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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

2013 foi do camandro, 2014 vai ser do catano!

Eis-nos de novo naquela fatídica altura do ano: o momento da revisão no telejornal dos principais acontecimentos que foram notícia, em Portugal e no mundo, nos últimos doze meses. Ora sucede que 2013 foi um ano particularmente interessante para os apoiantes da causa do pedal. Mas se foi possível que a bicicleta fosse noticia ao longo dos últimos meses, não será certamente o tipo de coisa que as TV's se dediquem a recordar nesta época. Não se pode competir com o selfie no funeral do Mandela, ou com o regresso de Mourinho ao Chelsea.

Mas para isso estou cá eu. Sem mais demoras, das montanhas do Isaltinistão para o mundo, eis os mais importantes ciclo-aconteceimentos de 2013. Um ano que começou assim:

Um milhar em todo o país?

Logo no início do ano, as forças vivas do ciclismo e algumas celebridades uniram esforços para passar uma simples mensagem, basicamente recordar a todos que os ciclistas existem, também são utentes da via pública e que merecem ser respeitados. A exposição mediática conseguida na altura foi significativa.



Num sábado tempestuoso, em que foram emitidos alertas meteorológicos que recomendavam justamente às pessoas que não saíssem de casa, as televisões tinham outras coisas que noticiar. Mesmo assim não faltaram esforços para difundir um evento de nível nacional, que acabou por ter pouca adesão mas bastante divulgação. O Markl explica do que se tratava:



A aparente falta de adesão na altura chegou a ser criticada. Estava no entanto dado o mote para um ano extremamente mediático para a bicicleta no nosso país. Enquanto dezenas de milhares de portugueses fugiam à crise galopante e abandonavam este Portugal esquecido pela Grande Marmota que está no Céu, alguns para se instalarem em autênticos paraísos da bicicleta, por cá a luta continuava. Ainda que muitas vezes sobre o signo da excentricidade, a bicicleta ocupava cada vez mais espaço nos jornais, revistas e televisões.

Ainda no início do ano, entrevista com o director da FPCUB na RTP 2:



Hugo Sabido e Rui Sousa na RTP 2:



Além da mensagem mais institucional de organizações e ciclistas famosos, as TV's mostraram interesse, a uma escala nunca vista, por aqueles "maluquinhos" que trocaram o carro pela bicicleta na sua vida diária.

No Porto:



Ou em Lisboa:



São só alguns exemplos, porque em 2013 a bicicleta esteve definitivamente na moda, aparecendo cada vez mais em público não só em noticias como em campanhas de marketing e publicidade, ou mesmo como objecto decorativo. Em paralelo com tudo isto, era possível visualizar, nas ruas de Lisboa, um aumento significativo dos utilizadores de bicicleta. Não há estatísticas nem cálculos decentes que permitam estimar o número de ciclistas urbanos entre nós, mas tudo parece indicar, pelo menos a olhómetro, que têm vindo a aumentar substancialmente.

O culminar aparente desta dinâmica de crescimento real e mediático no uso e defesa da bicicleta como meio de transporte foi a aprovação, a meio do ano, de alterações ao código da estrada que contemplam algumas novidades interessantes para os ciclistas. Como nunca é demais recordar, as principais alterações são:

  • Obrigatoriedade dos veículos motorizados deixarem um espaço lateral de 1,5m na ultrapassagem a velocípedes, abrandando também a velocidade.
  • Equiparação dos velocípedes, para fins de definição de prioridade, a qualquer outro veículo nos cruzamentos não sinalizados.
  • Quando autorizado pelos municípios, os velocípedes poderão circular em faixas BUS.
  • Permissão de circulação nos passeios para crianças até aos 10 anos
  • Obrigatoriedade de cedência de passagem aos velocípedes quando atravessam as passagens especiais assinaladas para estes.
  • Fim da obrigatoriedade de circular o mais à direita possível da via.
  • Fim da obrigatoriedade de circular na ciclovia.
  • Fim da proibição de circular a par.

O decreto de lei que aprova esta coisa toda entra em vigor daqui a menos de 24 horas, a 1 de Janeiro de 2014. Há toda uma série de razões, históricas e sociais, para questionar a possível eficácia destas alterações. Mas deixemos isso para depois. Não menosprezemos o facto de que se tratou mesmo de uma grande vitória. O resultado do esforço e contributo de inúmeras pessoas e uma marco incontornável na caminhada para o que eu chamaria de normalidade no uso da bicicleta como meio de transporte. Ponto. 

A novidade de 2012 morreu em 2013

Em Lisboa, aparentemente por causa das reclamações de ciclistas e de automobilistas, a Câmara de Lisboa recuou nas polémicas alterações à circulação na Av. da Liberdade, e os ciclistas voltaram a poder usar as laterais da avenida. Infelizmente isso implica circular aos ziguezagues, e fazer mais quilómetros e paragens que o necessário, mas a velha CML prosseguiu em 2013 com a sua táctica habitual de dar um passo para a frente e dois passos para trás, no que aos modos suaves diz respeito.

Imagem: Público

Com a reeleição de António Costa, as coisas não devem mudar, provavelmente podemos continuar a contar com ciclovias decorativas e a tradicional falta de coragem para eliminar faixas de rodagem, reduzir os espaço de estacionamento público em excesso, acabar com o estacionamento selvagem, baixar os limites de velocidade, fiscalizar os muitos abusos rodoviários, etc. Nada tenho contra o António Costa, se calhar até era o candidato a Lisboa mais pró-modos-mais-ou-menos-suaves, mas isso diz alguma coisa do nosso complicado panorama político.

Também em 2013, onde há ciclovias há polémica

Mesmo assim, tivemos direito a mais ciclovias lisboetas em 2013. E mais estão, aparentemente, na forja. Nesse capítulo 2013 foi uma ano de mais do mesmo: mais obra e mais polémica também. As coisas vão andando, só não se sabe se é para a frente.

Rui Costa emocionado

Quem sabe para onde vai é outro Costa, e outro acontecimento incontornável de 2013: a vitória nos campeonatos do mundo de estrada de um rapaz promessa do ciclismo português, que tive o prazer de conhecer e fotografar certo dia na Povoa do Varzim. A magnitude da coisa escapou um pouco ao país devoto do futebol, mas mesmo assim o triunfo de Rui Costa em Florença dificilmente podia ser ignorado. Foi um ano muito especial para o português, que sumou ainda várias outras vitórias "menores", como duas etapas da Volta à França, e acabou premiado atleta do ano, à frente do colosso Cristiano Osvaldo. Coisa pouca.

E muito mais aconteceu em 2013. A velha raposa matreira Lance-Macho-Alfa-Armstrong foi finalmente obrigado a confessar os seus pecados, coisa que fez sem perder a sua lendária arrogância e sobranceria. A UCI parece continuar cheia da podres, mas até ao momento conseguiram sobreviver ao escândalo e tratam de convencer o público que as mesmas pessoas que estiveram na cama com o Armstrong (espero que não literalmente) gerem agora um desporto limpinho. 

"Tipo, menti e coiso. Mas vamos falar do MEU futuro"

Em 2013, apesar da crise, continuaram os eventos de bicicleta (menos o Bike Tour), as maratonas BTT, passeios Chic, festivais de cinema, etc. Também é cada vez mais fácil comprar uma bicicleta utilitária, não só há mais lojas vocacionadas também para o ciclista urbano, como as já existentes parecem ter acordado para este novo mercado de utilizadores (em vez de gozarem com eles).

"EP diz NÃO!"

Há outras lutas que foram adiadas, como a travessia ciclo-pedonal da Ponte 25 de Abril, uma possibilidade rejeitada liminarmente pela Estradas de Portugal. Ou a implementação da eternamente adiada rede de Bicicletas Partilhadas de Lisboa. Diz que algo está para breve.

E muito mais aconteceu em 2013, pelo que muito mais haveria a dizer. Mas não temos tempo. Deixo-vos com um último acontecimento feliz de 2013, mesmo que a maioria dos eleitores de Oeiras aparentemente não concordem. Um feliz e prospero 2014 para todos, com muita pedalada!

"O Vistas avisou-me para não deixar cair o sabonete"

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Tróia - Sagres 2013 ou Como eu Aprendi a Deixar de me Preocupar e Passei a Amar a Dor


Furgão é para meninos: aluga mas é um autocarro

"Se fosse para trabalhar não estavam aqui a esta hora!" - atirou alguém à multidão reunida no cais de embarque do ferry em Setúbal. Perante a risada geral dos companheiros, o veterano ciclista concluiu com um contundente "ah pois é!". Eram 7:10 de uma fresca manhã de sábado e passados poucos minutos começava o embarque. Para ali estar pronto e equipado tinha saído da cama às cinco da manhã e acreditem que poucas coisas na vida me arrancam da cama a uma hora dessas. Pela frente tínhamos não só a pequena travessia rumo ao Cais Sul de Tróia, como os 202km e muitas horas até à histórica localidade algarvia.

Felicidade é: sair da cama às 5 da manhã e pedalar 200km!

Já a bordo do ferry, houve tempo para descontrair da ansiedade e das preocupações das primeiras horas da manhã: carregar o carro, chegar a tempo a Setúbal, descarregar o carro, levar comida e água para os primeiros km, não esquecer nada, acertar local de paragem com o carro de apoio, etc. Tudo isso ficava agora para trás. Podíamos relaxar e confraternizar com os companheiros de aventura. Conheci um advogado simpático (todo crábonizado) que trazia um speedneedle às costas: tinha mudado em cima da hora para um selim mais confortável na sua Scott, mas teve receio que o seu posterior não se acostumasse e trazia o selim suplente para qualquer eventualidade. Como aquilo pesa menos que uma barra energética, até não foi mal pensado. (Mais à frente descobri que ele voltou de facto ao setup original).

Licras asfálticos dominam o Ferry

Ainda a bordo do ferry comecei a reparar em vários pormenores interessantes referentes ao Tróia-Sagres. É suposto ser um evento com grandes tradições no BTT, afinal a fórmula original do louco passeio criado por António Malvar era a utilização de bicicletas de BTT, mesmo que montando pneu (e outros acessórios) de estrada. Mas à minha volta via-se e sentia-se um enorme domínio da bicicleta de estrada, talvez da ordem dos 80%. Um olhar mais minucioso ao equipamento, às jerseys de clubes, etc, permitia adivinhar que muita desta malta era de facto do BTT. É um facto indiscutível que hoje em dia quase todo o BTTetista empedernido tem também uma estradista asfáltica em casa, e provavelmente muitos concluíram que essa era a ferramenta certa para uma viagem de 202 quilómetros, todos eles em... estrada!

"Ele troca. Olhe que é um clássico!"

Nesta fase já a minha Raleigh atraía curiosos, ajudada pelo facto de um dos meus companheiros estar constantemente a garantir aos ciclistas que passavam, com grandes biclas em crábono, que eu estaria disposto a trocar a minha máquina pela deles. Este clima de boa disposição durou até a rampa descer em Tróia e o desembarque começar. Atrasados por um GPS bloqueado e pelo meu conta km que se recusava a dar sinais de vida, o meu grupo de bravos guerreiros do asfalto foi o último a sair do cais. Eram cerca das oito da manhã e na rotunda que dá acesso à estrada para o Sul reinava o caos. Por todo o lado furgões, carrinhas e até autocarros descarregaram uma confusão de homens de licra, bicicletas e equipamento. Aqueles já prontos a rolar ziguezagueavam por entre estes frenéticos preparativos e o caótico trânsito lento. Começava a viagem.

Mais aço inglês de alta qualidade a bordo: um quadro Genesis Equilibrium

Assim que foi possível acelerar, o ritmo passou para uns 27 - 30 quilómetros por hora e por aí se manteve. A estrada estava cheia de ciclistas, os poucos automóveis eram completamente cercados e tudo o que podiam fazer era esperar. Ao mesmo tempo, havia grupos enormes, autênticos pelotões, a rolar a velocidades bem altas. Um colorido impressionante na estrada, agora que o Sol já brilhava e começava também a distribuir algum calor. Tudo se passou muito rapidamente até Melides, onde fiz a primeira paragem. Não era necessária, mas como vinha em esforço para tentar manter o ritmo dos meus companheiros, resolvi parar e encher o bidom. Até aí nada de especial a assinalar, tinha saltado a corrente logo na partida e a afinação que fiz ao sensor do ciclo-computador foi um bocado à bruta, e agora o íman estava a bater no sensor a cada volta, fazendo um ruído irritante.

Estes componentes andaram quase 100km a bater um no outro. Arggghh!

Até Sines também rolei bem, agora já muito tempo sozinho, não tinha ritmo para os meus companheiros nem para me colar a um dos pelotões que passava, sempre a grande velocidade. O vento começou a fazer estragos por esta altura. Após paragem e novo reabastecimento um pouco depois de Sines, as coisas começaram a descambar. Sentia as pernas pesadas e os músculos doridos e ainda tinha mais de metade do percurso pela frente. Já tinha dificuldade em encontrar posição confortável em cima do selim, o meu posterior já ia dorido. Mais alarmante era uma inédita dor nos joelhos que se ia instalando. Tinha conseguido dormir apenas duas horas e estava a pagar o preço, com juros, da minha falta de preparação. A dúvida ameaçava instalar-se.

Depois de Sines, menos ciclistas e mais carros

Os próximos quilómetros forma muito duros. Via a minha média constantemente a baixar, dos 27km/h passou para 26, depois para os 25 e eventualmente ainda menos. A todo o momento recalculava a hora prevista de chegada a Sagres e percebia que corria sérios riscos de chegar após o pôr do Sol. Ao quilómetro 120 o GPS morreu, as pilhas nem duraram meio dia. Estava a rolar sozinho há algum tempo, a minha média continuava a baixar, e agora tinha receio de me perder. Psicologicamente estava a ir abaixo, as pernas não respondiam, dei por mim a subir um troço com uma inclinação suave a 12km/h, numa mudança super leve. Mesmo assim estava a custar como se fosse a subida para a Torre. Parei.

E tirei esta foto:


E esta:


E mais esta:

Mo-rreu! Felizmente o jurássico ciclocomputador é mais fiável

Faltavam cerca de oitenta quilómetros, mas podiam ser mil. Tinha que por as ideias em ordem. Estive ali uns cinco minutos e quando arranquei estava decidido a chegar ao fim nem que fosse de gatas. Fui-me concentrando na paisagem, nas pequenas trocas de palavras com outros ciclistas, em que a norma era o incentivo mutuo. Havia boas energias por aquela estrada, e também alguma comédia (e loucura). Muita gente elogiou a minha bicicleta ou fez humor com ela (não sou ciumento). Eu era o "amigo vintage", a Raleigh era "a relíquia" e "à maneira". Pelo caminho encontrei muitos personagens curiosos e montadas invulgares. Havia bonitas sigle speeds e fixies (chamem-me o que quiserem, mas é desmoralizante como o camandro ser ultrapassado por uma single speed!), bicicletas de estrada quase da idade da minha ou mais velhas, várias dobráveis, entre as quais uma Dahon toda kitada, e uma Bromptom completa com todos os extras, incluído uma generosa mala Brompton montada na frente, cheia até rebentar.

Paragem para WC, porque tudo o resto que seja preciso já deve estar naquela mala!

Substitui as pilhas do GPS. Sobrevivi não sei bem como à única subida realmente dura da viagem e fui fazendo o meu caminho para Sul, mas o pôr do Sol aproximava-se rapidamente e eu ainda tinha muito para andar. Não havia nada a fazer senão insistir. Para ajudar à festa, a segunda metade do percurso é mais fértil em sobe-e-desce, o que não era inteiramente mau. Depois da subida podia sempre descansar um bocado na descida, mudar a posição do corpo e deixar rolar em roda livre, coisa quase sempre impossível no resto do percurso. A "relíquia" tem uma limitação nestas situações: uma vez comprometido numa descida rápida, não me atrevo a tirar as mãos do guiador para colocar mudanças mais pesadas, e assim não aproveitava ao máximo esses momentos em que tinha a ajuda da gravidade. A colocação das alavancas não se presta a "trocas de caixa" rápidas, pelo que muitas vezes nem tentava e rolava quilómetros e quilómetros na mesma mudança.

Funcionais e precisas q.b. Rápidas não são
 
Entretido com o caminho com mais curvas e subidas e descidas, já no Algarve, os quilómetros foram passando. Após uma última paragem a 20km do final, arranquei com a faca nos dentes na tentativa de não ser apanhado na estrada quando escurecesse em definitivo. Recuperei algum tempo, mas foi em vão. Acabei na escuridão total, a rolar a 30km/h na berma da estrada nacional. Mais uma vez um companheiro do pedal foi a minha salvação, um BTTista com luzes permitiu-me seguir com alguma segurança, na roda dele, até à entrada de Sagres.

Basicamente, foi isto

Exactamente dez horas depois de ter começado, pelas 18:00h entrava em Sagres, a localidade mergulhada na escuridão e invadida por um mar de crábono e homens de licra. O ciclocomputador marcava 198,32km, a diferença para o total de 202km do track semi-oficial justificada pela localização actual mais a Sul do cais de Tróia. Ao todo eu tinha parado uns muito longos 78 minutos, mas sem isso acho que nem teria chegado. A minha velocidade mérdia ficou-se pelos 23,0km/h, o que não está mal para quem não treinou nada e foi de "clássico" para o Algarve.

Alguém comentava que ir para Sagres de duas rodas com motor provavelmente ficava mais barato. Pode ser verdade, porque eu ao longo do percurso consumi isto:

  • 2 Sandes de Queijo
  • Uma Empada de Galinha
  • 4 Barras de Chocolate e Banana
  • 1 Barra de Cereais
  • 4 Pacotes de Gel
  • 1 Banana
  • 4 Bidons com Bebida Iso-coisa
  • Pedaços de Manga
  • Frutos Secos
Em litros aos 100km deve ser menos que uma pick-up V8 americana, mas mais que um Prius. Voltando a questão que tinha colocado anteriormente:

É possível uma pessoa normal, sem preparação, meter-se a pedalar uma distância de 200km, que envolve um esforço continuado de um dia inteiro, e chegar ao fim vivo?

Sim.

E fazê-lo numa bicicleta qualquer?

Sim.

Se me perguntarem se vai ser divertido, depende de como lidem com o esforço prolongado e com um bocadinho de dor. Eu gostei. Mas agora tenho que me ir embora, estão ali à minha espera para eu assinar os papeis para o transplante do escroto.

sábado, 22 de setembro de 2012

"The Enlightened Cyclist" - Reflexões sobre a mais recente obra do Snob

"Long live the Snob", dizia o Armstrong
 
Sou um admirador confesso do blogue BikeSnobNYC há muito tempo, e tinha curiosidade em ver como o habitual discurso corrosivo do autor se adaptava ao formato de livro. Em Londres passei em sítios que o misterioso autor (que tem este aspecto) visitou para o lançamento deste canhenho, já lá vão muitas luas, e quando encontrei este exemplar por acaso numa livraria Londrina não resisti a compra-lo.

Por favor não levem esta espécie de book review minimamente a sério. Eu não penso fazê-lo. Perguntam vocês:

É sobre o quê? O livro é uma vasta reflexão sobre várias coisas relacionadas com as deslocações em bicicleta. Desde os motivos porque nos deslocamos, os atritos e perigos que essas viagens acarretam, os comportamentos que suscitam, tudo é analisado de uma perspectiva quase filosófica, sem perder o estilo ligeiro e humorístico que caracteriza o Snob.

É igual ao blogue? Obviamente o formato é diferente, afinal são mais de 200 páginas. O humor está mais refinado e o discurso em geral é bastante mais sério e muito mais estruturado. Tal como no blogue, também se fala dos conflitos entre ciclistas e automobilistas, também se fala e critica (e goza!) com as diferentes tribos do ciclismo, os comportamentos desviantes, etc, mas o registo é diferente, mais ponderado.

É só para "ciclistas à séria" ou para toda a gente? Eu diria que um não-ciclista poderia ler e achar graça ao livro. E talvez aprender alguma coisa. Mas terá sempre mais interessante para os adeptos "da causa". Algumas piadas religiosas e linguagem mais forte poderiam ofender Quakers ou assim, de resto acho que é uma obra bastante acessível.

Existe versão em Português?  Que eu saiba não. Este é já o segundo livro do Snob, pode ser que venha ser traduzido.

Eu gostei, e fez-me pensar. Fiquem com o trailer:


terça-feira, 24 de julho de 2012

O "Ciclismo" e os "Ciclistas"

Bradley Wiggins: As patilhas mais rápidas do universo conhecido!

Na edição deste ano do Tour de França nenhum ciclista foi atropelado por um automóvel da organização que depois se pós em fuga. Rejubilemos. Vá, estou a ser mauzinho. Mas já fui mais. Acho que até já fiz as pazes com o desporto violento que é o ciclismo de estrada. Este ano tive o tempo e o luxo de poder acompanhar boa parte do Tour em directo na televisão.

Os Londrinos estão finalmente a descongelar o stiff upper lip e a começar a afeiçoar-se à ideia de terem os jogos olímpicos na sua cidade. Acho que o Londrino Bradley Wiggins (nascido na Bélgica), também teve alguma coisa a ver com isso. A vitória do patilhas-maravilha e da equipa da Sky, (este é afinal de contas um desporto de equipa!) parece ter ajudado a despertar a atenção adormecida dos ingleses para com o ciclismo, o desporto, e os Jogos Olímpicos em geral.

Eu aprendi a gostar do ciclismo de estrada. Foi um gosto que fui adquirindo, com a ajuda de uma par de entusiastas jornalistas da especialidade, nas intermináveis viagens de autoestrada a caminho de mais uma entrevista com alguma estrela ou velha glória da especialidade. Os jornalistas da Ciclismo a fundo não só me explicaram as regras e as estratégias do desporto, como acho que conseguiram passar algum seu inesgotável entusiasmo pelo seu desporto de eleição.

Ainda continuo a achar que há um excesso de violência, de agressividade, de perigos desnecessários nas competições de estrada. E que isso pode passar a mensagem errada sobre o "ciclismo" em geral. Mas agora já não consigo passar sem ver pelo menos o Tour. Mas a questão que me interessa é perceber as relações entre o "desporto rei" movido a pedal e o uso da bicicleta como meio de transporte. Tendo em conta o meu actual lugar de residência, é impossível não perceber que a vitoria surpreendente da Team Sky nas estradas francesas vai de alguma maneira relacionar-se com a autentica revolução por que está a passar o ciclismo utilitário em Londres e no Reino Unido.

A toda poderosa Sky apoia o ciclismo!

A maneira positiva de olhar para a coisa é afirmar que o ciclismo de estrada, se for suficientemente popular, com atletas nacionais bem sucedidos, vai atrair pessoas para o desporto e que esse maior número acabará por se reflectir também no número de utilizadores da bicicleta como meio de transporte. A divulgação nos media ajuda certamente, e os patrocinadores do Team Sky, para não ir mais longe, estão aparentemente muito empenhados na divulgação do ciclismo.

Menos positivo seria dizer que toda aquela licra, as bicicletas de crabono de milhares de euros e a perigosidade do desporto em si vai alienar os utilizadores da bicicleta como meio de transporte e convencer os indecisos de que o ciclismo é mesmo uma coisa arriscada, para super-atletas e radicais, não algo para o dia a dia de pessoas normais. Na melhor das hipóteses um saudável desporto, mas não transporte.

O que pensam vocês? É certo que não há muitos campeões de ciclismo na Holanda e na Dinamarca, por exemplo, duas nações de referência para o ciclismo utilitário. E Portugal não é actualmente referência nem numa coisa nem outra. Se ofensa para as excelentes prestações recentes do Rui Costa!  

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Londres e o Ciclismo Veicular

Imagem: Joana Franco

Começo por admitir que tenho um certo fraquinho por Londres. Há qualquer coisa na cidade que me agrada. E não é de certeza a comida. Ou o clima. Talvez eu seja um admirador secreto do proverbial stiff upper lip britânico, aquela mistura de politeness e sangue frio que se mantêm mesmo que tudo à volta esteja a desabar. E talvez seja essa mesma atitude perante a adversidade, dos súbditos de sua majestade, que os leva a serem grandes adeptos do ciclismo veicular.  

Dia dos namorados em Londres

Ora eu já por aqui perdi algum tempo (e fiz perder o vosso), a maldizer o conceito do "vehicular cyclist". Também sou amiúde crítico das "pseudo-ciclovias", pelo que muitos estarão a pensar, não sem razão, que eu sou um (inserir palavrão cabeludo aqui) incoerente. Mas deixem-me tentar explicar.

"Boris Bikes" esperam clientes

Simplificando, o ciclista veicular acredita que isto está é cheio de maricas. Pussies. Então é lá agora preciso vias segregadas, legislação especial e não sei mais o quê para andar de bicicleta?? Nada disso. Um gajo faz-se à estrada, imita os carros e pronto. Vais virar à esquerda numa avenida com 5 faixas? (À direita em Londres...) Então sinalizas a mudança de direcção e colocas-te atempadamente na faixa mais à esquerda. Simples. Está tudo a andar muito depressa? Tens que andar ao ritmo do trânsito também, pois então. É o quê? Têm todos carros com mais de 100 cavalos e circulam nas grandes avenidas muito acima dos limites legais? E tu, não tens pernas? Toca a mexer. Pussie. 

Num país onde velhotes de 100 anos batem recordes de ciclismo como forma de celebrar o aniversário, e onde o prato nacional é um peixe horroroso servido numa folha de jornal, não sobram dúvidas que os Londrinos são tipos duros (e tipas) com pelo na venta e estofo para esta forma particular de ciclismo utilitário. Mas a bravura não anula certamente os perigos, e não admira que o YouTube esteja inundado de vídeos como este:



Sim, este tipo estava praticamente a pedi-las, mas quem tem ido a Londres recentemente pode testemunhar que é comum ver ciclistas a comportar-se desta forma. Em Londres, os ciclistas circulam como veículos motorizados, muitas vezes à máxima velocidade que conseguem, e recebem o mesmo tratamento impiedoso que os automobilistas costumam reservar uns para os outros. É verdade que existe sinalização, que há ciclo faixas pintadas no asfalto em muitas vias, que os ciclistas podem circular nas faixas BUS e esperar pelo verde do semáforo na frente da fila. Em alguns sítios até há ciclovias segregadas, mas poucos são os automobilistas que respeitam estas pinturas rupestres e as distâncias de segurança. Há até quem diga que as ciclo faixas reduzem a segurança dos ciclistas. 

Ao tentar entrar no jogo de igual para igual, sem mudar mais nada, é fácil esquecer quem é que se encontra numa posição muito mais vulnerável: o ciclista. Não estamos nos anos vinte, há muitos (mesmo muitos) carros nas estradas, e circulam muito rápido. E depois acontecem tragédias. Não deixa de ser curioso que mesmo nas campanhas por mudanças no estado da coisa-ciclistica no Reino Unido recorre-se quase sempre a alternativas às vias segregadas. Na conhecida campanha do The Times, propõem-se umas medidas e alterar uma série de coisas, menos o direito a andar na estrada. E quem pode censura-los?

Crachá da campanha do Times

O ciclismo veicular não deixa de ser uma espécie de experiência Darwiniana, onde só os mais fortes sobrevivem. No ciclismo veicular não parece haver espaço para os mais novos e os mais velhos, os mais fracos e os mais lentos. Em Londres circula-se a toda a velocidade, o tempo todo. Existem outras cidades europeias onde o modelo é um pouco diferente e atrai mais pessoas para o ciclismo, não é verdade? Há até muitas semelhanças entre Londres e Lisboa, no que toca ao uso da bicicleta como meio de transporte. Mas se calhar devíamos inspirar-nos naquilo que funciona e não naquilo que gostaríamos que funcionasse.

Apesar de tudo, não esqueçamos que a bicicleta é a forma mais rápida de deslocação na capital britânica, como os insuspeitos tipos do Top Gear se encarregaram de demonstrar há uns anos. E se ficaram tristes com toda esta conversa, tomem lá um estimulante natural: vejam como em Londres se resolve o problema do estacionamento abusivo em paragens de autocarro. Sr. Costa, está a tomar notas?

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A bicicleta mais leve do mundo

Um dos meus dois leitores fez-me chegar esta pequena curiosidade. Não que o peso da bicicleta seja muito relevante no ciclismo utilitário, mas tem sempre piada saber estas coisas. Assim, aqui fica a bicicleta de 2,7 kg. Sim, tem mudanças e funciona e tudo. Só não sei a quantos quilómetros sobreviveria nas ruas de Lisboa.

Anorexia e muito Crabon

Fiquem a saber mais desta maravilha do minimalismo no site TriRig.com. Por curiosidade e/ou diversão, talvez merecesse a pena comparar este modelo e o seu peso com o de uma tradicional bicicleta utilitária holandesa. Como uma Gazelle de 3 velocidades. Eu sei qual preferiria. E é a que custa 100 vezes menos que a outra...

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Do que se trata

Bem vindo ao primeiro post do meu novo blogue! Depois de muitas aventuras nas duas rodas com motor, estou por fim decidido a vencer a dependência da nhãnhã de dinossauro que importamos de paragens longínquas e tentar viver o dia a dia com a ajuda do veículo que mais me fascina, a bicicleta. Aqui encontrará relatos de viagens, pequenas e grandes, movidas sempre a força de pedal e apresentadas numa perspectiva mais utilitária e menos desportiva. As questões de mobilidade urbana e segurança do ciclista estarão também na ordem do dia. Até já!