sexta-feira, 28 de setembro de 2012

"Wide Eyed and Legless" - Uma visão do Tour

Título estranho, mas perfeitamente justificado!
 
Outra leitura supremamente interessante que é fruto da minha passagem por terras de sua Majestade é este Wide Eyed and Legless: Inside the Tour de France. O Tour nunca tinha despertado o meu interesse até há bem pouco tempo, e embora agora não resista a acompanhar a prova cada verão, mesmo que tenha que recorrer a algum misterioso site Belga para ver o streaming de vídeo em directo, também sou bastante crítico com todo aquele circo.

Wide Eyed and Legless é um relato do Tour de 1987, visto pelos olhos de um jornalista desportivo britânico, que acompanha uma das poucas equipas profissionais Inglesas a tentar a sua sorte na mais dura prova de ciclismo do mundo. O autor, Jeff Connor, viaja com a equipa ANC - Halfords e consegue um grau de envolvimento pouco usual com os ciclistas, o(s) directore(s) desportivo(s), os mecânicos e todo o resto da comitiva. Se o Jeff era um iniciado na cobertura do Tour, também a equipa ANC britânica era relativamente inexperiente e formada por um grupo heterogéneo e relativamente desconexo de pessoas, que são postas à prova desde o primeiro dia no Tour e levadas até ao limite daí em diante.

Embora de leitura ligeira (e rápida) e a traços apenas factual e jornalístico, ler este livro é saltar sem para-quedas para a voragem devoradora que é o Tour. Paulatinamente vamos mergulhamos nas tradições, maquinações e meandros da prova desportiva mais exigentes do planeta. Considerada por alguns o melhor livro de ciclismo de todos os tempos, este é sem dúvida um retrato magistral do que é o Tour e do que é a vida de quem nele se aventura. Para ler e guardar.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

No Reino das Percepções Apressadas

Com um aceno negativo, o condutor fez-me compreender exactamente o que estava a pensar. Já tinha visto aquele olhar reprovador antes, muitas vezes certamente, mas uma em particular veio à memória. Aquela expressão de desagrado resignado, de paternalista paciência, como quem diz: estes tipos são todos parvos, o que é que eu hei de fazer...

De repente estava no Sul de Espanha, não muito longe da fronteira, há muitas luas atrás, a estacionar o carro perto de uma praia cheia de história para mim e alguns amigos. Estava decidido a não alimentar os rendimentos do arrumador-chunga local, essa original  exportação portuguesa, e coloquei o carro longe do lugar que ele indicava e basicamente ignorei-o. No regresso vi como ele me olhava, como observava com ar de julgamento a forma como eu conduzia. A sua expressão de censura dizia tudo: "carro com matrícula portuguesa" + "os portugueses são todos umas bestas ao volante" = "este tipo que estacionou sem a minha autorização é uma besta". E uma besta forreta ainda por cima.

Esta posta é uma seca. Foto de gatinho para compensar

Ainda não tinha andado cinquenta metros hoje, de bicicleta, e estava a levar com a mesma expressão, o mesmo aceno negativo, o mesmo tipo de julgamento. Desta vez porque o senhor que seguia no seu pópó no sentido contrario, ocupando toda a estrada, teve que se desviar para não me passar a ferro. Deduzo que ele pensava que a rua teria apenas um sentido, uma distracção algo comum no local em causa. Mas em vez de concluir que estava a cometer um erro, assim que viu um ciclista, tomou logo a decisão mais lógica: "os ciclistas são todos vândalos" + "a rua parece ser de sentido único" = "Este tipo é parvo e eu é que ainda tenho que me desviar para ele não morrer"

É por estas e por outras que tenho pouca paciência para os artistas que por aí se vêem a fazer todo tipo de barbaridades na estrada (e no passeio!) e que dão mau nome ao ciclista comum. Por outro lado, dado o estado da infraestrutura rodoviária em Lisboa, ainda é muito difícil a um ciclista cumprir o aberrante código da estrada a 100%, ou nunca conseguiríamos chegar sequer a nenhum lado. E isso é algo que um automobilista, para quem a infraestrutura foi pensada quase em exclusivo tem muita dificuldade em compreender.

Um amigo meu queixava-se recentemente no Livro-dos-Focinhos sobre vários casos de comportamentos "perigosos" de ciclistas que ele tinha presenciado e concluía que assim não lhe ficava grande vontade de dar ele próprio umas pedaladas, já que claramente não queria ser confundido com aquele tipo de gente. E assim andamos, todos cheios de razão, todos um bocado frustrados ao fim do dia, quando no fundo todos queremos apenas chegar ao destino em segurança. O Snob falava justamente deste tipo de agruras do commuting, no seu livro mais recente, e dava umas sugestões, se calhar tenho que ir ler aquilo outra vez.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Lisboa de Bicicleta de Estrada

Lisboa, Terreiro do Paço


Depois do sucesso em Londres, a Raleigh veio comigo para espalhar charme pelas ruas de Lisboa. (E talvez um bocadinho de óleo também). Ora eu estava à espera de encontrar diferenças e até alguns problemas no uso de uma bicicleta de estrada em Lisboa e, vai-se a ver, tinha razão.

1. Transmissão. Há varias questões a ponderar. Para começo de conversa, que tal as lendárias e absolutamente míticas colinas de Lisboa? Se há coisa que vem sempre à baila em conversas sobre biclas e ciclismo utilitário, até na imprensa, são as colinas. As colinas são o nosso fado. E a derradeira desculpa de uma sociedade comodista, perdida em provincianos ideais de "conforto". Sim, Lisboa não é plana, mas poucas cidades o são, completamente. A minha Raleigh vem munida com uns pratos 52-42 e carreto 14-24. São mudanças relativamente pesadas, normais numa bicicleta de corrida, que privilegiam mais a velocidade do que as subidas. Mesmo assim, não tive qualquer problema em Lisboa, até agora têm chegado para tudo.

2. Piso. Lisboa tem piso bom, assim-assim, e completamente terceiro-mundista. Do excelente ao deplorável pode levar só alguns metros. As bicicletas de estrada preferem asfalto perfeitamente liso, e se esse pavimento pode ser encontrado em Lisboa, é mais fácil localizar empedrado ondulado, asfalto esburacado e deformado, e lajes de betão desalinhadas nas ruas da capital. Mesmo munido de pneus largos 700x28, a Raleigh sofre bastante em algumas zonas de Lisboa. (Av. Duque de Loulé, Rossio, Av. da Liberdade, Rua do Ouro, Cais do Sodré, e um longo etc.) As vibrações e os solavancos podem ser mais que muitos, e é aqui que um modelo de bicicleta com suspensão e/ou um quadro mais robusto claramente leva vantagem. Outro problema nefasto são os carris de eléctrico, onde um pneu 28 cabe sem dificuldade. Todo o cuidado é pouco.

3. Velocidade. Vou vos contar um pequeno segredo. É daquelas coisas que toda a gente no fundo sabe, mas não quer aceitar: todas as bicicletas andam à mesma velocidade em ambiente urbano. O que conta realmente é o motor. Não acreditam? Façam o teste. Num percurso conhecido usem uma bicicleta urbana de 25 kg e 3 mudanças. Depois, noutro dia, façam o mesmo percurso, mas com a vossa máquina desportiva predilecta, tipo uma bicicleta de estrada em crabono de 8 kg e pneus anorécticos. Aposto que a diferença de tempos nunca ultrapassará um minuto ou dois. Isso porque a cidade, com os seus cruzamentos, semáforos, passagens de peões, impõem o seu próprio ritmo. E foi isso mesmo que eu constatei. A Raleigh não é mais rápida a realizar os meus trajectos tradicionais que o era a minha Riverside (7 kg mais pesada) ou a minha BTT adaptada (4 kg mais pesada). Levo exactamente o mesmo tempo. Isso não invalida que eu possa agora acelerar mais rápido ou manter facilmente uma velocidade mais elevada, o que permite fugir dos Fogareirus Raivosum e torna mais fácil (e divertido!) conviver com o resto do trânsito.  

4. Utilitarismo. A maior parte das bicicletas de estrada não têm apoios para grades porta-bagagens ou guarda lamas, não toleram pneus largos, não protegem a  roupa da transmissão e obrigam a posições agressivas, pouco confortáveis. Um modelo mais idoso, como o meu, normalmente sofre de apenas alguns destes males. Graças a uma maior altura do avanço, tenho uma posição confortável, a Raleigh aceita pneus relativamente largos e tem apoios para guarda-lamas. O transporte de carga é que está mais complicado de resolver. Há muitas hipóteses, desde "p-clips" no quadro para colocar a grade porta-bagagens, a grelhas dianteiras, "saddle bags", as opções são várias, até agora tenho optado pela fatídica mochila. Quanto ao sujar a roupa, já me acostumei a dobrar a perna das calças do lado direito. Para quê complicar? 

domingo, 23 de setembro de 2012

Semana da Mobilidade: Semana do quê??

Muito gosta a CML deste sinal

Sim, sim, eu sei que houve uma série de eventos e que Domingo há umas coisas no museu da electricidade. Eu próprio sou menino para lá ir. Isso não invalida que o panorama geral seja paupérrimo. Quero dizer, tudo o que não inclua fechar pelo menos as zonas históricas ao trânsito motorizado é ridículo. Quantas pessoas em Lisboa ouviram sequer falar da semana europeia da mobilidade? De que forma foram sensibilizadas para a necessidade de utilizar modos de deslocação sustentáveis? De que maneira se procurou afirmar os direitos das pessoas de se deslocarem em segurança e com dignidade, independentemente do meio de transporte que decidam utilizar?

Isso das bicicletes é muito giro! Para servir de decoração, claro
 
Não sei, mas se não há coragem para fechar umas miseras ruas um dia por ano, numa cidade onde ainda está tudo por fazer, receio que a mudança só chegue daqui a gerações. E eu não sou especialmente paciente. É claro que tendo chegado há pouco tempo de Londres, depois de lá ter passado meses, a realidade lisboeta parece-me agora especialmente penosa. E a realidade é esta:

Av. Berna: Muitas faixas de asfalto, mas o passeio é assim


Muitos carros=Qualidade de Vida!! Por isso somos todos tão Felizes!




"Ciclovias" no passeio: bom piso para peões e bom para votos


Baixa: Malta do "estamos a trabalhar", com a cumplicidade da PSP


O passeio tem que dar para tudo, menos para as pessoas


Mesmo no passeio, o pópó tem sempre prioridade


Passagem de peões: sitio de recurso para deixar o carro



Um passeio bem aproveitado


Calçada Portuguesa: provavelmente o pior piso para caminhar


Um passeio no fundo é só mais uma faixa de rodagem...


...a usar a gosto



Sinalização tipo AE em cidade: para o pópó não ter que abrandar


Para o pópó tudo tudo tudo!!


Para o peão as sobras. Se houver


Este semáforo foi colocado especificamente para tirar a prioridade ao peão.


Disto é que o povo gosta! Asfalto com fartura=mobilidade



A Av. Duque de Ávila recém renovada tem este aspecto



Ciclovia da Av. Duque de Ávila


Lisboa: carros e degradação urbana



No meio do caos, só os excêntricos se aventuram


Tenho consciência que muitos Lisboetas são sinceramente incapazes de identificar os problemas que estas fotos documentam. E ano após ano, nem na semana da mobilidade consigo encontrar sinais de que as coisas estão a realmente a mudar. A excepção é o número de ciclistas. Eu vejo-os por aí cada vez mais. Eles é que mantêm a esperança viva. Se há pessoas com coragem para enfrentar todas as indignidades e perigos que a Lisboa do Séc. XXI ainda reserva para o ciclista urbano, talvez haja esperança.

Na FCSH

Na minha faculdade esta semana pela primeira vez faltaram lugares de estacionamento para bicicletas e os alunos tiveram que recorrer aos postes mais próximos. Pode ser um sinal dos tempos, mas também podem desaparecer todas com as primeiras chuvas. Vou tentar convencer-me que a primeira hipótese é a mais provável.

sábado, 22 de setembro de 2012

Orçamento Participativo: Vota 151

Vota 151!

Está em curso a fase de votação do Orçamento Participativo 2012 da Câmara Municipal de Lisboa. Como as duas pessoas que lêem este blogue sabem, eu colaborei numa das candidaturas, que acabou por ser integrada noutras propostas. É agora qualquer-coisa-genérica-sobre-bicicletas, o projecto 151.

As ideias originais mantêm-se, embora a câmara pretenda gastar mais dinheiro e fazer outras coisas. Recentemente tivemos direito a divulgação no Menos Um Carro, não no original, no plagiado-institucional. Pretende-se portanto criar algumas excepções para ciclistas, fazendo uso da sinalética, pensada até agora exclusivamente para os pópós, de modo a agilizar e facilitar a circulação em bicicleta, sempre que tal seja possível. É uma forma de conseguir alguma coisa com pouco dinheiro, em vez de andar a pintar passeios de vermelho. Alguns exemplos de Londres, Paris e um de Lisboa:


Londres

Londres

Londres
 
Paris - Imagem: Gabriel J. www.weloveprovence.fr


Belém, Lisboa

A página do Facebook com as ideias originais é esta, a página da CML onde podem efectivamente votar é aqui.