![]() |
| Pôr do Sol na praia da marina |
Este ano regressei a Vilamoura, a sui generis localidade algarvia que é ao mesmo tempo uma cidade e um resort privado. Não que as diferenças entre Vilamoura e outras áreas turísticas do Sul de Portugal sejam imediatamente evidentes, afinal Vilamoura também sofre de algum excesso de betão e está infestada de enlatados durante os meses de calor. Mas há algumas características para lá do estatuto jurídico e a temperatura da água que tornam esta terra interessante para mim.
![]() |
| Vilamoura: terra de sonhos, mega-iates e... bicicletas! |
Já o ano passado aqui tinha dado conta da utilização utilitária da bicicleta em Vilamoura. Tudo indica que ela é muito superior ao de outras localidades lusas de características semelhantes (se é que existe alguma cidade portuguesa semelhante a Vilamoura...). As pessoas vão ao supermercado de bicicleta, vão à praia de bicicleta. Locais de estacionamentos para bicicletas são comuns. Pistas próprias para velocípedes também abundam. É normal as casas de férias de Vilamoura terem bicicletas na garagem ou arrecadação. Em Vilamoura, a bicicleta não é tabu, e não é um brinquedo. Embora se possa considerar que as bicicletas servem apenas durante o tempo de lazer (as férias), não são utilizadas para fazer BTT ou "treinos" de estrada.
![]() |
| A minha bicicleta urbana emprestada |
Na sua maioria as bicicletas são utilizadas para deslocações e os modelos mais populares são bicicletas de montanha baratas, provistas de uma grelha traseira para bagagens ou modelos utilitários puros, como bicicletas de cidade. Há de tudo, menos modelos exóticos de crabono, pelo menos estacionados nas ruas. Para luxos há Ferraris e Bentleys com fartura, sobretudo na zona da marina. É com estes automóveis e muitos outros bem mais proletários que o ciclista utilitário de Vilamoura tem de interagir. Sim, porque apesar da influencia estrangeira, em Vilamoura o panorama automóvel é bem português: o excesso de velocidade, as manobras à campeão, e o estacionamento selvagem estão na ordem do dia, como em muitas outras zonas urbanas do país.
![]() |
| Popós na estrada, popós no passeio... e o povo , pá? |
O tráfego durante o mês de Agosto é muito volumoso e os engarrafamentos são tão vulgares em Vilamoura como na área metropolitana de Lisboa. Tudo isso são ainda mais razões para se usar a bicicleta. Não sei se conscientes deste facto, as autoridades do resort têm promovido o uso das duas rodas sem motor. As mudanças são visíveis de ano para ano, e este verão fui surpreendido com algumas novidades bem interessantes. A zona do centro, perto da marina, foi dotada de novos passeios, novos estacionamentos para bicicletas e, coisa muito rara em Portugal, ciclo faixas pintadas no asfalto.
![]() |
| É... uma... ciclofaixa!!!! |
![]() |
| Tem o boneco e tudo! |
![]() |
| E que tal uma coisa assim nas avenidas de Lisboa? |
É claro que as preocupações urbanísticas da gestão do resort de Vilamoura, e recordo que este não é espaço público no sentido a que estamos acostumados, são também ornamentais. Além de ciclo faixas e estacionamentos para bicicletas, Vilamoura apresenta também extensas áreas jardinadas, elaborados passeios pedonais ou mistos (peão + bici), mobiliário público exótico e outras mordomias a que não estamos acostumados no resto do país.
![]() |
| Vistoso e funcional estacionamento para bicis. Sem bloquear o passeio! |
Por vezes tenho dificuldade em perceber se o fomento do uso da bicicleta por estes lados é para levar a sério ou não terá a ver com a tendência eco-friendly cosmética e inconsequente que tanto me irrita em Lisboa. Em Vilamoura também existem ciclovias absurdas e inúteis em cima de passeios estreitos. Ou ciclovias que começam no meio do nada e acabam em nenhures. Também há estacionamentos "rompe rodas" em locais impróprios. Quero acreditar que se trata de falta de experiência e das inevitáveis dificuldades de implementação de medidas bem ponderadas numa realidade que, apesar das suas particularidades, ainda é muito enlatado-centrica, como o resto do país.
![]() |
| Alguém reconhece esta bicla? |
Assim, Vilamoura apresenta-se como uma espécie de precursora portuguesa para aquilo que o resto das cidades e vilas do país podem fazer. Apesar das características especificas de Vilamoura, não vejo razões para que não sirva de exemplo para outras paragens. Além do que tenho vindo a reportar, em Vilamoura também se está a estudar um sistema público de bicicletas de uso partilhado e já é possível alugar comercialmente bicicletas na vila. A nível local, parece-me uma terra que está a trabalhar em todas as frentes para uma mobilidade mais sustentável.
![]() |
| Ciclovia partilhada em Vilamoura. |
Prevejo abjecções quanto ao facto de isto ser coisa de ricos. Vilamoura terá ciclovias e ciclo coisas (e jardins e fontes...) porque é uma terra de lazer e com dinheiro de sobra. Uma terra sem dinheiro e que viva da industria e dos serviços tem é que se preocupar com os famosos "bons acessos e mais lugares de estacionamento" e será forçosamente mais feia e perigosa para ciclistas. Não concordo. É uma questão de prioridades. Quando os responsáveis da autarquia de Lisboa começarem a ganhar coragem para retirar espaço e financiamento ao Grande Deus Automóvel e começarem a preocupar-se mais com a segurança e qualidade de vida das pessoas, talvez descubram que isso afinal não sai assim tão caro, pelo contrário.
![]() |
| Acho que já tenho saudades do Verão de 2011... |
Não posso concluir sem um especial agradecimento à Ana, não só pela bicicleta de empréstimo, como pela organização de umas inesperadas e soberbas férias a Sul. Os pacientes modelos fotográficos improvisados Comandante Pedro e Co-Habitante também não estão esquecidos. Agora que a maioria regressa à labuta diária, espero que as energias venham também recarregadas, a cidade de Lisboa ainda apresenta muitos desafios ao ciclista utilitário, mas as coisas têm vindo a melhorar e com a ajuda de todos podem melhorar ainda mais. Não percam o fôlego e boas pedaladas.






















