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| Presidente da Câmara de Vilnius e o Mercedes na ciclovia. Imagem SWNS |
Tenho um colega da faculdade que identifica com a expressão "Falso Moralista" todo aquele que não esconde um comportamento menos convencional ou mais altruísta. Por exemplo, se andas de bicicleta na cidade sem ser por seres muito pobre, és um falso moralista. Tens preocupações ambientais, falso moralista. Separas o lixo para reciclar: falso moralista! Basicamente, o "falso moralista" para ele será todo aquele que tem ideias alternativas às socialmente prevalecentes, mesmo quando isso significa não acreditar em cunhas e não fugir aos impostos. Esta visão é bastante comum entre nós.
Durante muitos anos fui como os outros. Fazia o que toda a gente fazia. Ia de carro para todo o lado, estacionava o mais perto possível da porta de casa, por vezes em cima do passeio. Coleccionava multas da Emel. Na auto estrada andava à velocidade que o carro permitisse. Depois de uma noite de copos, voltava para casa de carro. Para andar de bicicleta ia para o monte, sempre de carro, claro.
Eu mudei. Este blogue é um dos resultados dessa mudança e neste blogue tenho encontrado alguma resistência às minhas opiniões. O consenso parece ser que existe um excesso de crítica da minha parte, e que Portugal não apresenta assim tantos problemas no que toca ao uso dos modos suaves.
Eu mantenho a discordância.
Os desafios que se colocam a quem enfrenta as nossas ruas e as nossas estradas de bicicleta são enormes. O clima de guerra civil rodoviária, mantém-se, bem como o sentimento de impunidade. A diário somos confrontados com todo o tipo de manobras perigosas e excessos, e apanhamos pequenos sustos que facilmente podem, num dia qualquer, ser algo bem mais grave. O automóvel reina supremo, deixando marcas de violência por todo o lado. Mobiliário urbano retorcido, postes e pinos derrubados, passeios vandalizados, este é a realidade por onde se move o ciclista urbano. Quem decide pegar numa bicicleta e tomar o seu lugar na via pública deve faze-lo de forma consciente e não inspirado por fotos de pessoas bem vestidas a pedalar em cima do passeio.
Eu sei onde vivo. Os meus amigos são pessoas inteligentes e com excelente formação académica. Mas mesmo entre eles, muito poucos são os que respeitam os limites de velocidade, o código da estrada (já de si manhoso), ou os que sabem ultrapassar um ciclista com um mínimo de segurança. Os noticiários regurgitam a diário todo o tipo de atrocidades na nossa rede viária. E todos temos parentes, amigos e conhecidos que estiveram envolvidos ou faleceram em acidentes de viação. A minha mãe foi atropelada numa passadeira. Sobreviveu. Mas um tio morreu da mesma maneira. O meu avô num acidente de moto. A lista é longa. Está é a nossa realidade. Escamotea-la não nos vai ajudar a mudar nada.
Para ser possível um nível de segurança mínimo para peões e ciclistas na nossas cidades, o uso do automóvel tem de ser limitado, mesmo fortemente reprimido. Fingir que isto não é verdade, que não é necessário, que podemos todos conviver é outra falácia. Eu sou a favor de pensamento e atitude positiva (ou nunca sairia de casa com uma bicicleta), mas estou um bocadinho saturado de contos de fadas. Lisboa é um parque de estacionamento baldio gigante. Vale tudo na capital. A policia fecha os olhos e a Câmara propõem soluções cosméticas enquanto se continua a insistir em benesses para o automóvel: "melhores acessos"; "mais estacionamento público". O que Lisboa precisa é de piores acessos e muito menos estacionamento! E mais passeios, mais faixas BUS, mais zonas de 30 km/h, mais zonas pedonais, ciclovias realmente segregadas, ciclofaixas seguras, sem perdas de prioridade e poucos cruzamentos. E uma policia municipal que faça... o seu trabalho.
Nada realmente mudou a não ser a vontade de mais pessoas pegarem numa bicicleta. Isso é fantástico, e provavelmente será o mais importante, mas ainda está quase tudo por fazer. O código da estrada prevalece. Não estamos mais próximos de legislação de strict liability. O país continua enamorado do grande libertador, o carro. Taxar ou acabar com o estacionamento público, fiscalizar o estacionamento ilegal, pedonalizar ruas, trocar o trânsito por esplanadas nas principais praças, construir ciclovias: tudo são iniciativas que podem significar o fim da carreira de um autarca. A campanha do presidente da câmara de Vilnius que ilustra este post dificilmente seria empreendida ou compreendida por cá.
Mas o relógio não para. Com tudo o que está a acontecer na nossa economia, e com o previsível aumento continuo do preço dos combustíveis fosseis nos próximos anos, eu quero ver como se vão deslocar as pessoas (e os bens) na zona de Lisboa, se os transportes públicos estiverem arruinados e só as elites puderem suportar o uso do automóvel. Continuamos a hipotecar o futuro e ninguém se parece questionar. As alternativas existem, e a bicicleta é certamente parte da solução. É pena que tão poucos entre nós a levem a sério.










