutos
Velocidade Média: 15,6 km/h
Velocidade Máxima: 35 km/h
Estado do ciclista à chegada: Apresentável

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Bike Wars

Imagem: treehugger.com

 
Retiro o que disse no último post. Bem me estava a estranhar tantas facilidades... Hoje tive um commute dos infernos, e não foi por causa do tempo. Aliás, esse é outro mito/desculpa que não convence ninguém. Somos uma sociedade de novos-ricos comodistas, com um serviço de meteorologia que declara alertas por tudo e mais alguma coisa. Eu passei ao todo uma hora em cima do selim hoje, em diferentes alturas do dia, e não vi nem senti nada que se parece-se com uma tempestade. Não só o vento nunca chegou a ser perigoso, como nem chuva apanhei.

Mas para perigo não precisamos cá do clima, pois temos o famoso Zé-do-volante português, um elemento que inspira muito mais receios que um nevão na Dinamarca. Hoje apanhei tantos sustos, que se tivesse uma arma comigo teria acabado o dia estilo Rambo First Blood. Primeiro, na Rua da Prata um automobilista fartou-se de andar a trás do eléctrico e resolveu mudar de faixa. O problema é que estava lá eu e só me consegui desviar por milímetros. Um pouco mais à frente um Kangoo dos CTT saltou (literalmente) de cima do passeio onde estava, na lateral do teatro Dona Maria II, para a faixa de rodagem, onde eu vinha. Mais uma vez evitei a colisão por muito pouco e desta vez não me contive e apliquei o meu melhor vernáculo ao motorista, que não me passou cartão. De notar que o piso estava molhado e escorregadio, o que tornava as manobras de emergência ainda mais complicadas.

As pessoas pareciam que estavam histéricas, os automobilistas tinham comportamentos erráticos, imprevisíveis. Pouco mais à frente evitei por muito pouco levar com a porta de um taxi, que se tinha imobilizado no meio da lateral da Av. da Liberdade. Com a adrenalina no máximo e a paciência no mínimo, já com o reportório de palavrões quase gasto, estava a chegar ao destino quando uma senhora num monovolume, a sair do estacionamento da Gulbenkian, olha para mim a passar e atira-me o carro para cima! Evitei a colisão nem sei bem como, mas envolveu uma enorme derrapagem controlada da roda de trás, muito equilíbrio e um golpe de guiador BTT-Style, de tal maneira que ultrapassei a senhora. Ela limitou-se a dirigir-me um olhar de desprezo, com aquele ar de "não se deve dar confiança a esta escumalha" e lá se foi embora no seu Rernault com um autocolante de "miúdo a bordo" ou coisa do género.

Cheguei à faculdade bastante stressado e a equacionar esta coisa de ir todos os dias de bicicleta. Os portugueses ao volante são tão ignorantes como são agressivos. Começo a questionar as minhas hipóteses de sobrevivência a longo prazo nas actuais condições que Lisboa oferece.

domingo, 10 de outubro de 2010

O Homem que mudou o mundo


O sítio onde moro não é bom nem é mau. É o que é, um subúrbio pseudo-confortável da cidade de Lisboa, perto da praia, bem servido de transportes públicos eficazes (comboio) mas cercado de estradas com pretensões a vias rápidas, onde o uso regular da bicicleta para fins utilitários não é recomendado.

Em Carcavelos trava-se a mesma batalha pelo espaço urbano que se regista um pouco por todo o país. Como em quase todo o lado, o automóvel está a vencer por goleada. Cá no burgo o espaço público destina-se à circulação ou ao estacionamento das vacas sagradas. Não há largos, não há praças, há cruzamentos rodoviários. Isso não impede que os minúsculos passeios sejam mesmo assim reclamados para acomodar ainda mais automóveis.

Carcavelos no seu melhor
Isso acontece a diário mesmo no centro de Carcavelos e é também o caso dos passeios que rodeiam a minha casa. Moro num R/C e estava farto de ter carros a entrarem-me pela janela do quarto (só o ruído sugeria isso mesmo). Farto de vista para o tubo de escape do Golf Xpto do Zé-do-Boné cá do sítio, farto de ver o passeio a degradar-se, farto de observar carros debaixo da minha janela para aproveitar a sombra, mesmo quando a rua estava vazia. Resolvi escrever à Junta.

Antes: a vista habitual do meu quarto
A primeira iniciativa deu-se na sequência de uma carta que tinha escrito ao Público, sobre o mesmo assunto, e não obtive resposta nenhuma. A segunda tentativa foi em finais de Julho deste ano. Escrevi uma reclamação detalhada, com fotografias e uma proposta de acção, ou seja, a colocação de pilaretes. Desta vez não só obtive resposta rapidamente, como com ela vinha a promessa de obras quase imediatas.

Terreno recém libertado

Imediatas não terão sido, mas o espaço regularmente invadido pelos paquidermes de aço tem desde ontem o aspecto que as fotos documentam. O piso está a ser reparado.

O pavimento vai ser reparado
Não faço ideia se algum outro vizinho reclamou da situação ou se por aqui mora alguma sumidade, daqueles com connections, que tenha pressionado a junta de freguesia no mesmo sentido. Tanto quanto sei, eu fiz isto acontecer. Eu mudei a realidade triste da esquina do meu prédio. Eu.

ReichFüher Barbosa: 0 - Bessa: 1

E que interessa isso? De uma coisa estou seguro: se vamos conseguir alguma coisa no campo da mobilidade sustentável neste país, vamos ter que lutar. Vamos ter que insistir. Vamos ter que dar a cara. Vamos ter que acreditar. Não se trata sequer de qualidade de vida, de mais ou menos ciclovias, trata-se de direitos. Podemos mudar o nosso paradigma. As coisas acontecem. Mas é preciso investir nelas. Felizmente não faltam exemplos de pessoas que contribuíram muito mais para "a causa" do que alguma coisa que eu alguma vez tenha feito, mas ontem... Ontem senti os meus esforços recompensados. Houve ali um sinal de esperança, uma coisa fugaz, mas poderosa. Continuem a  escrever, continuem a reclamar, continuem a aparecer. Vale sempre a pena.

sábado, 9 de outubro de 2010

Porquê?

Incompreensivelmente, a carrinha abranda. Naquela recta inóspita, não muito longe da fronteira imaginária que divide os concelhos de Lisboa e Oeiras, o trânsito é, como sempre, intenso. O Sol brilha, espreitando por momentos entre as nuvens de tempestade. Do outro lado da estrada grandes vagas esmagam-se ruidosamente na praia. Um vento teimoso recorda-nos que o conforto do verão já vai longe.

É impossível não reparar no veículo que avança agora muito lentamente. Os outros automobilistas apressam-se a ultrapassar, impacientes, agressivos. Ninguém reduz a velocidade. A condutora parece procurar um buraco na malha de pinos que protege o passeio, para conseguir estacionar o carro.

Pelo menos é isso que imagino, à medida que, caminhando, me vou aproximando. O tal buraco aparece, pois há uma série de pinos derrubados, esmagados. A carrinha imobiliza-se na faixa de rodagem, os quatro piscas ligados. Alguém saí de um dos lugares traseiros, olhando intensamente para o prédio em frente. Há algo de muito perturbador no seu olhar, nos seus gestos. E algo de estranho nestas casas também, nas escadas, nos pequenos pátios. Há pedaços de betão um pouco por toda a parte. Sinto um calafrio e começo a compreender.

O homem que saiu primeiro do carro benze-se, e há outro que se aproxima, removendo solenemente o chapéu. Parte da frente do edifico está desfeita. A condutora junta-se a eles, olhos húmidos fixos naquela destruição. Parecem estrangeiros, talvez imigrantes do leste europeu.

Eu estou só de passagem e, com um nó na garganta, depressa deixo o triste cenário para trás. Conheço muitos outros como este, ao longo da estrada. Já presenciei os acidentes que os provocam. Tantos anos depois, com bom pavimento, 4 faixas, semáforos, radares e velocidade limitada a 70 km/h (ou menos, em vários troços), ainda se morre regularmente na Marginal. Porquê?

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O bom, o mau e o vilão

 

No apartamento onde passei uns dias no Algarve havia uma série de revistas estrangeiras, que me proporcionaram uns momentos de leitura descontraída. Um artigo sobre ciclismo utilitário que me chamou a atenção vinha publicado, imagine-se, na conhecida revista Top Gear. Como ex-trabalhador desta área, e admirador do estilo visual do programa de televisão (embora abomine a linha editorial) fiquei genuinamente curioso por saber o que diziam estes tipos sobre a emergente utilização de bicicletas, como meio de transporte, no Reino Unido. Como se veio a revelar, nada de bom.


Jornalista não gostou de usar licra. Quem o terá obrigado?


Para ser justo, no pequeno artigo reconhecia-se a habitual jocosidade que caracteriza o franchise Top Gear, mas não era mais crítico com o comportamento dos ciclistas que outros textos, nacionais e estrangeiros, que tenho encontrado (estou-me a lembrar por exemplo de um editorial do Vitor Sousa na Motociclismo). Passar sinais vermelhos, ignorar sinalização e regras de prioridade, alternar entre a faixa de rodagem e o passeio conforme a conveniência, estas costumam ser as criticas mais comuns. Para o autor britânico em causa, acrescia a ideia de ser injusto e incorrecto permitir o acesso à via pública a pessoas que não têm que se sujeitar a qualquer formação ou exames para o fazer (versus o que acontece com os condutores de veículos motorizados).


Bugattis a 400 km/h e... bicicletas??


Nada disto é novo, mas cada vez mais estará na ordem do dia, se continuar a aumentar o número de utilizadores de bicicleta nas nossas cidades e estradas. Por um lado a liberdade que a bicicleta proporciona facilita este tipo de comportamentos. Do outro lado da questão temos o problema das infraestruturas e do código da estrada. Tudo foi legislado, desenhado e construído com o intuito de acomodar, agilizar e beneficiar o transito automóvel. As vacas sagradas. O ciclista é muitas vezes posto numa posição onde, se não improvisar, e porventura desrespeitar alguma regra do código, estará a colocar-se em perigo ou a obrigar-se a fazer vários km inutilmente. Sentidos únicos, vias rápidas em meio urbano, estradas sem berma* e com trânsito intenso, cruzamentos perigosos, as questões são muitas e infelizmente pouco conhecidas e consideradas, quer pelo público em geral, quer pelos decisores políticos (o que é notório nas ciclovias que vão aparecendo).


Ciclistas na berma


A visão da bicicleta como um brinquedo, sem lugar na via pública, ainda está muito presente na sociedade. Mesmo entre a maior comunidade portuguesa de utilizadores regulares de bicicleta, o mundo florescente do BTT, isso é verdade. Não deixa de ser sintomático que, no principal fórum nacional desta especialidade, haja um tópico de 17 páginas onde se discute a eventual obrigação de respeitar os semáforos.
 
Não é fácil ser um ciclista urbano e um cidadão cumpridor ao mesmo tempo. Isso não invalida que se faça o possível por cumprir as normas, excepto onde elas se revelem claramente perigosas. Circular na faixa do meio, por a faixa mais à direita ser de BUS, numa daquelas avenidas lisboetas onde os carros circulam impunemente a velocidades de auto-estrada, parece-me suicídio, mesmo que seja a postura correcta do ponto de vista do código da estrada. O bom senso obriga, neste caso, à utilização da faixa BUS. Já contornar um cruzamento, com sinais vermelhos, pelo passeio, para poupar tempo, não me parece de todo desculpável. E devo ir pela ciclovia, mal desenhada, cheia de cruzamentos perigosos e de peões ou manter-me, ilegalmente, na estrada? Mesmo tirar uma mão do guiador para sinalizar uma manobra pode ser, em certas circunstancias, perigoso. Será melhor arriscar uma queda a alta velocidade, acossado pelos automóveis, e fazer o sinal, ou não sinalizar a manobra e fazer a curva em segurança? Os exemplos são muitos, e a única solução é ser o bom senso (e não o comodismo) a prevalecer nestas decisões.


Se cruzar montado, o código não obriga o pópó a dar prioridade


Do ponto de vista demográfico, os ciclistas são uma pequena minoria. É um dado a reter. As minorias são alvos fáceis de críticas. Meias verdades ou mesmo fantasias tornam-se muitas vezes factos inquestionáveis na mente de quem delas não faz parte. Aliás, o ódio ao ciclista anda à solta por aí, alimentado como sempre pela ignorância. Porque "estorvamos", "não pagamos impostos", "não temos seguro", "não usamos capacete", "não temos prioridade", tudo serve de razão a quem dela não precisa para odiar. A mobilidade sustentável é uma causa que passa ao lado de alguns ciclistas, mas pela minha parte, não pretendo dar mais motivos que os necessários para ser visto como um marginal pela sociedade, por mais desequilibrada que eu próprio por vezes a julgue.

*Sim, circular pela berma também não é legal, mas se tiver umas bicicletas desenhadas já é. Giro, não?

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

The age of stupider


Tive de ir a Lisboa tratar de assuntos que prefiro não recordar, mas que envolvem senhoras antipáticas atrás de balcões a dizerem coisas como "falta o triplicado do impresso 33-B" ou "Isso leva pelo menos 3 semanas, se não for mais". Fui de bicicleta, e essa foi a parte boa do dia. Mas mesmo assim, não posso deixar de fazer mais umas quantas observações. Nestas coisas da mobilidade, há muita gente que escolhe uma abordagem 100% positiva, tentando ver sempre o lado bom das situações: estamos no bom caminho, com o tempo tudo se resolve, etc. Eu também gostava de ver as coisas assim, mas por vezes é difícil. Consta que foi preciso incendiar uns carritos invasores para os Dinamarqueses manterem as suas ciclovias.

Ciclovia ou percurso de obstáculos?

Comecei em Belém, e como sempre, os turistas preferem o piso da ciclovia aos passeios. Na cabeça deles as coisas devem passar-se mais ou menos assim: "Toda a gente caminha descontraidamente, pelo asfalto pintado com uns desenhos esquisitos. O dia está bonito e estamos de férias, fomos para fora cá dentro, nada é mais belo que o nosso Portugal! Mas eis que, neste dia perfeito, aparece um ciclista malandro que passa a grande velocidade, mesmo ao lado das pessoas. Coloca as nossas crianças em risco! Que grande mal educado! As bicicletas são mesmo um perigo, devia ser proibido!" Carros com as portas abertas para a ciclovia, pessoas a passear o cão pela trela, grupos numerosos parados a olhar para mapas, gente sentada no chão, quadriciclos de aluguer (sim, a motor) a cortar caminho, vi de tudo e parece que vale mesmo tudo. 

Esta passadeira já teve uma área para bicicletas. Agora não tem

Não basta que a ciclovia seja um labirinto desenhado por um sádico, de piso improprio e mesmo perigoso até para caminhar, mal sinalizada e cheia de cruzamentos onde o ciclista não tem prioridade. Que sirva a troços para colocar contentores, acesso a estacionamentos, ou mesmo para estacionamento. Não chega que se tenha que desmontar e levar a bicicleta à mão quase metade do caminho, nas zonas partilhadas e pelas passadeiras. Não, além de tudo isso a ciclovia está permanentemente invadida de pessoas que não parecem compreender o seu propósito. Fui insultado por gente que, estando dentro da ciclovia, perfeitamente delimitada, se sentiram ameaçadas pela minha passagem, depois de terem ignorado os meus avisos. O que é que se faz quando boa parte da população parece sofrer de algum tipo de atraso mental?

 
Atravessar? Sim, à volta. Desmontado. São SÓ 4 semáforos

Quando se está usar a ciclovia para transporte, não para passeio, todos estes problemas saltam à vista. Perde-se muito tempo e arrisca-se um queda ou uma colisão. Esta deve ser a única ciclovia do mundo onde existem carris de eléctrico (longitudinais) dentro do percurso! Foi muito mais seguro subir a rua do Alecrim. E descer a calçada da Glória.

Os jardins proibidos?

As minhas andanças pela capital levaram-me também até ao misterioso jardim atrás da policia municipal, que mencionei anteriormente. Continuava deserto. No tempo que estive lá a descansar e aproveitar o espaço, contei dois humanos e quatro canídeos. Oh, senhores! É sempre a mesma coisa, gasta a câmara rios de dinheiro em coisas que as pessoas não precisam. Então este espaço não dava um belo parque de estacionamento? Ou uma auto-estrada de 8 faixas!

terça-feira, 17 de agosto de 2010

The age of stupid

 
Não, não venho para aqui fazer a apologia do filme activista com o mesmo nome, embora tenha ouvido boas coisas dele, ainda não o vi. Sucede que depois de dois dias a utilizar as ciclovias de Lisboa e arredores, e muitos mais na tentativa de resolver um problema burocrático tipicamente "tuga", este é o título que me vem à cabeça.


Como os touros, estes peões adoram o vermelho

Ontem fui dar uma volta ao Guincho. Levei a minha bicicleta nova, (ainda não tem nome) e fui com atenção ao percurso, tentando perceber as qualidades e defeitos da ciclovia ali instalada. Já lá tinha passado várias vezes, mas nunca perdi muito tempo com um olhar mais crítico. Agora rapidamente salta à vista a falta de sinalização nos inúmeros cruzamentos. Só naqueles em que existe um stop há alguma garantia de que os carros vão parar, mas mesmo assim convém desconfiar, a maioria dos automobilistas não conhece o código da estrada, e tem aquela ideia geral de que as bicicletas NÃO têm prioridade e portanto, toma lá disto... No resto dos cruzamentos e saídas de casas particulares, a menos que se considere que os pópós estão a sair de um estacionamento, o ciclista não tem prioridade e deve parar para deixar passar sua excelência, o enlatado. O que é estúpido.

Quem tem prioridade?

Mesmo sendo um percurso recreativo, uma ciclovia simplesmente não funciona se os utentes estiverem constantemente a ser obrigados a parar e a desmontar. Isso reduz a velocidade média drasticamente, já para não falar no perigo enorme que esses cruzamentos representam. Há registo de um elevado número de colisões neste percurso, eu próprio conheço alguns casos, mas não me parece que a câmara esteja muito preocupada com isso.

Via partilhada

Continuemos na ciclovia do Guincho e depressa descobrimos que afinal ela não é mais que um passeio pintado, onde se permite (e se obriga, a existência de uma ciclovia obriga os ciclistas a usa-la em detrimento da estrada paralela) circular bicicletas. Isto porque, em boa parte do caminho, este espaço limitado tem de ser partilhado com peões! Isso inclui naturalmente crianças, famílias inteiras, pessoas a passear o cão pela trela... Será que as cabeças pensantes responsáveis por este projecto não imaginaram os riscos desta mistura, não se lembraram que por aqui passariam agora até desportistas mais "sérios"? Estão a ver a que velocidade circula, mesmo que em ritmo descontraído, um ciclista de estrada, que está agora teoricamente obrigado a usar a ciclovia? Será boa ideia mistura-lo com um miúdo de 4 anos a aprender a andar de patins?

50cm para ti, 50 cm para mim

Certo domingo passei por ali e ignorei a ciclovia, seguindo pela estrada em direcção ao Guincho. Ia depressa (+ 40km/h) e a ciclovia estava cheia de gente, a pé. Fui intimado a sair da estrada por um automobilista militante, que gesticulava e não parava de apontar para o tapete vermelho à minha direita. Respondi-lhe com a educação que as circunstancias impunham. No fundo, parece ser para isto que serve a "ciclovia", para que os peões e os ciclistas não estorvem a circulação a alta velocidade das vacas sagradas. Estúpido.

Ao fim do dia já tinha acumulado um bom número de travagens forçadas e quase colisões com os peões, que mesmo quando existe um amplo passeio ao lado, parecem preferir o tapete vermelho, talvez como os touros. Mesmo que se grite, que se use a campainha, as pessoas não reagem, parecem estar a dormir. No entanto, depois de te obrigarem a parar, acordam rapidamente, prontas a esgrimir argumentos sobre os seus direitos. A situação repete-se uma e outra vez.

Não serei, de longe, a primeira pessoa a debruçar-me sobre estes assuntos, e há uma divisão enorme entre os ciclistas que apoiam as ciclovias e os que são contra. Embora sensível a ambos argumentos, eu sou teoricamente a favor das vias segregadas, mas não a qualquer preço. (continua)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O Tabu

Nada me move contra o automóvel. Pelo contrário, sou um admirador de quase todos os tipos de veículos, desde pequeno que me deixei fascinar pelas fantásticas máquinas que fomos capazes de inventar para nos deslocarmos, desde as locomotivas a vapor até ao super-carro eléctrico capaz de 400 km/h.


Obras da CRIL junto a um Ferro Velho


Infelizmente, nas décadas mais recentes, a nossa paixão pelo transporte motorizado tem trazido mais problemas que benefícios. Como com qualquer vicio, o prazer inicial perdeu-se e agora é só um mau hábito que não queremos admitir, mas um que ameaça o resto das nossas vidas. Nega-lo é como negar a Lua ou o nascer do Sol. Mesmo assim, é o que fazemos. Apesar das nossas caríssimas autos-estradas e automóveis sofisticados, os acidentes de viação matam mais pessoas por ano do que a guerra colonial alguma vez conseguiu. Basta ver os números. No entanto, na nossa cultura, estes factos são sistemáticamente ignorados.


Os meus vizinhos adoram estacionar no passeio
 
Os pais super-protectores de hoje em dia, que vivem permanentemente obcecados com a segurança e conforto das suas crianças, fazem questão de as levar todos os dias à escola sempre de... carro, pois claro. Para sua segurança, supostamente, ignorando que uma das maiores causas de mortalidade infantil e juvenil são justamente os acidentes de viação.


Carcavelos, perto da estação da CP


Esta é uma rua adjacente à estação de comboio de Carcavelos. Existe um parque de estacionamento público, do outro lado da linha, construído propositadamente para os utentes da CP,  mas é pago. Está sempre vazio. Como não existe fiscalização, muitos condutores preferem aqui deixar as suas viaturas, o dia todo. O passeio, o único digno de esse nome na rua, fica intransitável e os pões deslocam-se pela faixa de rodagem, onde os automóveis não abrandam nem dão espaço, porque "as pessoas é que estão na estrada". Situações como esta repetem-se por todo o país, dia após dia. Há uma impunidade total. Imaginem que em vez de carros em cima do passeio fossem tendas, montadas por particulares e ali deixadas. Seriam toleradas? Ainda lá estariam ao fim do dia, incólumes? E vocês perguntam, "porque havia alguém de montar uma tenda em cima de um passeio??" Eu penso o mesmo de um automóvel.

Lisboa, não há muito tempo


Durante anos, ninguém questionou que as nossas ruas e pracetas se transformassem em sobre-lotados parques de estacionamento. Ninguém  levantou a voz, quando os passeios desapareceram e os jardim encolheram, para acomodar mais carros e mais faixas de rodagem. Ninguém objectou que as avenidas se transformassem em vias rápidas, ninguém se queixou quando as crianças já não podiam ir a pé para a escola, porque os passeios não existiam, os pais moravam demasiado longe, e era "demasiado perigoso". Ninguém quis saber dos idosos que ficaram isolados em suas casas, incapazes de navegar a nova selva, de atravessar uma estrada nos míseros segundos que os semáforos lhes concediam. Nada disto se questionou, porque o automóvel era o progresso, e na mente de muitos, ainda é.

Felizmente, no meio da ignorância, começa a surgir a luz. A praça do comercio já foi um estacionamento público! Olhando para ela agora, temos que ter esperança. E denunciar o tabu.