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Bicicletas há muitas |
Qualquer pessoa que já foi dar uma volta de bicicleta com uma das tribos do ciclismo sabe perfeitamente que há umas bicicletas
certas e outras completamente
erradas. O grupo de guerreiros do asfalto do Cacém, que vão dar um giro ao Domingo pela serra de Sintra, rapidamente esclareceria o novato e o levariam a perceber que a sua Zeus herdada do pai o ia deixar abandonado na estrada, a milhas do grupo. O iniciado seria encorajado a comprar a última geração de bicicleta de
crabono, de uma marca conceituada. No modelo topo de gama, porque os outros claramente são para iniciados e ninguém quer parecer iniciado. Mesmo que o seja.
Ainda que ninguém lhe dissesse nada, o novato depressa perceberia que os seus
calções normais de usar na rua ofendiam a visão sensível dos novos companheiros, além da resistência aerodinâmica o fazer perder 0,02 segundos por km, e acabaria por investir mais uns cobres numa indumentária “aceitável” para os passeios. Depois haveria também que gastar mais um pouco num ciclo-computador, também ele da marca certa, pois claro. E com todas as funções indispensáveis, que um homem já não passa sem saber quantos Watts de potência está a aplicar na roda traseira.
Na altura de investir num rolo para “treinar” em casa, durante o inverno, e comprar um cardiofrequencímetro para se manter na
zona certa, o iniciado nestas lides provavelmente já terá a conta bancária bastante maltratada, mas pelo menos sentirá o calor fraternal de se sentir por fim aceite pela Tribo.
Este tipo de visão desportivo-consumista mantém as tribos do ciclismo normalmente afastadas do ciclismo utilitário, ao mesmo tempo que a sociedade em geral olha com desconfiança para qualquer pessoa que pretenda simplesmente deslocar-se para algum lado a força de pedal. No fundo temos todos uma data de preconceitos e definições tão exactas como intolerantes do que é “normal”.
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Nacional 10, no Laranjeiro |
Na nacional 10, ontem, a caminho de Setúbal,
fui ultrapassado por um par de ciclistas de estrada, ambos com a indumentária certa, mas segundo os
meus preconceitos, a atitude errada. É que além de me terem feito uma rasante, não me disseram nada. O que seria de esperar de membros de outra tribo, já que eu trajava à civil e montava a minha
Frankenbicla. Não merecia pois um mero “bom dia”. Esta indiferença contrastava com o comportamento de outros ciclistas da zona, afinal eu tinha passado a manhã a saudar e responder a cumprimentos de companheiros do pedal. Espicaçado pelo comportamento, lancei-me na perseguição deste duo, que avançava a bom ritmo, bem abaixados em posição aerodinâmica, o segundo elemento na roda do primeiro, aproveitando ao máximo o cone de ar. Para minha surpresa, não tive grandes dificuldades em apanhar estes “atletas”, nem em manter-me ao ritmo deles. Sem licra, sem pêlos rapados, sem
crabono, sem saber a minha frequência cardíaca, a pedalar erguido, numa bicicleta de montanha com um guiador mais alto que o Bruno Nogueira.
É claro que é possível que aqueles ciclistas estivessem no regresso de uma volta épica de 286 km e eu os tenha apanhado já mesmo a chegarem a casa, cansados e sem fôlego para cumprimentos. Há que dar um desconto. Criticar é fácil.
E talvez seja por isso que o fazemos. Como quando eu disse ao meu amigo Pedro que se calhar
não era boa ideia ele ir a pedalar os 260 km que separam a sua casa de umas merecidas férias no
Algarve. A coisa começou quando eu próprio, que tinha sido convidado a lá passar também uns dias, avancei a hipótese de fazer a viagem de bicicleta. Ora o Pedro disse logo que era gajo para fazer isso também. Para mim o problema nem era que ele não andasse regularmente de bicicleta, nem o facto de
a maior distância que tinha percorrido até ao momento terem sido cerca de 30 km. Para mim, o problema era a bicicleta dele ter este aspecto:
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Já não se fazem destas |
Sim, é uma genuína Confersil, com quase todo o equipamento de origem. Contando com mais de duas décadas de uso variado,
este modelo ainda mantém os pneus e calços de travão originais! Apesar de estar avaliada em menos que o ar dos seus pneus, esta bicicleta é para o dono insubstituível e de elevado valor sentimental, já que o tem acompanhado em inúmeras aventuras desde a infância.
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Está novo! |
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Não está bem focado, mas acho que ficam com a ideia |
Determinado a provar as suas capacidades e as da sua Confersil, o Pedro alinhou numa voltinha de teste, de Almada a Setúbal, cerca de
40km já meus conhecidos. A ideia era manter o tipo de ritmo que seria necessário para uma deslocação ao Algarve em 2 dias, ou seja uma média entre os 20 e os 25 km/h. Apesar da ameaça de chuva, e embora coberta de ferrugem, com uma roda muito empenada e um pneu prestes a rebentar, a Confersil manteve a integridade e o Pedro não deu parte de fraco. A distância foi coberta em escassas duas horas, cumprindo os objectivos.
No fim, nenhum de nós irá para o Algarve de bicicleta, já que o tempo de férias escasseia e as estradas são ainda mais perigosas nesta altura do ano. Eu ganhei um novo respeito pelas bicicletas que podem parecer
BSO's, mas que apesar disso ainda têm utilidade e podem servir fielmente os seus orgulhosos proprietários em diversas circunstâncias.
Por outro lado, quando não envolvidas numa disputa "a minha é maior que a tua" dos seus donos, que justifica logo gastos ilimitados, as bicicletas de qualidade parecem merecer um certo desprezo do cidadão comum. As pessoas acham normal pagar 20,000 Eur por um carro ou 500 Eur por um telefone, mas acham no mínimo excêntrico que alguém gaste mais de cem euros numa bicicleta "normal". Para muitos uma bicicleta é uma coisa simples, como um piaçaba. Claro, há
piaçabas feitos de ouro e pedras preciosas, mas quem é que realmente precisa de uma coisa dessas? Pois é. Eu não preciso. Mas há mínimos. Ou não? O problema parece ser
quem é que decide quais são.