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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

2013 foi do camandro, 2014 vai ser do catano!

Eis-nos de novo naquela fatídica altura do ano: o momento da revisão no telejornal dos principais acontecimentos que foram notícia, em Portugal e no mundo, nos últimos doze meses. Ora sucede que 2013 foi um ano particularmente interessante para os apoiantes da causa do pedal. Mas se foi possível que a bicicleta fosse noticia ao longo dos últimos meses, não será certamente o tipo de coisa que as TV's se dediquem a recordar nesta época. Não se pode competir com o selfie no funeral do Mandela, ou com o regresso de Mourinho ao Chelsea.

Mas para isso estou cá eu. Sem mais demoras, das montanhas do Isaltinistão para o mundo, eis os mais importantes ciclo-aconteceimentos de 2013. Um ano que começou assim:

Um milhar em todo o país?

Logo no início do ano, as forças vivas do ciclismo e algumas celebridades uniram esforços para passar uma simples mensagem, basicamente recordar a todos que os ciclistas existem, também são utentes da via pública e que merecem ser respeitados. A exposição mediática conseguida na altura foi significativa.



Num sábado tempestuoso, em que foram emitidos alertas meteorológicos que recomendavam justamente às pessoas que não saíssem de casa, as televisões tinham outras coisas que noticiar. Mesmo assim não faltaram esforços para difundir um evento de nível nacional, que acabou por ter pouca adesão mas bastante divulgação. O Markl explica do que se tratava:



A aparente falta de adesão na altura chegou a ser criticada. Estava no entanto dado o mote para um ano extremamente mediático para a bicicleta no nosso país. Enquanto dezenas de milhares de portugueses fugiam à crise galopante e abandonavam este Portugal esquecido pela Grande Marmota que está no Céu, alguns para se instalarem em autênticos paraísos da bicicleta, por cá a luta continuava. Ainda que muitas vezes sobre o signo da excentricidade, a bicicleta ocupava cada vez mais espaço nos jornais, revistas e televisões.

Ainda no início do ano, entrevista com o director da FPCUB na RTP 2:



Hugo Sabido e Rui Sousa na RTP 2:



Além da mensagem mais institucional de organizações e ciclistas famosos, as TV's mostraram interesse, a uma escala nunca vista, por aqueles "maluquinhos" que trocaram o carro pela bicicleta na sua vida diária.

No Porto:



Ou em Lisboa:



São só alguns exemplos, porque em 2013 a bicicleta esteve definitivamente na moda, aparecendo cada vez mais em público não só em noticias como em campanhas de marketing e publicidade, ou mesmo como objecto decorativo. Em paralelo com tudo isto, era possível visualizar, nas ruas de Lisboa, um aumento significativo dos utilizadores de bicicleta. Não há estatísticas nem cálculos decentes que permitam estimar o número de ciclistas urbanos entre nós, mas tudo parece indicar, pelo menos a olhómetro, que têm vindo a aumentar substancialmente.

O culminar aparente desta dinâmica de crescimento real e mediático no uso e defesa da bicicleta como meio de transporte foi a aprovação, a meio do ano, de alterações ao código da estrada que contemplam algumas novidades interessantes para os ciclistas. Como nunca é demais recordar, as principais alterações são:

  • Obrigatoriedade dos veículos motorizados deixarem um espaço lateral de 1,5m na ultrapassagem a velocípedes, abrandando também a velocidade.
  • Equiparação dos velocípedes, para fins de definição de prioridade, a qualquer outro veículo nos cruzamentos não sinalizados.
  • Quando autorizado pelos municípios, os velocípedes poderão circular em faixas BUS.
  • Permissão de circulação nos passeios para crianças até aos 10 anos
  • Obrigatoriedade de cedência de passagem aos velocípedes quando atravessam as passagens especiais assinaladas para estes.
  • Fim da obrigatoriedade de circular o mais à direita possível da via.
  • Fim da obrigatoriedade de circular na ciclovia.
  • Fim da proibição de circular a par.

O decreto de lei que aprova esta coisa toda entra em vigor daqui a menos de 24 horas, a 1 de Janeiro de 2014. Há toda uma série de razões, históricas e sociais, para questionar a possível eficácia destas alterações. Mas deixemos isso para depois. Não menosprezemos o facto de que se tratou mesmo de uma grande vitória. O resultado do esforço e contributo de inúmeras pessoas e uma marco incontornável na caminhada para o que eu chamaria de normalidade no uso da bicicleta como meio de transporte. Ponto. 

A novidade de 2012 morreu em 2013

Em Lisboa, aparentemente por causa das reclamações de ciclistas e de automobilistas, a Câmara de Lisboa recuou nas polémicas alterações à circulação na Av. da Liberdade, e os ciclistas voltaram a poder usar as laterais da avenida. Infelizmente isso implica circular aos ziguezagues, e fazer mais quilómetros e paragens que o necessário, mas a velha CML prosseguiu em 2013 com a sua táctica habitual de dar um passo para a frente e dois passos para trás, no que aos modos suaves diz respeito.

Imagem: Público

Com a reeleição de António Costa, as coisas não devem mudar, provavelmente podemos continuar a contar com ciclovias decorativas e a tradicional falta de coragem para eliminar faixas de rodagem, reduzir os espaço de estacionamento público em excesso, acabar com o estacionamento selvagem, baixar os limites de velocidade, fiscalizar os muitos abusos rodoviários, etc. Nada tenho contra o António Costa, se calhar até era o candidato a Lisboa mais pró-modos-mais-ou-menos-suaves, mas isso diz alguma coisa do nosso complicado panorama político.

Também em 2013, onde há ciclovias há polémica

Mesmo assim, tivemos direito a mais ciclovias lisboetas em 2013. E mais estão, aparentemente, na forja. Nesse capítulo 2013 foi uma ano de mais do mesmo: mais obra e mais polémica também. As coisas vão andando, só não se sabe se é para a frente.

Rui Costa emocionado

Quem sabe para onde vai é outro Costa, e outro acontecimento incontornável de 2013: a vitória nos campeonatos do mundo de estrada de um rapaz promessa do ciclismo português, que tive o prazer de conhecer e fotografar certo dia na Povoa do Varzim. A magnitude da coisa escapou um pouco ao país devoto do futebol, mas mesmo assim o triunfo de Rui Costa em Florença dificilmente podia ser ignorado. Foi um ano muito especial para o português, que sumou ainda várias outras vitórias "menores", como duas etapas da Volta à França, e acabou premiado atleta do ano, à frente do colosso Cristiano Osvaldo. Coisa pouca.

E muito mais aconteceu em 2013. A velha raposa matreira Lance-Macho-Alfa-Armstrong foi finalmente obrigado a confessar os seus pecados, coisa que fez sem perder a sua lendária arrogância e sobranceria. A UCI parece continuar cheia da podres, mas até ao momento conseguiram sobreviver ao escândalo e tratam de convencer o público que as mesmas pessoas que estiveram na cama com o Armstrong (espero que não literalmente) gerem agora um desporto limpinho. 

"Tipo, menti e coiso. Mas vamos falar do MEU futuro"

Em 2013, apesar da crise, continuaram os eventos de bicicleta (menos o Bike Tour), as maratonas BTT, passeios Chic, festivais de cinema, etc. Também é cada vez mais fácil comprar uma bicicleta utilitária, não só há mais lojas vocacionadas também para o ciclista urbano, como as já existentes parecem ter acordado para este novo mercado de utilizadores (em vez de gozarem com eles).

"EP diz NÃO!"

Há outras lutas que foram adiadas, como a travessia ciclo-pedonal da Ponte 25 de Abril, uma possibilidade rejeitada liminarmente pela Estradas de Portugal. Ou a implementação da eternamente adiada rede de Bicicletas Partilhadas de Lisboa. Diz que algo está para breve.

E muito mais aconteceu em 2013, pelo que muito mais haveria a dizer. Mas não temos tempo. Deixo-vos com um último acontecimento feliz de 2013, mesmo que a maioria dos eleitores de Oeiras aparentemente não concordem. Um feliz e prospero 2014 para todos, com muita pedalada!

"O Vistas avisou-me para não deixar cair o sabonete"

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A gloriosa hora do almoço, a Gloriosa Bicicleta e o Velho Lau

Saiam da Frente! Hoje é cozido!!
 
Então, essas compras de Natal? Tá tudo? Hem? Não querem falar nisso? Vai quê?? Compreendo. Mas cuidado com deixar demasiadas coisas para a última hora, já sabem como é o Zé-do-Enlatado Tuga: vai tratar de compensar o atraso assim que se sentar ao volante. Nada como partilhar a estrada com uma horda de automobilistas ainda mais enraivecidos e tresloucados que o habitual, na senda do último par de peúgas para a avó e da caixa XXL de Ferrero Rocher para boazuda do economato. (Pode ser que pinte um clima...) Ah, o Natal, o Natal. Já sinto o cheiro a benzina no ar!

"Na hora do almoço, tem cuidado, moço"

Bom, e falando em enlatados enraivecidos, já reparam como a hora do almoço é capaz de ser ainda pior que a hora de ponta da manhã e da tarde? Estava aqui a tentar pensar num trocadilho, tipo "esfomeados ao volante, perigo constante" ou "hora do almoço, acelera que dá gozo", ou ainda "Saí lá da frente, tenho que ir dar ao dente". Enfim, a questão é a mesma de sempre, o automobilista médio sobrestima a capacidade que tem de se deslocar rapidamente na sua viatura movida a nhanha de dinossauro, esquecendo sempre de contar com demoras com o trânsito, os semáforos, passadeiras, cruzamentos, etc, e resolve sair da empresa e ir almoçar a algum sítio fora das redondezas. Afinal uma hora dá para muita coisa! Para ter tempo de comer o bitoque no restaurante favorito ou poupar uns cobres almoçando em casa, e ainda ir ao banco ou à farmácia, anda para trás e para a frente numa correria louca que o deixa cego a outros utentes da via, principalmente os mais vulneráveis, como peões e ciclistas. Quantos destes histéricos sprints gastronómicos não terão já acabado com a vida de um ciclista? Não faço ideia, mas para mim a hora do almoço dos dias de semana é como o período nocturno: circulo de bicicleta com cuidado extra.

Foto: "Portugal 50 Anos de Ciclismo"

Mas por muito cuidado que se tenha, o perigo existe. Que o diga Venceslau Fernandes, que este fim de semana levou com um enlatado cheio de pressa para ir às compras (ao Pingo Doce), e foi parar ao hospital com várias fracturas sérias. Com 68 anos estas coisas tornam-se ainda mais complicadas, mas o lendário vencedor da Volta a Portugal de 1984, quando já ia nos 39 anos (e cuja carreira acabaria apenas aos 46 anos de idade), tem fama de ser rijo que nem uma barra de ferro. Espero que faça jus a essa reputação, e recupere depressa. Recordo com algum alarme que a própria Vanessa Fernandes, a famosa filha do Velho Lau, ainda em 2010 teve também um encontro imediato com um paquiderme de aço durante um treino, que implicou cuidados médicos e uma temporada de baixa. Este país...

Ainda se diz "like!"?

Mas vamos esquecer as coisas tristes por uns momentos e abraçar a imensa paixão pela bicicleta! Pelo menos é o que propõem os autores de "A Gloriosa Bicicleta", o livro da moda desta quadra natalícia. Sendo os autores, além de ciclistas urbanos, membros veteranos dos media, não é de estranhar que se saibam mexer na comunicação social e nas redes sociais, onde esta obra tem conseguido atrair as atenções de adeptos da causa e não só. Não sei se se trata apenas de "spin" positivo, mas ainda não botei as mãos nesse canhenho e ele já me conseguiu transmitir boas vibrações, por alguma razão. E não, não andei a fumar nada. Se quiserem adquirir uma cópia do pequeno livro laranja com direito a gatafunho dos autores, ainda podem passar no Cascais Villa este Sábado e conseguir mais uma prenda para por no sapatinho. Ou na meia. Ou na chaminé. Ou whatever.

E falando em prendas, para aqueles que têm mostrado preocupação com o meu estado de saúde após os 200km de Sábado, reporto com satisfação que tudo vai bem e apenas o meu posterior se queixa um bocado:

"Tenho MESMO que mudar de selim!"

terça-feira, 20 de novembro de 2012

O Estranho Caso da Ciclovia da Avenida da Liberdade

Av. da Liberdade, Lisboa, Planeta Terra

O drama, a emoção, a tendinite que vou desenvolver de tanto martelar o teclado sobre o mesmo assunto. Por onde começar? Talvez pelo principio: a Terra arrefeceu e surgiram os organismos unicelulares, que foram evoluindo até aos dinossauros, que ficaram tão grandes e pesados que morreram e se transformaram em pitróleo. Os homens humanos perceberam que aquilo servia de combustível e construíram grandes bicicletas de 4 rodas carroçadas, com motores movidos a nhanha de dinossauro destilada. Depressa toda a gente e mais a mãe deles queria um veículo auto-móvel, pelo que os lideres da velha Olissipo mandaram alcatifar de asfalto o Passeio Público, e assim surgiu a Avenida da Liberdade.

Conseguem ver a ciclo faixa?

Dando um salto para o Séc. XXI, e após décadas a alargar ruas e avenidas até transformar o maior número possível de artérias da cidade em autoestradas, a CML finalmente parece ter acordado para o facto de que é impossível uma mobilidade urbana dependente exclusivamente das bicicletas de 4 rodas carroçadas. Começaram então a surgir planos e obras concretas que tentam aliviar a pressão do ditador automóvel sobre a pobre e indefesa Olissipo. Com a desculpa de possíveis multas da (des)União Europeia, em Setembro avançaram as alterações ao trânsito na Av. da Liberdade e Marquês do Pombal.

Gostava de ver o Nunes da Silva a andar aqui de bicicleta

Digo desculpas, porque num país onde o povo exige sempre mais e melhor alcatrão para os seus paquidermes metálicos e mais lugares de estacionamento mesmo à porta de todos os destinos, é politicamente muito difícil dizer que se quer restringir a circulação automóvel em Lisboa. O António Costa de certeza não pretende hipotecar o seu futuro político com as alterações de circulação na capital. Mas ao não esclarecer as pessoas, o executivo da CML abre a porta às muitas críticas sobre as soluções implementadas. Em vez de dizer claramente "não tragam o carro para aqui", a CML prefere falar em poluição para justificar ter tirado umas faixas à Av. da Liberdade.

O tracejado da faixa BUS antiga ainda lá está


Os Fogareirus Raivosum dominam a Avenida


As viragens à direita são um perigo


Apesar dos riscos e mesmo em dias de tempestade, a Av. tem ciclistas

Com as alterações feitas, surgiu também uma ciclo-faixa-coisa na Av. da Liberdade. Em vez das tradicionais ciclovias em cima dos passeios, roubando o pouco espaço que sobrava para os peões, desta vez fez-se uma faixa ciclável na via BUS, que foi alargada. É das primeiras vezes também que o responsável por implementar estas modificações relacionadas com a mobilidade BICI é de facto o vereador da mobilidade da CML, o independente Fernando Nunes da Silva. As ciclo-coisadas feitas no passeio são normalmente da responsabilidade do pelouro dos Jardins (!), nas mãos do camarada José Sá Fernandes.

Os protagonistas: António Costa, Nunes da Silva e Sá Fernandes

Talvez por falta de experiência, talvez por manifesta incompetência, talvez por problemas na correspondência, a CML pediu pareceres a quem percebia da poda (a FPCUB e o MUBI) e depois borrifou-se no que eles disseram. Fez o que bem entendeu, provavelmente o que era mais fácil e barato. Ficámos assim com uma ciclo-faixa na zona da avenida onde circula o trânsito mais rápido, onde o piso é pior, e onde o ciclista fica mais exposto às viragens à direita nos muitos cruzamentos. Mesmo a sinalética que avisa para a inovação que é um ciclista poder circular legalmente num corredor BUS (ou será numa faixa à direita do corredor BUS, nunca consegui perceber!) é muito escassa, sobretudo no sentido Norte-Sul.

Estes sinais não existem no sentido Norte-Sul

Tal como não houve coragem para dizer claramente que pretendia restringir a circulação automóvel na zona, também não houve coragem para eliminar o estacionamento público nas laterais da avenida, o que teria possibilitado alargar os passeios e criar outro tipo de soluções para a bicicleta. É difícil encontrar em capitais europeias outras avenidas equivalentes que ainda tolerem o estacionamento à superfície, mas se pensarmos que o Vereador Nunes da Silva é professor do IST, que tem um campus na Alameda onde em vez de se abolir a circulação de automóveis, como é normal no mundo inteiro, aboliu-se a circulação de pessoas, para maximizar o número de lugares de estacionamento. Vale a pena uma visita às instalações desta nobre instituição, para perceber melhor a mentalidade de quem manda na mobilidade lisboeta.

Parece que sou só eu que acho que aqueles lugares de estacionamento sobram

Mas afinal como é circular nesta Avenida Lisboeta após as alterações? Eu passo lá todos os dias e resolvi fazer um pequeno vídeo. À boa maneira da CML, eu não disponho das condições técnicas ideais para recolher as imagens numa bicicleta em movimento, mas desenrasquei a coisa na mesma. As vibrações na ciclo-faixa-coisa são mais que muitas, depois não digam que não avisei. Assim, aqui ficam os 1200 metros dos Restauradores ao Marquês de Pombal, à velocidade merdia de 17 km/h:



Sem grandes surpresas, a montanha parece ter parido um rato. Coxo. Depois do enorme interesse mediático, das ameaças do Reichfürer Barbosa do ACP e do caos dos primeiros dias, a coisa parece estar a acalmar, mesmo que ninguém esteja realmente satisfeito. Os automobilistas querem o seu asfalto de volta, os ciclistas sentem que fizeram alguma coisa por eles, e só isso já é um raro reconhecimento da sua existência, mas gostavam que tivessem feito alguma coisa que fosse, sei lá, útil. Os peões têm agora que olhar para todos os lados ao travessar as laterais, que podem ter vários sentidos, e o atravessamento da própria Av. da Liberdade está tão difícil como nunca. Parece que ganhou mais uma vez a mediocridade e o deserrascanço. Se a política é o compromisso do possível, o possível em Lisboa parece ter descido mais um degrau.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Lisboa de Bicicleta de Estrada: uma Saga de Pneus Fininhos

Mayda, mayday, mayday! Perda de controle! Queda eminente! Ahhhh!!! (Crash!). Este poderia ser o relato de uma hipotética caixa negra da minha Raleigh após o pequeno incidente de Sexta. Escusam de ir já a correr doar sangue, sentem-se e acabem de ler primeiro, eu estou óptimo. Há quem ache que uma queda de bicicleta é uma coisa normal e expectável, mas não eu. Para compreender este episódio é pois necessário que rebobinemos a poeirenta cassete do tempo até à semana passada, quando...

Com a roda xpto

...Choviam cães e gatos, o que não me impedia de acelerar pela Avenida da Liberdade abaixo a velocidades escassamente legais. Pequenos riachos tinham-se formado na ciclo-faixa-coisa, pelo que eu evitava circular por lá. E o preço a pagar por andar no meio da faixa em Lisboa é ter que andar depressa. Era o que eu estava a fazer, mesmo que já estivesse encharcado até aos ossos. A aderência dos meus pneus baratongos Michelin 700x28 não parava de me surpreender. Nessa noite enfrentei todo o tipo de superfícies urbanas desafiantes, carris, tinta de sinais, empedrado de granito, lajes de pedra lisa, grelhas metálicas, tudo muito bem molhado, sem qualquer surpresa.

Apesar de ter a confirmação de que os meus pneus eram adequados ao uso invernoso, faltava-me um elemento fundamental para tornar a minha bicicleta de estrada realmente polivalente, cuja compra eu tinha atrasado tempo demais. Guarda lamas, pois claro. A maioria da água que me tinha encharcado tinha vindo das rodas, não do céu. Tendo em conta as restrições de espaço dos travões e do próprio quadro, estava certo de ter feito uma boa opção com uns SKS Bluemels 35 e bastante satisfeito com o seu aspecto uma vez montados, até que tentei girar a roda dianteira. Estava presa.

Por mais que eu fizesse ajustes, a roda não passava livremente na zona do apoio do travão. Gastei horas com aquilo, mas a conclusão era inevitável: devido ao desenho do garfo era impossível montar pneus 28 com guarda-lamas. Atrás o problema não existia e era possível manter o pneu "largo". Precisava portanto de uma solução para a frente, pelo que pensei que talvez um pneu mais anoréctico não fosse assim tão mau para um uso utilitário.  

Bonito, bom, barato é que não

Deitei mãos à obra, que é como quem diz, pedi à co-habitante uma roda de estrada com um dos pneus queques que ela usa para o triatlo, um Michelin Pro3 Race 700x23 e fui com ele para Lisboa. Em ambiente urbano e perante os problemas do costume, como o empedrado desalinhado e o asfalto em mau estado, notavam-se mais vibrações e pancadas que o Pro3 não conseguia absorver da forma a que eu estava acostumado. Por outro lado, a maior leveza do conjunto do Aro Mavic e pneu 23, e o tão badalado menor atrito do pneu fininho, tornavam a bicicleta um tudo nada mais rápida. Em termos de aderência não me podia queixar, parecia ser equivalente ao seu primo Michelin mais largo. O que era excelente.

Vade retro!

Cheguei então à brilhante conclusão de que seria possível e quem sabe divertido enfrentar as ruas da capital com um bom pneu 23 na roda da frente e o 28 na roda de trás, que afinal é a que suporta mais peso. Apesar de ficar com a frente mais instável, (ou ágil e rápida, como diria o pessoal que gosta das finhinhas de corrida), estava disposto a viver com isso e ficava assim com a questão dos guarda lamas resolvida. Devolvi a roda xpto à co-habitante e fui arranjar um pneu para mim. Depois de ler algumas reviews achei que um bom compromisso preço-qualidade seria o Hutchinson Equinox 2. E fui comprar um.

O tamanho importa!

Sexta-feira tinha feito os últimos ajustes e estava certo de ter um setup fiável e funcional. Estava a chover outra vez e a estrada estava molhada, o cenário perfeito para testar o funcionamento do novo pneu e dos guarda-lamas. Acontece que menos de quilómetro e meio após sair de casa eu estava a sofrer de síndrome papal, estava literalmente a beijar o chão. Ao passar de uma zona de asfalto para uma de empedrado, um ligeiro rebordo molhado que tinha que subir fez escorregar irremediavelmente a roda da frente. Sou cuidadoso ao ponto da paranóia e estava alerta para essa possibilidade, mas mesmo assim fui ao tapete. O pneu da frente tinha pressão bem abaixo da recomendada, mas de nada serviu. Estava, como de costume, uma carro atrás de mim a fazer má vizinhança, mas felizmente passou ao largo, sem dúvida a caminho de contar lá em casa como "isso das bicicletes é mesmo perigoso".

Lado a lado: Equinox2 700x23; PRO3 Race 700x23 e Dynamic Sport 700x28

A minha falta de jeito para o BTT tem pelo menos o mérito de me ter feito ganhar experiência em quedas. Agora sou perito em cair sem me aleijar, e foi o caso. Só o ego e a manete do travão saíram magoados. Mas o Equinox 2 foi logo posto de lado, para derreter no rolo, e precisava portanto de uma solução alternativa. Após estudar várias possibilidades, acabei por simplesmente me atirar ao garfo com uma velha lima enferrujada e só parei quando havia espaço para colocar o guarda-lamas e o pneu Michelin 28. Foram só uns milímetros numa zona invisível, pelo que não penso ter comprometido nem a segurança nem a estética. Problema resolvido. Venha o próximo.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O Inverno do nosso contentamento

Frio, escuro e molhado: razões para apanhar o autocarro?

E então, quem é que ainda não apanhou uma molha este ano? Ninguém levanta o braço? Não? Pois, o tempo tem estado bom para as couves e as laranjas, mas um pouco mais complicado para o ciclista urbano. Apesar disso, ou é impressão minha ou há muito mais pessoal a pedalar pelo inverno adentro do que aquilo que é costume.

Por exemplo, esta altura do campeonato, há um ano ou dois atrás, o estacionamento da minha faculdade já estaria deserto. Só a Grande Marmota Ciclista que está no Céu saberá se é por causa da crise, ou se será para irritar o Reichfuürer Barbosa, mas aquilo este ano tem estado muito mais compostinho. Hoje por exemplo, um dia de chuva, estava assim:

Sobravam 2 lugares...

Não só vejo mais bicicletas estacionadas, como também as tenho visto a rolar. É difícil tomar o pulso à situação, não há números, mas eu vejo realmente mais ciclistas pelas ruas de Lisboa. Tenho apanhado outras pessoas de bicicleta em semáforos, coisa muito rara não há muito tempo atrás. Os encontros repetem-se, espero que se tornem mesmo rotineiros.

Ainda não estamos lá, por isso recordo quase toda a gente com quem me cruzo: uma bicicleta com pendura a circular à noite, a chegar aos Restauradores; ser ultrapassado pelo Paulo Guerra dos Santos na Av. 5 de Outubro; hoje vi mesmo vários outros ciclistas na Baixa, a enfrentar a chuva de Lisboa também com bicicletas de estrada já entradotas. 

Já punha uns guarda-lamas...
  
Toda a gente tem as suas estratégias para lidar com os dias de chuva. Eu tenho as minhas. Além de passar a vida a consultar o boletim meteorológico, a minha regra principal é muito simples: se estivera a cair chuva digna desse nome na hora de sair de casa, vou de transportes. Se não estiver a chover, mesmo que a previsão seja má, lá vou eu. Tenho um impermeável daqueles grandes tipo poncho, mas raramente uso, tal como as calças impermeáveis. Aquilo aquece muito e eu não vou gastar dinheiro em material mais respirável xpto. Em geral, acabo por usar só um impermeável mais levezinho, só a parte de cima, e se chover mesmo à séria quando estou a caminho, paro e espero. Tenho a vantagem de os meus compromissos serem bastante flexíveis, quero dizer, eu pelo menos acho que são... 

Não tenho guarda-lamas montados na Raleigh, e bem tenho sentido a sua falta. Já vêm uns a caminho. É uma peça vital, sem eles a bicicleta e o ciclista rapidamente ficam num estado deplorável, mesmo que não chova, basta a estrada estar molhada:

Mais coisas para eu limpar

O inverno lá se vai aproximando a passos largos, mas com alguma preparação é possível continuar a pedalar pelas ruas da velha Olisippo. Eu estou entusiasmado com o crescimento sustentado aparente do nosso ciclismo utilitário, não há semana que passe em que não abra uma nova loja, ou saia alguma coisa relevante na comunicação social sobre bicicletas, ou comprove eu próprio, empiricamente, no terreno, que eles andam aí. Mesmo à chuva.

Mmmmm, binho....


A minha não será a bicicleta mais indicada para o inverno, mas o nosso por cá nem é muito digno desse nome, e este ano vai ser mesmo à base de bicicleta de estrada jurássica. Espero ver mais dinossauros destes a rolar por Lisboa, tal como bicicletas e ciclistas de todo o tipo, mesmo quando o tempo não facilita. 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Rotunda do Marquês: o PREC continua, pelo menos até ao 25 de Novembro

É o que parece pensar o ACP, que fez recentemente uma avaliação das consequências das obras no Marquês e na Avenida da Liberdade, passados que estão 30 dias desde o início deste "experimentalismo radical" da Câmara de Lisboa.

Já lá vai um mês

Poupo-vos os detalhes, mas conclui o ACP que basicamente tudo é mau. Principalmente porque parece que se leva agora mais tempo a atravessar aquela zona de carro particular. Não sou grande fã das alterações, mas pelo menos estas parecem-se enquadrar numa lógica em implementação desde há muitos anos nos países do resto da Europa, que é restringir o acesso automóvel aos centros urbanos. Restringir é aqui a palavra chave! As obras não foram feitas para atrair mais carros para o centro de Lisboa, foram feitas para os afastar. Ou seja, nada foi feito para facilitar, foi mesmo para dificultar! Logo, se há maior demora no trânsito, então é sinal que os objectivos gerais estão a ser cumpridos. Quanto menos facilidades para o pópó, menos interesse em utiliza-lo.

Será para manter?

É claro que o ACP está habituado a um tratamento muito diferente para sua excelência o automóvel, e este conceito de que "menos carros é bom" é coisa absolutamente incompreensível para os seus dirigentes. O clube agarra-se então a expressões como"experimentalismo" e "radicalismo" para qualificar as alterações, já para não falar na já clássica frase dos "pobres automobilistas forçados a passar naquela zona". Mas quem é que obriga essas pobres alminhas a pegar no enlatado? Toda a ideia é não circular de carro naquela zona. Há uma coisa muito engraçada chamada "metro" que está lá desde os anos 50 e outra ainda mais antiga chamada "autocarro". Se quiserem insistir no transporte individual, acho muito bem, vão de bicicleta e até podem parar de reclamar dos senhores da Galp.

Estes "experimentalismos radicais" são na verdade a norma nas cidades dos países europeus por cujo nível de vida costumamos suspirar. Em Londres, uma cidade que nem é exemplo em termos de mobilidade sustentável, as maiores avenidas tem em geral a configuração que a Av. da Liberdade agora apresenta: duas faixas para cada lado apenas, uma delas sempre BUS. Com a diferença que praticamente não existe por lá estacionamento público, coisa que ainda persiste na Av. da Liberdade e por todo o centro de Lisboa. Mas o Zé-Tuga não consegue largar o carro por cinco minutos que seja, e o mundo inteiro é que tem se acomodar a esta realidade, ao contrário é que não pode ser nada. É uma chatice.

Uma autentica lêndea viva do automobilismo português

O Querido Líder do ACP, democraticamente reeleito em 2011, uma manobra que até se compreende à luz do êxito de outro grande cacique, aquele da Madeira, continua a viver noutra era e a verbalizar ideias populistas que agradam aos menos esclarecidos, enquanto ele cavalga a onda mediática e se posiciona para outros voos. Seja no desporto ou na política, o ReichFürer Barbosa vai a todas, porque está mais que visto que isto é um visionário que nasceu para liderar as massas. Aparentemente também nasceu para coleccionar relógios e depois ficar sem eles, mas isso é outra história.

Este esquema é demasiado complexo para o automobilista médio

A importância das obras do Rotunda reside no facto delas serem justamente temporárias. Tal como na remodelação da Baixa, está por demonstrar que a CML tenha a força suficiente para implementar de forma definitiva as restrições ao tráfego automóvel. Se conseguir, é pelo menos um passo na direcção certa, com décadas de atraso, mas mais vale tarde que nunca. Se falhar, será mais uma vitória do ACP contra o "PREC urbano" em curso e o regresso à Idade Média Rodoviária em que vivem Barbosas e companhia, com prováveis implicações sérias também para o futuro da mobilidade ciclável da capital.

Não percam os próximos capítulos.              

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Música na minha cabeça

Chamem-lhe Jukebox

A cidade é o caos.

Circular em Lisboa é percorrer uma espécie de percurso de obstáculos, uns conhecidos, outros sempre novos e literalmente surpreendentes. O caminho exige concentração e um certo esforço. Desde que tenho a Raleigh que circulo também mais depressa, e ao fazê-lo procuro evitar os perigos da urbe, os carris de eléctrico, os peões distraídos, os taxistas enraivecidos e os outros mamutes metálicos tresmalhados.

Apesar de ir muito atento, sempre sem conceder facilidades à fortuna e ao acaso, por vezes uma coisa estranha acontece. Os movimentos tornam-se muito fluidos, instintivos mesmo, e tudo parece ficar sobre controle. Como se de outro estágio de consciência se tratasse, de repente sou capaz de escutar coisas como o som da corrente a passar nos carretos, ou sentir a quantidade exacta de atrito que os pneus estão a gerar. Normalmente por esta altura surge também um som na minha cabeça, uma música que toma conta dos meandros do meu cérebro, sem ter sido convidada. Normalmente não é algo que eu costume escutar, mas simplesmente uma música que eu já ouvi alguma vez, nalgum lado.

E assim dou por mim a escutar Heroes, do David Bowie, ao subir a Avenida da Liberdade, tão bem como se tivesse uns oscultadores colocados (que nunca uso). A culpa provavelmente é da cerimónia de abertura dos Jogos Parolimpicos em Londres. Acho incrível como sou capaz de me lembrar da letra de uma melodia que não ouviu assim tantas vezes.

Outras vezes, em alturas de maiores velocidades e perigos, sou inundado com um som do Moby, Extreme Ways provavelmente tirado da banda sonora da saga Bourne, de que sou fã. Em alternativa e nas mesmas circunstâncias acontece-me também ter Rolling Stones na cabeça, concretamente o Gimme Shelter que toca, invisível e inaudível, a altos berros dentro do meu cérebro. É uma canção usada em inúmeros filmes de guerra, por isso não estranho que o meu subconsciente a vá buscar quando estou no meio do trânsito.

Mais estranho é uma melodia que me costuma acompanhar em momentos de cansaço e esforço especialmente difíceis, como circular numa estrada nacional sem berma, de noite. É algo que devo ter apanhado nalguma discoteca há muitos muitos anos e que tive que ir pesquisar para ver o que era:



Este "One More Time" costuma traduzir-se em "mais uma pedalada" e mais de uma vez este som me ajudou a concluir uma viagem e a chegar a casa. Será caso para procurar o terapeuta?

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Massa Crítica e Cycle Chic em menos de 24h

Pedaladas Chic na Marginal

Contorno o último Fogareirus Raivosum e coloco-me na frente do semáforo. "O tempo está a ficar feio", constato enquanto espero pelo verde. Não há muito a fazer, além de, talvez, rezar à Grande Marmota que está no Céu para que o dilúvio tenha a decência de aguardar que eu chegue ao destino. Sou contido nas preces, não por falta de fé nos poderes da Grande Marmota, mas por preguiça e por ter consultado o WindGuru horas antes. O WindGuru dizia que não chovia em Lisboa. O WindGuru nunca falha!

Enquanto o meu cérebro se ocupava destas coisas, os meus sentidos iam detectando um fenómeno insólito. Naquele semáforo lisboeta tinha surgido outro ciclista! Isto é coisa que nunca me acontece. "É a Revolução! Rejubilemos!" Pensei para com os meus botões. Mas as surpresas ainda não tinham acabado, antes do semáforo dos Restauradores ficar verde, estavam lá quatro bicicletas.

Perante este cenário absolutamente inédito, avancei pela Avenida da Liberdade a sentir-me como se estivesse em Londres, ou seja, quase como um utilizador da via pública de pleno direito. Graças às capacidades da Raleigh, rapidamente deixei os ciclistas para trás e voltei à minha rotina solitária avenida acima. Havia de durar pouco. Dali a uns metros começou a chover com tal intensidade que tive que sair da estrada e refugiar-me numa arcada. Ali estavam também várias pessoas incluindo, pasme-se, outro ciclista!

Depois de ter conseguido digerir o facto do WindGuru se ter enganado,  voltei a minha atenção para o ciclista à minha frente. A bicicleta que trazia era uma utilitária de quadro preto, de cubo de mudanças, tipo uma roadster de 3 velocidades ou uma bicicleta holandesa. O tipo de coisa que não se vê por cá todos os dias. Olhando para a Avenida, vi como vários outros ciclistas se aventuravam em direcção ao Marquês, agora que a chuva tinha abrandado. Comecei a pensar que alguma coisa me estava certamente a escapar e quando ao tipo da Roadster se lhe juntou um Portuguese-Hipster numa fixie de guiador de pista cromado, só me ocorreu uma coisa: é dia de massa crítica!!!

E era. Sem tempo para ter que lidar com o dilema junto-me-a-eles-ou-é-melhor-não, assim que a chuva parou arranquei para a faculdade, tentando evitar as enormes poças de água e curvando com suavidade de um carteirista, para não ter surpresas no piso escorregadio. Infelizmente os meus cuidados não evitaram que chegasse todo molhado, já que sem guarda-lamas o spray da estrada era mais que suficiente para tratar disso.

Depois de um dia de rabo molhado, uns amigos convenceram-me a alinhar no passeio de rabo bem apresentado na manhã seguinte. Sim, era mais um evento Cycle Chic, este a terminar no Greenfest, no Casino Estoril. Talvez sobre o efeito da cafeína, eu alinhei, apesar de ser contra a minha religião, e uma grande ofensa para a Grande Marmota que está no Céu, sair da cama às oito da manhã num Sábado.

CCB, local da Partida

Mas sair da cama foi o que fiz e fiz muito bem. Foi uma manhã muito bem passada, mais pela companhia de bons amigos do que pelo evento em si, já que a minha total ausência de Social Skills limitou o contacto com a tribo do Chic. Mas registei algumas coisas dignas de nota:

  • A presença de uma conhecida marca de enlatados a promover bicicletas eléctricas (de design brilhante, devo dizer).
  • O visual cuidado de alguns, mas também havia um ou outro Fred assumido lá pelo meio.
  • A diversidade de bicicletas utilitárias (e não tão utilitárias). Havia cruisers, longtails, híbridas de grande qualidade, Bromptons, Dahons e todo o tipo de dobráveis, Globe's, atrelados, etc.
  • A diversidade de ciclistas. A começar pela idade, que começava certamente perto dos 5 anos.
  • O número de acidentes e incidentes.

Local da chegada
 
Não tem nada a ver com o Cycle Chic, qualquer passeio deste tipo implica mais riscos do que circular sozinho, por paradoxal que possa parecer, já que tínhamos escolta policial durante todo o caminho. Juntar veículos de duas rodas num espaço reduzido com pessoas de diferente nível e experiência tem o seu quê de arriscado. Mesmo há minha frente houve uma queda muito aparatosa, causada pelo embrulhar de 2 guiadores, felizmente sem consequências de maior para os protagonistas, um deles bem conhecido do meio. Havia algumas pessoas com claras dificuldades em circular em grupo, mas este tipo de evento propõe-se justamente promover e integrar pessoas no ciclismo, pelo que a velocidade baixa (entre os 6 e os 19km/h) e piso plano facilitaram as coisas.

A baixa velocidade do nosso comboio também foi útil quando um amigo meu teve um furo e ficou para trás, entregue a si mesmo, conseguindo depois voltar à comitiva a força do pedal e chegar ao fim sem mais percalços, embora com o pneu em baixo outra vez.

Abastecimento a meio caminho: água Del Cano

É impossível não reparar que estes eventos funcionam de forma semelhante à massa crítica, em termos de mensagem. Também recordam às pessoas que os ciclistas existem e que têm direito a andar na estrada, mesmo que neste caso, com escolta policial, até tínhamos mais direito que os enlatados. Adiante. Éramos também um grupo numeroso e muito visível, impossível de ignorar. E dávamos boa imagem do ciclismo utilitário, graças à profusão de gente bem vestida e bicicletas dispendiosas.

Recapitulando, no fim voltei para casa estranhamente satisfeito, com o bilhete oferecido pela CP e uma folga no eixo pedaleiro. A Raleigh está cada dia mais temperamental, acho que tenho que dar-lhe alguma atenção.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Lisboa de Bicicleta de Estrada

Lisboa, Terreiro do Paço


Depois do sucesso em Londres, a Raleigh veio comigo para espalhar charme pelas ruas de Lisboa. (E talvez um bocadinho de óleo também). Ora eu estava à espera de encontrar diferenças e até alguns problemas no uso de uma bicicleta de estrada em Lisboa e, vai-se a ver, tinha razão.

1. Transmissão. Há varias questões a ponderar. Para começo de conversa, que tal as lendárias e absolutamente míticas colinas de Lisboa? Se há coisa que vem sempre à baila em conversas sobre biclas e ciclismo utilitário, até na imprensa, são as colinas. As colinas são o nosso fado. E a derradeira desculpa de uma sociedade comodista, perdida em provincianos ideais de "conforto". Sim, Lisboa não é plana, mas poucas cidades o são, completamente. A minha Raleigh vem munida com uns pratos 52-42 e carreto 14-24. São mudanças relativamente pesadas, normais numa bicicleta de corrida, que privilegiam mais a velocidade do que as subidas. Mesmo assim, não tive qualquer problema em Lisboa, até agora têm chegado para tudo.

2. Piso. Lisboa tem piso bom, assim-assim, e completamente terceiro-mundista. Do excelente ao deplorável pode levar só alguns metros. As bicicletas de estrada preferem asfalto perfeitamente liso, e se esse pavimento pode ser encontrado em Lisboa, é mais fácil localizar empedrado ondulado, asfalto esburacado e deformado, e lajes de betão desalinhadas nas ruas da capital. Mesmo munido de pneus largos 700x28, a Raleigh sofre bastante em algumas zonas de Lisboa. (Av. Duque de Loulé, Rossio, Av. da Liberdade, Rua do Ouro, Cais do Sodré, e um longo etc.) As vibrações e os solavancos podem ser mais que muitos, e é aqui que um modelo de bicicleta com suspensão e/ou um quadro mais robusto claramente leva vantagem. Outro problema nefasto são os carris de eléctrico, onde um pneu 28 cabe sem dificuldade. Todo o cuidado é pouco.

3. Velocidade. Vou vos contar um pequeno segredo. É daquelas coisas que toda a gente no fundo sabe, mas não quer aceitar: todas as bicicletas andam à mesma velocidade em ambiente urbano. O que conta realmente é o motor. Não acreditam? Façam o teste. Num percurso conhecido usem uma bicicleta urbana de 25 kg e 3 mudanças. Depois, noutro dia, façam o mesmo percurso, mas com a vossa máquina desportiva predilecta, tipo uma bicicleta de estrada em crabono de 8 kg e pneus anorécticos. Aposto que a diferença de tempos nunca ultrapassará um minuto ou dois. Isso porque a cidade, com os seus cruzamentos, semáforos, passagens de peões, impõem o seu próprio ritmo. E foi isso mesmo que eu constatei. A Raleigh não é mais rápida a realizar os meus trajectos tradicionais que o era a minha Riverside (7 kg mais pesada) ou a minha BTT adaptada (4 kg mais pesada). Levo exactamente o mesmo tempo. Isso não invalida que eu possa agora acelerar mais rápido ou manter facilmente uma velocidade mais elevada, o que permite fugir dos Fogareirus Raivosum e torna mais fácil (e divertido!) conviver com o resto do trânsito.  

4. Utilitarismo. A maior parte das bicicletas de estrada não têm apoios para grades porta-bagagens ou guarda lamas, não toleram pneus largos, não protegem a  roupa da transmissão e obrigam a posições agressivas, pouco confortáveis. Um modelo mais idoso, como o meu, normalmente sofre de apenas alguns destes males. Graças a uma maior altura do avanço, tenho uma posição confortável, a Raleigh aceita pneus relativamente largos e tem apoios para guarda-lamas. O transporte de carga é que está mais complicado de resolver. Há muitas hipóteses, desde "p-clips" no quadro para colocar a grade porta-bagagens, a grelhas dianteiras, "saddle bags", as opções são várias, até agora tenho optado pela fatídica mochila. Quanto ao sujar a roupa, já me acostumei a dobrar a perna das calças do lado direito. Para quê complicar? 

domingo, 23 de setembro de 2012

Semana da Mobilidade: Semana do quê??

Muito gosta a CML deste sinal

Sim, sim, eu sei que houve uma série de eventos e que Domingo há umas coisas no museu da electricidade. Eu próprio sou menino para lá ir. Isso não invalida que o panorama geral seja paupérrimo. Quero dizer, tudo o que não inclua fechar pelo menos as zonas históricas ao trânsito motorizado é ridículo. Quantas pessoas em Lisboa ouviram sequer falar da semana europeia da mobilidade? De que forma foram sensibilizadas para a necessidade de utilizar modos de deslocação sustentáveis? De que maneira se procurou afirmar os direitos das pessoas de se deslocarem em segurança e com dignidade, independentemente do meio de transporte que decidam utilizar?

Isso das bicicletes é muito giro! Para servir de decoração, claro
 
Não sei, mas se não há coragem para fechar umas miseras ruas um dia por ano, numa cidade onde ainda está tudo por fazer, receio que a mudança só chegue daqui a gerações. E eu não sou especialmente paciente. É claro que tendo chegado há pouco tempo de Londres, depois de lá ter passado meses, a realidade lisboeta parece-me agora especialmente penosa. E a realidade é esta:

Av. Berna: Muitas faixas de asfalto, mas o passeio é assim


Muitos carros=Qualidade de Vida!! Por isso somos todos tão Felizes!




"Ciclovias" no passeio: bom piso para peões e bom para votos


Baixa: Malta do "estamos a trabalhar", com a cumplicidade da PSP


O passeio tem que dar para tudo, menos para as pessoas


Mesmo no passeio, o pópó tem sempre prioridade


Passagem de peões: sitio de recurso para deixar o carro



Um passeio bem aproveitado


Calçada Portuguesa: provavelmente o pior piso para caminhar


Um passeio no fundo é só mais uma faixa de rodagem...


...a usar a gosto



Sinalização tipo AE em cidade: para o pópó não ter que abrandar


Para o pópó tudo tudo tudo!!


Para o peão as sobras. Se houver


Este semáforo foi colocado especificamente para tirar a prioridade ao peão.


Disto é que o povo gosta! Asfalto com fartura=mobilidade



A Av. Duque de Ávila recém renovada tem este aspecto



Ciclovia da Av. Duque de Ávila


Lisboa: carros e degradação urbana



No meio do caos, só os excêntricos se aventuram


Tenho consciência que muitos Lisboetas são sinceramente incapazes de identificar os problemas que estas fotos documentam. E ano após ano, nem na semana da mobilidade consigo encontrar sinais de que as coisas estão a realmente a mudar. A excepção é o número de ciclistas. Eu vejo-os por aí cada vez mais. Eles é que mantêm a esperança viva. Se há pessoas com coragem para enfrentar todas as indignidades e perigos que a Lisboa do Séc. XXI ainda reserva para o ciclista urbano, talvez haja esperança.

Na FCSH

Na minha faculdade esta semana pela primeira vez faltaram lugares de estacionamento para bicicletas e os alunos tiveram que recorrer aos postes mais próximos. Pode ser um sinal dos tempos, mas também podem desaparecer todas com as primeiras chuvas. Vou tentar convencer-me que a primeira hipótese é a mais provável.