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| Mais valia assumir |
Uma ideia:
Proíbam o ciclismo. Proíbam a circulação de bicicleta no espaço público.
Ilegalizem. Sobretudo em estrada, mas acabem com essa praga nas ciclovias também.
Tudo.
Prendam todos os prevaricadores, mão dura com esses esquisitoides. Assegurem que a nenhum ciclista será tolerado perturbar a circulação das vacas sagradas.
Responsáveis da nação, autarcas, este é o desafio. Combatam essas criaturas odiosas e desviantes! Está nas vossas mãos. Façam o que o povo anseia e serão recompensados com mais anos de poder, bajulações e honrarias.
É certo e sabido que em Portugal a diferença entre o que é a lei e o que se passa regularmente na prática é abismal. Não é de agora. Se o automobilista quiser andar a 100 em cidade não se passa nada. Já o contrario, circular legalmente de bicicleta em estrada pode ser muito complicado, para o ciclista claro. Porque não resolver isso? Se toda a gente parece achar que os ciclistas são um estorvo e nem a legislação nem as autoridades os protegem, por que não ajustar a lei ao que se passa na pratica? Ficava tudo mais arrumado e os potenciais interessados ficavam a saber com o que podiam contar.
Pela primeira vez em algum tempo, hoje fui todo o caminho de casa até Lisboa a pedalar. Na ida, não sucedeu nada de extraordinário, se considerar-mos normal os automóveis na marginal passarem (como sempre) a grande velocidade e a milímetros do meu guiador.
O regresso foi diferente. Parece que por onde quer que eu passasse, era fonte de irritação para toda a gente. Antes de chegar ao Cais do Sodré, já os taxistas me tinham feito rasantes suficientes para me depilarem as pernas. Na praça de táxis do Cais do Sodré, um fogareiro abriu (atirou com) a porta quando eu ia apertado por outro carro e por pouco não me apanha. Perante o meu protesto, os demais profissionais da praça encararam-me com um misto de nojo e desprezo. Decidi seguir pela ciclovia (de Belém), mas talvez não tenha sido a melhor ideia.
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| O Habitual, na "ciclovia" de Belém |
Em Alcântara, antes da GNR, atrás da AR Telecom e outras empresas, está um grupo de adolescentes espalhados pelo passeio e pela ciclovia. Uns estão de pé, outros esparramados no chão. Quando estou a passar, há um miúdo, que não poderia ter mais de 15 anos, que avança para o meio do caminho, sem me ver. Eu aviso "Cuidado", mas em resposta o adolescente resolve encarar-me e atira-me com um
"Cuidado o quê, »@"#$"%$? Eu respondo simplesmente sinalizado e dizendo "ciclovia", mas o resto da tribo já se está a levantar, avançando provocativamente e a gritando insultos, pelo que respondo um pouco na mesma moeda e afasto-me.
Tento não deixar que estas coisas estraguem o que de outro modo até estava a ser um prazenteiro regresso a casa. Afinal
eu só queira era chegar a casa. Mas a coisa não podia ficar por aqui. Mesmo a chegar, numa rua onde passo todos os dias, fui
quase vitima do famigerado
"Right Hook". O Problema das viragens à direita é soberanamente conhecido no mundo do ciclismo e há técnicas para melhorar as nossas probabilidades de seguir em frente em segurança. Uma delas é circular mais à esquerda antes do cruzamento, para que o automobilista não só perceba claramente que não vamos virar, como não possa ultrapassar naquele momento. Foi isso que eu fiz perante a presença de um carro atrás de mim antes do cruzamento. Não serviu de nada.
O Fiat nunca me ultrapassou. Manteve-se no meio da estrada, mesmo ao meu lado e depois virou à direita como se nada. O condutor tinha que estar em morte cerebral para não me ver. Justamente por já esperar todo o tipo de barbaridades dos enlatados, consegui, não sei como, evitar a colisão e não cair. Mas fui forçado a entrar na rua para onde a vaca sagrada queria ir. O que seguiu foi uma cena triste, comigo a perder todo o controle e a berrar o que me veio à cabeça naquele momento ao automobilista, ao mesmo tempo que o desafiava a parar. Em boa hora o mentecapto não o fez, porque eu estava com a adrenalina no máximo e tomado de uma raiva desconhecida. A violência que decerto de seguiria só me prejudicaria, mais uma vez, a mim próprio.
Eu só queria chegar a casa. Mas nunca nada é assim tão simples no país dos rodinhas. Já pensei tantas vezes em emigrar, só por causa disto. Parece que sou eu que estou mal, e quem está mal muda-se, não é assim?