terça-feira, 11 de maio de 2021

Projecto Bacalhau: Dia 19 - A Estrada para a Eternidade


O balcão do café era bastante antigo e transmitia ambiente ao resto do estabelecimento. Mal sinalizado, o humilde café da beira da estrada fora um achado importante, em mais uma manhã de fim Junho na Nacional 2. Estava a absorver esse ambiente, sentado numa cadeira barata, em frente a uma mesa onde repousavam um pão de carcaça com queijo e um galão que arrefecia no seu tradicional copo estriado. 

Um cliente local conversa, algum esforço de sedução à mistura, com a jovem empregada. Eu tinha feito os primeiros quilómetros da manhã em jejum, por falta de opções, e imaginava o quanto me penalizariam estes comportamentos. Em qualquer caso, por aqueles tempos sentia-me um veterano, um viajante intrépido, um bikepacker endurecido, que não temia nem o clima nem a distância, e que confortavelmente se instalava em qualquer espaço público, indiferente aos olhares à sua indumentária de licra e habituais camadas de pó e suor.         

A minha atenção recaiu então no pequeno televisor instalado a um canto, que transmitia um popular programa matinal. Num segmento sobre celebridades, no contexto de um ano de 2020 cheio de adversidade, discutia-se o falecimento recente de Pedro Lima. Isto era novo para mim. Tinha brevemente cruzado caminho com o conhecido actor de novelas na minha carreira de fotógrafo. Enquanto eu fora fotógrafo do grupo Motorpress, o Pedro assumira a posição de director da revista Mens Health. Era um cargo quase honorífico, mas que reflectia o estatuto de estrela de Pedro Lima. 

Em pessoa, qualquer um facilmente dava esse estatuto por merecido. O Pedro tinha uma presença que não decepcionava. Era um James Bond da vida real, tinha a beleza de um modelo e o carisma de um bom líder. Tal como com o personagem de Ian Fleming, ficava a ideia de que os homens queriam ser como ele, e as mulheres desejavam estar com ele. O seu charme rivalizava apenas com a sua humildade. Por isso mesmo, a notícia de que esta privilegiada figura pública, casado e pai de filhos, tinha acabado com a própria vida, parecia deixar os comentadores do mundo social perplexos. A minha reacção não era diferente. E aquela questão fez o resto da viagem comigo.


No calor do Alentejo


Há qualquer coisa no Alentejo, qualquer coisa que me agrada. Pode ser da comida, pode ser das gentes, ou pode ser simplesmente da fraca densidade de população e os amplos espaços abertos. A N2 por estas bandas não tem a diversão das curvas, nem o desafio das subidas, mas acreditem que o desafio existe. O calor é real e o abrigo escasso. Mesmo começando de manhã cedo, quando o meio do dia chega, não queres ser apanhado na estrada. Nestes momentos, umas árvores ou uma dos magníficos abrigos de paragem de autocarro ajudam a proteger do Sol, enquanto bebemos uns líquidos e planeamos como sobreviver ao resto do dia. 


Montargil


Da N2 é possível ver alguns empreendimentos turísticos claramente destinados a indivíduos de elevado poder adquisitivo. Abundam as carrinhas de transferes para VIP's, cor de prata e vidros fumados, e também carros de elevada cilindrada e matrícula estrangeira. Aparentemente o atractivo, além da tranquilidade do Alentejo, é a albufeira da barragem de Montargil, que a N2 contorna.  



A albufeira


Parei para observar a albufeira e fazer umas fotos. Meto conversa com um casal de meia idade, que ali chegou de autocaravana. Depois de falar da minha viagem, e só mencionei que estava a fazer a N2, eles dizem-me que também gostavam de fazer a N2, "um dia". Para já vão fazendo uns quilómetros da estrada, quando podem, ao fim de semana, mas não sabem quando conseguirão realizar o sonho de fazer o percurso completo.

Mais uma vez, sinto-me um privilegiado por poder fazer esta viagem, ao meu ritmo e segundo as minhas regras. Às vezes ajuda que outros nos digam, nos recordem, o boa que é a nossa vida. 



Puro Alentejo



De volta à estrada, arranjar água é quase uma ocupação a tempo inteiro. Se insistirmos em continuar a rolar na hora do calor, vai ser preciso repor líquidos periodicamente e isso obriga a constantes paragens. Nem sempre é preciso que seja num café, já que há alguns parques de merendas com fontes de água (e sombra) e fontes públicas fantásticas ao longo da estrada. 


Mesmo a calhar



R2?


A paragem mais memorável do dia foi talvez em Ciborro, a simpática aldeia alentejana surge de uma curva para abrigar-nos dos ferozes raios do Sol, e parece ter abraçado a sua entidade de porto de abrigo da N2. O Ciborro é o Km 500 da histórica via. Tenho que admitir que aqui fiquei mesmo com pena de saber que estava bem mais próximo do fim do que do início da viagem por esta estrada. Isto é o que a N2 faz.




500!


Foto obrigatória


Uns amendoins e estamos de volta à estrada. O piso nem sempre é recente, nem sempre é decente, e bermas não existem por aqui. Mas sou atraído pela austeridade, pela solidão deste troço da estrada. Sem companhia durante horas, o Dentuça e eu resolvemos um a um os problemas da humanidade. O conflicto israelo-palestiniano? Fácil. As alterações climáticas? No papo. Quem matou o JFK? Estávamos quase a desembrulhar esse mistério embrulhado num enigma quando rolamos pela entrada do  Torrão, talvez a terra que mais entusiasticamente abraçou a sua identidade "N2". Por todo o lado os estabelecimentos comerciais têm nomes alusivos ao percurso e em cada esquina encontramos motas e motards, em grandes grupos.   



N2-R2



Fico alojado no Torrão, numa Guest House simpática e deserta, com um pátio interior. Hoje não parei para almoço, mais uma vez a tentar acumular quilómetros antes do calor do dia dar cabo de mim. Tentei compensar com um jantar reforçado, uma piza gigante e uma caixa de morangos. Mais reestabelecido, tenho que analisar a situação. Graças ao esforço dos últimos dias, esta noite durmo a apenas 170Km de Faro. Com um esforço final, posso chegar um dia inteiro antes do estipulado pelo desafio do Dentuça, num total de 6 dias para completar a N2. 

Amanhã a previsão aponta para um dia ainda mais quente no Sul do país, e a verdade é que eu não tenho pressa. Mas era fixe...



O cenário para jantar


Dia 19. Ponte de Sor-Torrão. 131km. (Estrada).

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Projecto Bacalhau: Dia 18 - No Caldeirão da Sertã

Um tapete rolante. Mas prefiro o Norte.


E depois de 1187Km, um furo. Ou será que não? Na roda traseira a pressão vai-se perdendo misteriosamente. O líquido mágico do Tubeless não está a fazer a sua função e tenho que parar com frequência nas bermas da estrada escaldante na zona da Sertã. Está muito calor hoje, será que isso interfere com as propriedades do líquido?  Tenho câmaras de ar, mas usar uma significa abdicar do Tubeless nessa roda para o resto da viagem, e não sei se estou pronto para isso.

Sobra dar à bomba. Ao Sol. Já desci bastante para Sul pela N2 e as temperaturas são muito elevadas a partir do meio da manhã. A N2 também é agora mais rolante, por vezes com mais faixas. A estrada é agora mais despida, mais desabrigada. E os carros circulam bem mais depressa. Felizmente não há muito trânsito.


Despedida de Pedrogão


O meu quarto dia da N2 foi muito repetitivo: dar à bomba, para manter a roda traseira minimamente cheia de ar. E comprar água cada hora ou hora e meia, que o calor de outra forma não se aguenta. Fui rolando e rolando para Sul, a determinada altura estava no caminho errado e tive de voltar para trás, mais uma vez por causa do meu GPS do demo, que ainda por cima só avisa que eu estou "fora do track", mas não oferece explicações nem alternativas.



O verde vai desaparecendo aos poucos 


Esta zona do país ainda apresenta as cicatrizes do fatídico ano de 2017 e não é complicado, olhando para algumas paisagens, imaginar os horrores daquele verão terrível. De resto, é impressionante ver a paisagem a mudar, o território vaio ficando progressivamente mais despovoado, mais plano, mais seco e menos arborizado à medida que vamos avançando para Sul. 



Heranças de 2017



Marcos novos!



Mais marcos novos!



Sombra agradece-se.


Não parei para almoço. Simplesmente continuei a rolar, alimentado a coca-colas e frutos secos. Não sei porquê, mas simplesmente continuei a rolar. E a rolar. E a rolar. Numa das paragens marquei dormida numa Guest House em Ponte de Sor, onde cheguei relativamente cedo. Aproveitei para tratar, além das compras e lavagens habituais, da manutenção da bicicleta. A casa era toda só para mim, e tinha um espaço tipo pátio onde podia tratar da bicicleta. 

Depois de uma limpeza completa com toalhetes húmidos, coloquei cera na corrente. Era a primeira vez desde a partida que me preocupava com a lubrificação. Porque não tinha tido razões para me preocupar! E continuava a não ter, mas o susto com o "furo" fez-me dar mais atenção à bicicleta. Falando deste furo, voltei a dar uma olhada na roda traseira, agora com calma e tendo limpo todo o pneu. Mesmo assim não consegui identificar o furo e tudo o que fiz foi colocar mais ar e rodar a roda, para distribuir o líquido.



Alguma atenção depois de 1200Km 



Cera para cima!


Depois do jantar, cozinhado pelas minhas mãozinhas na cozinha completa disponibilizada (o Dentuça não se ajeita), ponderei instalar-me no prometedor sofá da sala, onde um enorme televisor prometia entretenimento para o serão. Mas estava demasiado cansado para TV ou filmes. E como em noites anteriores, pouco depois de escurecer já estava a dormir.

Dia 18. Pedrógão Grande-Ponte de Sor. 117Km. (Estrada).

domingo, 9 de maio de 2021

Projecto Bacalhau: Dia 17 - Camiões, Cães e uma Piscina de Borla

N2?


- Mas porque é que não ficámos no sofá a ver a Netflix?! - Questiona o Dentuça debaixo do implacável Sol da manhã, enquanto o colossal camião ruge, impaciente, centímetros atrás da minha roda traseira. Atrás deste TIR segue outro, e mais uma fila interminável de outros veículos ligeiros e pesados, rodando ao meu ritmo, até que eu consiga sair da famigerada ponte do IP3. Já tinha dito que odeio pontes?


N2??


A manhã do meu terceiro dia na N2 até tinha começado bem, um pouco como a noite tinha acabado: à conversa com o proprietário do turismo rural onde me tinha instalado, no Vimieiro. Descobri que ele conhece também o Isaltinistão e em tempos até lá viveu, não muito longe de mim. Curioso. Aproveito também que tenho direito ao pequeno almoço para sair para a estrada já devidamente munido de umas calorias para alguns quilómetros. O anfitrião faz questão de me tirar uma foto com a bicicleta, para o seu site, antes de eu abalar de volta à N2.

E sabe bem estar de volta à estrada. Mas a manhã traria consigo algumas surpresas. Uma coisa que é preciso compreender é que a N2, com 738Km de extensão, na verdade não existe... Ou melhor, ao longo do longo percurso, a estrada por vezes desaparece, para se transformar em IP ou IC, para ser uma avenida urbana, ou um arruamento. E por vezes fica difícil seguir o percurso. Em anos recentes, uma vez consolidada a fama desta Route 66 portuguesa, foram colocadas placas em algumas zonas, com vista a ajudar os viajantes a navegar alguma destas zonas mais complicadas.           


N2???



E foi assim que dei por mim a sair e entrar da "N2" naquela manhã, para evitar as zonas em que ela se transforma em IP. Em alguns casos existe sinalização nova que indica que a N2 é agora numa via paralela, claramente de construção recente. Outras vezes somos obrigados a passar por debaixo da estrada principal e andar no meio do nada. Fica difícil fazer a navegação nesta zona, mas o pior é a ponte sobre o rio (Dão, Mondego?) onde a N2 nos atira de volta para o IP3, que nesta zona perde temporariamente esse estatuto, pelo que bicicletas podem passar (E é o único local onde o podem fazer).  



N2????


Sucede que nessa altura o IP3 estava em obras, e os meticulosos senhores da empreitada tinham reservado para si todo o piso da estrada e das bermas, com a excepção de uma faixa, estreita, delimitada por enormes blocos de cimento de ambos os lados. Ultrapassagens não eram possíveis, mesmo a uma bicicleta. E foi assim que dei por mim a segurar o transito, que até há umas centenas de metros rodava como em autoestrada e agora tinha de esperar pelo ciclista. Para que não restassem dúvidas, eu rolava mesmo no meio da faixa, não fosse o camião sentir-se tentado a fazer a ultrapassagem, que seria para mim morte certa. 


?


Saindo do IP3 na primeira oportunidade, para alívio de dúzias de enlatados,  ainda tive que saltar uns separadores para regressar à N2, mas daqui para a frente as coisas melhoraram muito. As paisagens continuavam incríveis. Foi nesta altura que encontrei mais ciclistas. Primeiro estive à conversa com um local, que se interessou pela minha viagem e me informou que havia um grupo mais à frente, também a fazer a N2, com carro de apoio. Alcancei este grupo de uns 5 ciclistas e a sua autocaravana de apoio numa subida ingreme, e para minha surpresa, ultrapassei todos eles. Seguiam sem pesos extra e tinham por objectivo fazer a N2 em menos dias que eu, pelo que o seu ritmo me surpreendeu. Confesso que a sensação foi incrível, com carga e sem treino, na minha bicicleta do supermercado, como alguns lhe chamam, eu passei por aqueles companheiros como se estivessem parados, e não mais os voltei a ver.

 

Come-se bem em Góis...


O almoço foi um petisco jeitoso em Góis, numa bomba de gasolina-restaurante-padaria-posto turístico. Fiz a minha pesquisa do costume e identifiquei um parque de campismo em Pedrogão Grande. Sempre me falaram bem da terra e eu há muito que queria lá ir e hoje teria a oportunidade! Em princípio faria sentido também lá ficar em termos de quilómetros diários percorridos.
 

Vistas da estrada



A Famosa


O parque de campismo de Pedrogão Grande fica junto à albufeira, e para quem vem da N2, no final de uma descida considerável. Pelo caminho ia pensando que o parque de campismo tinha que estar aberto, porque eu não ia conseguir voltar a subir aquilo tudo para regressar à N2 sem um bom descanso primeiro. As primeiras impressões não auguravam nada de bom, a recepção não tinha ninguém e o parque tinha um portão, que estava fechado. Mas depois apareceu um senhor e à conversa percebi que se tratava de um funcionário da Câmara local, a quem o parque pertencia. Fui informado que o parque aguardava por nova gestão privada, e até lá não estava nem aberto nem fechado, já que a Câmara autorizava os residentes de longa data a permanecer, mas não tinha forma de receber novos utentes. 

Simpaticamente, fui convidado a permanecer por uma noite, sem pagar nada, desde que me entendesse com os moradores locais, já que o portão seria de novo fechado. O parque tinha espaços com um matagal impressionante, e claramente precisava de manutenção em algumas zonas, mas os WC's estavam impecavelmente limpos e, melhor que isso, havia uma piscina com água em bom estado! Rejubilai!



SIM! Só para mim!



Parece-me um bom lugar para jantar


E quanto ao jantar? Como disse, eu dificilmente conseguiria deslocar-me por uma distância significativa, mesmo para comer. Mas fui uma vez mais lambido pela língua viscosa da sorte, pois junto à albufeira, uns metros mais abaixo do parque, estava uma roulotte de petiscos, onde comi um hamburger delicioso e brindei ao pôr do Sol. 
   


Home, sweet home!


Dia 17. Vimieiro-Pedrogrão Grande. 101km. (Estrada).

sábado, 8 de maio de 2021

Projecto Bacalhau: Dia 16 - Até à Casa do Salazar

Viseu


Amanhece em Lamego. É o segundo dia na N2, que fica mesmo ali no fim da rampa de acesso do Parque de Campismo. Despeço-me do velho pastor alemão gigante, um amistoso local, que veio mais uma vez ver se eu precisava de alguma coisa. O que eu precisava era de um bom pequeno almoço, mas hoje não há disso por aqui. Mais vale ir andando para esta que será mais uma etapa de 100Km, como acordado. 


Castro Daire

A estrada é agradável até Castro Daire. Mas depois desta bela localidade, a N2 está cortada. Sou encaminhado para uma volta por estradas secundárias, onde a determinada altura até o asfalto desaparece. Por mim tudo bem, para isso é que tenho uma bicicleta Gravel. Mas isto corta a velocidade média e hoje não sei mesmo onde irei acabar. 


Às voltas pelos montes, a tentar regressar à N2

Depois de alguns atalhos, o desvio leva-me de novo para a N2. Pela hora do almoço estou em Viseu e mais uma vez estranho o burburinho da urbe, já não lido bem com muita gente, nem com muito trânsito. Eu estou bem é nos montes e vales, em zonas recônditas onde por vezes tenho a N2 toda só para mim.

Convém talvez esclarecer, para quem não conhece, o perfil da N2. Esta estrada nacional, como tantas outras, não tem sempre as mesmas características, devido ao progresso e ao crescimento urbano e do tráfico. Mas na maioria dos quilómetros, a N2 é a típica estrada de duas faixas, uma para cada sentido de transito, com uma berma pequena ou mesmo inexistente. No Norte do país, a N2 sobe e desce bastante, mas sem exageros. Há também muitas curvas, que fazem as delicias dos motards e ciclistas, e obrigam os outros utilizadores a estarem sempre atentos ao volante, o que juntamente com o trânsito reduzido, torna o percurso, a meu ver, bastante seguro.

    

Conhecem?

O Almoço foi McPorcarias numa McEsplanada. Estava em caminho e eu tinha preguiça de ir à procura de algo mais substantivo. Nesta fase já desci pelo país o suficiente para o calor ter regressado e preciso de me abrigar um pouco do Sol do meio dia. Mas também não me posso acomodar, ainda falta bastante para os 100Km do dia.


Oi?

Mais a Sul encontro a Ecopista do Dão, e como ela é paralela à N2, a determinado ponto eu decido ir explorar. O caminho é super agradável, com árvores, muita sombra e tranquilidade. E ainda são uns largos quilómetros. Mas a ecopista comete o erro de tantas outras ciclo-coisas, termina no meio do nada, sem indicações de nenhum tipo. Largado num arvoredo, sigo o Google Maps até encontrar a estação ferroviária de... wait for it... Santa Comba Dão!  

Mas estou do lado errado da via e sou perseguido por mais um cão dos Baskervilles. O enorme animal parece ser o cão de guarda de umas obras e claramente não está ali para fazer amigos. Tenho que pular literalmente a cerca e depois atravessar várias linhas férreas para chegar à bonita estação, abandonada ao calor do dia, que já vai longo. 


Ecopista!


Respirar fundo. Isso.

Não muito longe da estação está uma casa de um cavalheiro bem conhecido, um filho da terra. Parece-me estar a reconhecer a modesta vivenda, de filmes e fotografias antigas e parei para confirmar. Uma placa esclarece que, sim senhor, ali nasceu Salazar.


Aqui nasceu Salazar


O meu alojamento para o dia é um fantástico turismo rural, uma quinta que me obriga a afastar-me da estrada. Mas não há problema, amanhã retornarei ao mesmo exacto ponto. À chegada encontro apenas inúmeros cães e gatos e vários outros animais. O portão está aberto, mas na casa não se encontra ninguém. O meu telemóvel tem várias chamadas não atendidas de um número que eu não conheço. A reserva, feita pela net, não indica hora de chegada, e eu parece que cheguei em hora inconveniente para o proprietário. A coisa resolve-se por telefone, e recorrendo ao uso de uma chave escondida!     





A propriedade é muito gira, e como disse, está cheia de animais que andam soltos. Já na presença do proprietário, não posso deixar de reparar que o preço que paguei não condiz com a qualidade do serviço de porcelana empregue para me servir o jantar, pelo que tudo indica que esta quinta antecede a era do turismo massificado em Portugal. Em tempos deve ter atraído clientela bem mais abonada que este vosso escriba, que janta no salão com a indumentária de sempre: chinelos de dedo, calções e camisola sintética de desporto. Tudo cinza, claro, que eu não brinco em termos de opções cromáticas. 



Bicicleta no quarto III

Em conversa com o proprietário, fico a conhecer um bocadinho mais da zona. Ele parece estar envolvido na dinamização da Ecopista do Dão. Aliás, toda a temática da natureza visa atrair turistas sensíveis a estas questões para a zona, sobretudo do Norte da Europa. Foi uma rara conversa nestes dias, uma agradável troca de ideias com um tipo inteligente, mas não podia durar. Because COVID, e também porque eu tenho mesmo que ir dormir. Cumpri mais uma vez com a distancia mínima e amanhã isso é para repetir. 

Dia 16. Lamego-Vimieiro. 109km. (Estrada).

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Projecto Bacalhau: Dia 15 - Com um Mamute e um Cacho de Bananas na N2

Cá vamos nós!


O modesto hotel de Chaves não desilude na simpatia e no pequeno almoço. O ambiente é de enorme expectativa. Depois de duas semanas na estrada, hoje começa a N2! Mas no briefing que faço de manhã cedo com o Dentuça, há uma questão que surge. Acontece que conhecemos quem tenha feito esta rota antes, de bicicleta, mas com carro de apoio e alojamento tratado. E quem fez, fez muitos mais quilómetros por dia do que aquilo que eu sou capaz. Por causa das comparações, o Dentuça acha que temos andado a pastar, a vagabundear pelo país até agora, e se não estipularmos uma meta, um objectivo, eu vou "arrastar-me" também pela N2 abaixo, porque aparentemente sou "um granda menino". 

Assim, para não ser demasiado fácil, para ter mais um aliciante, mais um incentivo, fica estipulado que tenho que fazer a N2 completa em sete dias no máximo, o que se traduz numa média diária sempre superior a 100km. A altimetria no Norte mete respeito, mas melhora no Sul do país. O facto de nesta altura já ter mais quilómetros nas pernas que os 738 da própria N2 dá-me alguma confiança. No entusiasmo da manhã, eu acho tudo boa ideia e comprometo-me a cumprir os objectivos traçados pelo paquiderme estofado. 


Na ponte romana


Chega a hora da partida. Atravesso Chaves com um cacho de bananas pendurado na bolsa do selim, e a sensação de estar a dar início a uma missão, alguma coisa importante. Localizo o Km 0 sem dificuldades. Fica no meio de uma banal rotunda concorrida. Imediatamente alguém reconhece os meus propósitos e se oferece para tirar a minha fotografia com a bicicleta, em frente ao marco quilométrico que indica simplesmente 0Km. Boas energias.  


O Km Zero

E a coisa começa. Rolando pela cidade, já na N2, recebo várias buzinadelas de incentivo. As pessoas acenam, sou uma pequena vedeta temporária. Os habitantes estão acostumados ao colorido de ciclistas e motards a passar por aqui, mas não devem ter visto muitos recentemente, devido ao COVID. A sensação é incrível, ontem era só um ciclista esquisito anónimo, cheio de coisas penduradas na bicicleta. Hoje sou como um peregrino de Santiago, toda a gente parece perceber o que estou a fazer. E parecem gostar.  


Vidago

A estrada em si tem ambiente. Nos últimos anos parece ter havido um esforço por divulgar o traçado da N2 como forma de fomentar o turismo nos concelhos abrangidos e os indícios estão por toda a parte. Desde os cafés e restaurantes que mudaram de nome para algo referente à N2, até uma app dedicada para o telemóvel e um passaporte, ao estilo da credencial do peregrino de Santiago. Mas não se enganem, a N2 não é feita de marketing, o traçado é de facto simplesmente magnífico, e depressa a sua fama se justifica.


Decididamente não estamos no Isaltinistão


Mais Chaimites em Vila Real


A manhã corre a bom ritmo, estou a levar a questão dos 100Km/dia a sério. O almoço é numa esplanada em Vila Real, em frente ao novo hospital e em conversa com alguns nativos. Foi uma excelente refeição, mas tenho de voltar para a estrada. Uma olhada no telemóvel confirma a existência de um parque de campismo em Lamego. Essa é a distância certa para os meus objectivos e Lamego passa a ser o nosso destino para o dia. 


A4, Viaduto do Corgo


A saída de Vila Real é feita com alguma relutância, as pernas estão pesadas. Mas depressa dou por mim numa sequência delirante de curvas em cotovelo, uma descida daquelas para guardar na memória. Dou por mim a pedalar a velocidades absurdas, a ultrapassar carros, e sim, a correr riscos. Mas quando chego lá abaixo e tenho que meter a pedaleira pequena para começar uma subida interminável, sou recordado do que ando aqui a fazer.
 
Naquele momento não há preocupações com o COVID, ou questões familiares por resolver, não há problemas profissionais, não há aspirações financeiras, não dúvidas e ansiedades avulsas. Sou só eu e o Dentuça, numa bicicleta, a tentar chegar a algum lado. Enquanto houver estrada, e ar nos pneus e força nas pernas, o mundo é um sítio muito simples de compreender.


Não está mal



Razoável


Aceitavelzito


A chegada a Lamego é uma sequencia de subidas que parecem não ter fim. Mas já me sinto um veterano da estrada e tenho aquela confiança baseada na experiencia: se eu simplesmente continuar a pedalar, mesmo que devagar,  eventualmente vou chegar ao destino e todo aquele esforço será mais tarde recompensado. E recompensado sou, depois de mais de 1700 metros de acumulado, com as vistas familiares de Lamego. O parque de campismo fica na própria N2, mas do outro lado da cidade.


Lamego!

Há um enlatado que quebra o zen, quando quase me atira ao chão numa ultrapassagem absurda, forçada dentro de uma faixa estreita, no centro. Cidades! Ao ver que o Fittipaldi ficou inevitavelmente imobilizado numa fila 40 metros mais à frente, o Dentuça sugere que eu lhe alargue o esfíncter com o Specialized 44, mas eu deixo o anormal para trás e sigo para o parque de campismo. As surpresas não acabam, a entrada do parque fica no final de uma subida muito ingreme em empedrado e tenho mesmo que desmontar. Os vizinhos de frente são as caves Raposeira, pois então. 

 
O Dentuça já fazia planos para o serão

O parque de campismo é absolutamente deslumbrante. Assente numa encosta, onde quer que monte a tenda tenho vistas espetaculares. A super prestável senhora do parque empresta-me uma chave para que eu possa sair pelas traseiras, cortar caminho para o centro, e evitar a rampa inclinada da entrada principal. Uso o atalho para ir jantar, num tasco daqueles mesmo tasco! De barriga e alma cheia e depois de umas fotografias, regresso ao parque no frio do crepúsculo, já a pensar no meu saco cama quente e num descanso merecido. 


Final de dia em Lamego













Dia 15. Chaves-Lamego. 104Km. (Estrada).